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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018 Fundado em 1891

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Dia dos Namorados: relacionamentos na era das redes sociais e da onda conservadora

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Se nos anos 1970 nem todo mundo se identificaria com a Metamorfose Ambulante de Raul Seixas, hoje poderíamos dizer que temos uma população quase toda consciente da máxima de que escolhas não precisam ser eternas, podem mudar no dia ou no momento seguinte. "É o fim do amor romântico", resume socióloga. Por outro lado, redes sociais servem de veículo para a carência, com a busca pela aprovação (likes), exposição do que é particular e suposto controle sobre a vida alheia -- do(a)(s) namorado(a)(s), por exemplo. Neste cenário de motivações infantilizadas e efêmeras, tanto a diversidade de escolhas ganha mais força e deixa de ficar escondida, quanto a onda conservadora reage de forma mais intensa. 

Não por acaso, podemos ver mais pessoas nesta sexta-feira (12) preocupadas em se encaixar. Solteiros podem ficar angustiados e publicar fotos fazendo piada com o fato de estarem sozinhos, namorados podem se sentir mais obrigados ainda a comprar um presente para sua companhia, mesmo que não tenham dinheiro ou não tenham ideia dos gostos do(a) amado(a). Que Dia dos Namorados é este? O que ele diz sobre a sociedade atual? O JB conversou com uma socióloga, um psicólogo e um comunicólogo para tentar esboçar.

Mito do amor romântico está se desconstruindo

Rosana Schwartz, socióloga e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que a primeira questão sobre os relacionamentos atuais é que o mito do amor romântico está se desconstruindo. Aquele príncipe encantado, a princesa, cultivados pela literatura e pelas histórias infantis, foram perdendo espaço no mundo pós-moderno. "As mulheres hoje mais empoderadas economicamente, no mercado de trabalho produtivo, fizeram com que a gente modificasse as formas de ver, estar e se relacionar com o mundo."

Outra questão é que várias outras composições dos casais hoje são consideradas algo natural, e antes eram escondidas, como o amor entre pessoas do mesmo sexo e as múltiplas sexualidades. Hoje, temos isso como algo natural, não como uma opção. Várias sexualidades surgem, com formas diferentes de promover a união e a harmonia, e há uma liberdade maior para falar sobre as diversas interpretações que existem em relação ao amor, "o amor real", e não aquele amor idealizado que nós tínhamos em tempos passados. 

"O que você faz nas redes sociais se projeta na vida cotidiana. Eu tiro essa discussão do mundo virtual e trago para o mundo físico, e as pessoas começam a debater e a criar outro tipo de comportamento a partir daí. Então, você tem vários relacionamentos que antes eles existiam mas ficavam escondidos, não é uma coisa que não existia antes, mas eles eram, vamos dizer assim, considerados algo que não era "correto" -- entre aspas porque não existe certo e errado nesse sentido --, mas eram considerados fora do padrão e por isso ficavam escondidos", destaca Rosana.

Dependendo da região geográfica e do grupo social, as pessoas se sentem mais confortáveis para ter os relacionamentos que desejam, da forma como querem. Mulheres viúvas, por exemplo, que antigamente se veriam instadas a ficarem sozinhas, hoje têm canais específicos na rede para encontrar um par.

"Apesar de tudo isso, ainda temos uma sociedade extremamente conservadora, com relação principalmente à mulher e à homossexualidade, enquanto o homem, dentro da sociedade patriarcal pode ter paixões por mulheres diversas. Isso era permitido e ainda continua sendo", aponta.

Mas alguns tabus estão sendo desconstruídos, acredita Rosana. Vários conceitos de amor estão sendo retrabalhados, como no caso do coletivo de pessoas que defendem que o amor não é só ligado ao sexo, que preferem não realizar o sexo para não descuidar do amor, porque amor é ter cuidado, dar respeito e ser respeitado. Há os grupos também que trabalham com o amor temporário, para os quais o beijo dado numa balada já é suficiente, se apaixona pelo indivíduo que está ao lado naquele momento. Há uma  troca muito rápida de pessoas, como se fosse o amor consumo, "eu consumo agora e passo para outro", explica Rosana

Nesse contexto, o Dia dos Namorados ainda leva a sociedade a uma "obrigação" de presentear seu parceiro e de ter parceiro, o que não tem se sente fora do social. "Mas isso é a relação no mundo do consumo, como o Dia das Mães, quando as pessoas que não têm filhos se sentem mal. A sociedade de consumo é um pouco perversa porque ela mexe, faz com que se tenha desejo de trocar objetos sem pensar no lado humano, nessas pessoas que não têm parceiros."

