Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País

Redes sociais se consolidam como um novo mercado para a política

Caso da 'Dilma Bolada' traz à tona potencial desta ferramenta para atingir opinião pública

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque*

Nesta semana, o blogueiro Jeferson Monteiro, criador do perfil fake no Facebook "Dilma Bolada", que conta com mais de 1 milhão de curtidas - enquanto o oficial tem pouco mais de 500 mil - denunciou que uma agência de publicidade teria tentado comprar a página para torná-la favorável ao PSDB de Aécio Neves, e não mais à presidente Dilma Rousseff. O caso ganhou incrível repercussão e reacendeu a discussão sobre a importância das redes sociais como ferramenta política e diferencial para as eleições.

"Está se formando um mercado de identidades virtuais por meio de blogs e páginas nas redes sociais. Sabemos que há centenas deles, com diferentes níveis de acesso, mas que ainda não estão precificados, não têm um valor de mercado. Quando tiver início uma formalização deste processo, terão preço. Essa questão com o perfil da 'Dilma Bolada' começou a marcar um valor, exatamente porque a imagem que o criador formou atrai as pessoas e potencializa a informação, no sentido do emissor pro receptor", defende o cientista político e professor da Unicamp Valeriano Costa.

Perfil fake da presidente Dilma Rousseff no Facebook
Perfil fake da presidente Dilma Rousseff no Facebook

O especialista afirma que o processo tende a se expandir. "É um novo mundo se abrindo, tem uma importância crescente. A internet multiplicou e difundiu a figura de identidade. As páginas têm um número gigantesco de acessos e o Brasil é um dos países com mais acessos dessas páginas no mundo. Se isso não for decisivo nas eleições deste ano, nas próximas pode ser ainda mais relevante", aponta. "Não é à toa que os meios de comunicação tradicionais estão sendo pressionados e os jornalistas criando sites. Não se sabe até onde vai esse movimento, mas é claramente marcante", completa.

Rafael Araujo, doutor em Ciência Política pela PUC-SP e professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, concorda que o movimento está consolidado. "É uma tendência crescente e permanente. Candidaturas já estão contratando serviços, já se sabe da audiência gigantesca da internet. Se o viral for bem feito, pode ter mais audiência que a televisão. É barato e eficaz", explica. "A legislação eleitoral não consegue controlar o uso da internet, então é uma estratégia bastante comum o uso de virais como forma de conseguir realizar um marketing sem danos para o candidato. Uma regra do marketing eleitoral é que quando você ataca ou destrata outro candidato isso volta contra você. Quem 'bate' no candidato acaba perdendo votos, e por isso costumava-se contratar candidatos nanicos para fazer esse papel. Agora não precisa mais porque há uma militância digital para fazer isso", esclarece o cientista político.

O professor ainda enaltece o perfil do "Dilma Bolada" como estratégia eleitoral. "Foi uma excelente oportunidade de marketing pessoal para a Dilma. Se o Aécio conseguisse comprar o perfil, minaria a estratégia dela e contra-atacaria sem se responsabilizar", finaliza.

Empresas como a "Campanha Completa" oferecem o serviço de construção da imagem dos candidatos nas redes sociais. "O Campanha Completa faz exatamente isso: é a democratização do acesso, para qualquer candidato e em qualquer lugar do Brasil, a um conjunto de instrumentos de comunicação para candidatos e candidatas a todos os cargos em disputa nas próximas eleições. Confira agora em nossas páginas como, em poucos passos, você terá seu site ou blog com integração às redes sociais, envio de e-mail e SMS, com todas as ferramentas disponíveis – e tudo isso já no PRIMEIRO DIA DE CAMPANHA!", anuncia o site da companhia. A agência Pepper Interativa também vende o planejamento de campanhas políticas, incluindo o gerenciamento, monitoramento e reposicionamento nas redes sociais. 

