Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

País

Abaixo-assinado quer homenagem a mortos na Arena Corinthians

Portal Terra

A cerimônia de abertura da Copa do Mundo 2014, no último dia 12, teve um gosto amargo para a família da estudante Keille Pereira, 19 anos. Moradoras de Limeira, no interior de São Paulo, mas vindas de Bandeirantes, município de cerca de 30 mil habitantes do norte do Paraná, ela, as duas irmãs e a mãe esperaram que o pai, Fábio Luiz Pereira, 42 anos, fosse lembrado antes de a bola rolar entre Brasil e Croácia, ou mesmo na festa que antecedeu a partida. A espera foi em vão. O pai foi um dos operários mortos nas obras da Arena Corinthians, palco de abertura do Mundial, em novembro do ano passado.

“Achei que de alguma forma homenageariam meu pai e o outro operário que morreu durante as obras (Ronaldo Oliveira dos Santos, 44 anos) que deram origem ao estádio, mas eles sequer foram mencionados pelas autoridades. Foi uma falta de consideração muito grande com as famílias”, disse Keille.

Passado o episódio, Keille começou um abaixo-assinado para que um monumento homenageie as vítimas mortas na construção do estádio –e, de preferência, na entrada da arena, salienta o documento.

“Esses guerreiros também fizeram parte da Copa, e suas famílias ficariam felizes com a homenagem, para não deixar que eles caiam no esquecimento”, diz trecho do abaixo-assinado endereçado ao ministro Aldo Rebelo (Esporte), à Prefeitura de São Paulo, ao presidente do Corinthians, Mário Gobbi Filho, e a porta-voz da Fifa, Delia Fischer.

Até esta sexta-feira, ao menos 30 mil assinaturas haviam coletadas não apenas no Brasil, mas também em outros oito países aonde a iniciativa, com as respectivas traduções, foi levada: México, Colômbia, França, Inglaterra, Argentina, Itália, Alemanha e Estados Unidos.

“Sei que um monumento, seja ele uma placa simbólica com os nomes dos trabalhadores, não vai trazer a vida do Ronaldo e do meu pai de volta. Mas é uma forma de dizer que isso não será esquecido, além de ser um conforto para nós, familiares”, afirmou.

O pai de Keilla, que já havia sido palmeirense, acabou de convertendo ao Corinthians por influência das filhas –as demais têm nove e 21 anos de idade. Quando sofreu o acidente, trabalhava há dois anos para a Odebrecht, empreiteira responsável pelas obras e que, segundo a estudante, pagou uma indenização à família de Pereira graças a um acordo na Justiça. “Meu pai tinha muito orgulho de trabalhar na obra do estádio, não via a hora de ficar pronto. Agora, ficou um sentimento de tristeza e de revolta –a alegria e a empolgação de assistir a um jogo acabaram”, lamentou.

Mais de 700 abaixo-assinados no Brasil ligados à Copa O abaixo-assinado é coordenado pela Change.com, plataforma digital para divulgação de abaixo-assinados e petições que nasceu no Brasil e hoje mobiliza, pelos cálculos da entidade, aproximadamente 70 milhões de pessoas e 18 países. Desse total, 2 milhões são brasileiros.

Conforme a diretora de campanhas da Change.cm. Graziela Tanaka, o abaixo-assinado da filha do operário morto é um entre mais de 700 outros abaixo-assinados de brasileiros e de alguma maneira relacionados à Copa do Mundo 2014.

“A Keilla estava desapontada porque a Copa começou e é como se nada tivesse acontecido com esses operários. Há abaixo-assinados que pedem o nome Tatu-Bola para mascote da Copa (em vez de “Fuleco”), há os que pedem a profissionalização do futebol feminino, os que estão ligados em ambulantes removidos do entorno de estádios... esse é o momento de visibilidade para os ativistas”, avaliou a diretora.

“Em outros países, associa-se futebol a direitos humanos, e no Brasil não foi diferente. Aqui, por exemplo, essas inciativas conseguiram pressionar a Fifa para que baianas em Salvador, ou pernambucanas, no Recife, pudessem vender respectivamente acarajé a tapioca nos estádios. A mesma luta está sendo travada pelos barraqueiros do entorno do Mineirão, em Belo Horizonte, para a venda do ‘tropeirão’ (feijão tropeiro)”, apontou Graziela.

Tags: CONSTRUÇÃO, estádios, mortes, Mundial, Obras

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