"O consumo que vem junto com ele acaba criando o ruído nessa discussão e nesse debate, porque aí a gente direciona mais para o que está consumindo, o que vai comprar, obrigação de presentear, e acaba se endividando. E se não tem o parceiro, cria a insatisfação e muitas vezes depressão e angústia extremamente complexas, esse é o problema maior", completa. 

Aurélio Melo, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ressalta que estamos em um contexto onde tudo acontece muito rapidamente, as relações são mais efêmeras e a fidelidade, aposta, é uma coisa em extinção, que não faz muito sentido neste cenário. O que não significa que ela não exista, mas que elas, por exemplo, podem durar menos tempo que em outras épocas. 

“Não somos nem fiéis a nós mesmos. Hoje sou uma pessoa, amanhã sou outra, canso do sofá da minha sala e quero trocar por outro, eles estão novos e em bom estado mas tenho que trocar. O amor também é liquido, se liquefaz rapidamente. Eu diria até que o nosso comportamento é cada vez mais modelado pela indústria do consumo, é difícil encontrar alguma coisa que não esteja ligada à questão do consumo, (...) que ao mesmo tempo que molda, cria novos desejos”, explica Melo.

Melo acredita que vamos viver esta sexta-feira como um dia de amor líquido, conceito ainda mais atual que o ano passado, acredita. As pessoas estão preocupadas com esse dia, tentando arrumar alguma coisa para o(a)(s) parceiro(a)(s), em um espírito motivado pelo consumo, de que a vida que se quer pode ser comprada. E as pessoas se veem obrigadas a gastar o dinheiro que não têm, mesmo por um relacionamento que sabem que não vai durar.

“Há necessidade de espetacularizar tudo, declarar intimidade em público”, destaca. “Criança é que fala tudo o que pensa. Não e trata de mentir, mas separar, nem tudo que você pensa você fala. De modo geral, as pessoas vêm sendo infantilizadas pelo mundo do consumo, a ideia do consumo também tenta mimar as pessoas.”

“Temos novas configurações amorosas, os papéis são mais temporários, as pessoas transitam mais por vários papéis. Décadas atrás, nos anos 1950, antes da Segunda Guerra, escolhas eram definitivas. Era ‘com quem você vai casar?’. Hoje é ‘com quem vou casar desta vez?’.”, explica. “Os conceitos de modernidade líquida e sociedade espetáculo são muito atuais.” 

Celso Figueiredo, professor de Mídias Sociais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que a gente vive uma sociedade muito infantilizada. "Todos nós somos mais carentes, mais dependentes da aprovação do outro, ficamos caçando curtidas e essa sociedade infantilizada, portanto mais dependente, é também uma sociedade que se superexpõe, no instagram, no Facebook, no Twitter, no Tinder, e assim por diante."

Para especialista, estamos vivendo momento de menor respeito às diversidades

Essa superexposição colocada em face da insegurança que a sociedade tem demonstrado "é uma receita de nitroglicerina para qualquer relacionamento", atesta, porque em um relacionamento maduro, em que as partes são seguras de sua importância para o outro, o fato de um ver que o outro seguiu ou curtiu determinada pessoa não gera abalos ou intrigas. 

"Parceiros mais ansiosos, infantilizados no relacionamento começam a perseguir, vigiar o parceiro nas redes sociais, e isso que gera potencial de conflito muito grande, que muita gente está vivendo. A sociedade está infantilizada, e as redes sociais são veículo para isso se materializar."

Para ele, estamos vivendo ainda um processo de retração das liberdades e do respeito às diversidades, já tivemos uma sociedade mais livre. As passeatas gays, exemplifica, já tiveram já mais participantes. Marcas ficam muito receosas em tocar em pontos polêmicos, e quando tocam são muito atacadas. 

"A discussão de respeito à liberdade diz respeito apenas a uma parte da sociedade, outra parte, que em outros momentos seria mais silenciosa, está mais ativa socialmente, em diversas dimensões, na política, nas comunidades, a gente vê uma intensificação do discurso conservador", argumenta o professor.

É um movimento de pressão de dois pensamentos, ambos querendo expandir a abrangência. Para ele, existe uma guerra para definir o que será considerado padrão na sociedade, como foi visto durante a campanha política do ano passado, quando as pessoas tentaram impor seu padrão de pensamento, o que vemos agora em relação à diversidade de gênero. "É um conflito que se acirra, porque os dois lados aumentaram o volume do discurso, os que defendem as liberdades e os que defendem a família tradicional conservadora. 



Tags: coletivos, conservadores, consumo, dia dos namorados, diversidade, espetáculo, liberais, redes sociais, relações, relações livres, sociedade

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