Recentemente, a página no Facebook da TV Revolta vem crescendo exponencialmente. Publicações com críticas ao governo petista e ao país, muitas vezes feitas por meio de estereótipos e preconceitos, se misturam a imagens de cachorros e frases de motivação para conquistar o público. O discurso moralista e a apelação alcançaram sucesso: já são mais de 3,5 milhões de curtidas. Alguns sites vêm questionando o conteúdo da página e a forma pela qual esta popularidade foi atingida. De acordo com um gráfico divulgado em um deles, a TV Revolta teve um salto anormal em sua taxa de crescimento, no intervalo de 15 de abril a 13 de maio, quando conquistou 1,5 milhão de curtidas. Além disso, foi a página que mais cresceu do dia 9 de maio ao dia 16 do mesmo mês no Facebook no Brasil, ganhando da "FIFA World Cup" e do jogador de futebol Neymar, de acordo com outro gráfico, da SocialBakers.

Neste mesmo site, compara-se o crescimento da página do apresentador Luciano Huck, que conta com 13 milhões de fãs no Facebook, com o da TV Revolta. Enquanto a primeira atinge 500 entradas por hora, a segunda consegue 13 mil. Segundo o texto, há duas possibilidades para o fato: uso de robôs ou publicidade paga. O uso de robôs é visível, o autor afirma, apontando para o uso de perfis falsos para compartilhamentos, o que interfere no número de pessoas que estão "falando" sobre a página. Quanto à publicidade, ele diz ser difícil precisar o tamanho do gasto para fazer a TV Revolta crescer tão rápido. "A quem seria interessante promover uma página aparentemente boba, mas com forte conteúdo conservador, raivoso e anti-PT?", questiona. "O interesse visivelmente é político", conclui.

No mesmo artigo também é afirmado que José Serra "andou anabolizando sua rede social por 2 dias, totalizando cerca de 150 mil fãs nesse período". O texto informa que a página aparentemente estava offline, já que não era possível rastrear o crescimento nem acessá-la, e que voltou ao ar com "espantosos" 180 mil fãs.

Perfis fakes de Eduardo Campos e Aécio Neves
Perfis fakes de Eduardo Campos e Aécio Neves

Diversos políticos já perceberam a nova tendência e construíram uma forte presença nas redes sociais. É o caso do deputado federal Jean Wyllys (PSOL), que já conquistou quase 390 mil curtidas e possui uma equipe para responder os comentários dos leitores. Marcelo Freixo, deputado estadual pelo mesmo partido, é outro exemplo, com quase 200 mil likes. O ex-presidente Lula tem mais de 800 mil, enquanto Marina Silva, vice na chapa de Eduardo Campos (PSB), possui quase 700 mil. Campos, por sua vez, conta com mais de 950 mil e um perfil fake: o "Eduardo Descolado", com quase 3.500 likes. Aécio Neves (PSDB), que recentemente tirou uma foto com o jogador Ronaldo e recebeu apoio político do mesmo por meio da rede social, já alcançou mais de 700 mil curtidas. Em 2013, foi criada a conta "Aécio Boladasso", excluída algumas semanas depois por não ter alcançado sucesso, já que em uma semana foram apenas 3.700 curtidas. Eduardo Paes (PMDB), prefeito do Rio de Janeiro, tem quase 75 mil fãs. Na extrema direita, o deputado federal Marco Feliciano (PSC) possui mais de 1 milhão de seguidores. Jair Bolsonaro (PP) já conquistou quase 470 mil.

Além dos perfis dos políticos, diferentes páginas defendem determinado partido ou ideologia em detrimento de outros, ainda que muitas vezes de forma velada. A Pragmatismo Político, com mais de 320 mil curtidas, se aproxima dos partidos de esquerda, como PT e PSOL. É o mesmo caso da TV Relaxa, que surgiu em oposição à TV Revolta e tem mais de 47 mil likes, e da Política no Face II, com quase 25 mil fãs. Mais próximas ao PSDB estão a TV Revolta e a Fora PT (quase 240 mil). Já a Folha Política (mais de 580 mil) se aproxima mais do PSB. A Anonymous, por sua vez, com mais de 179 mil fãs, é a que mais se distancia de qualquer legenda.   

*Programa de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: campanha, Eleições, financiamento, internet, política, redes sociais, votos

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.