Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País

FHC: "a Copa é um símbolo, mas a irritação vem de antes" 

Ex-presidente recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Tel Aviv

Portal TerraHélio Gomes 

Às vésperas de completar 83 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso segue firme em sua trajetória como referência intelectual internacional. Na última quinta-feira, 15 de maio, o sociólogo, filósofo e cientista político recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade de Tel Aviv, em Israel, e foi o orador de um grupo composto por personalidades excepcionais, como o australiano Paul Zimmet, um dos maiores especialistas sobre diabetes no planeta, e o matemático canadense David Sankoff, pesquisador renomado na área de bioinformática e no estudo do genoma humano.

Na manhã do último domingo, FHC recebeu a reportagem do Terra para uma entrevista exclusiva, na qual revelou suas expectativas a respeito dos fatos mais marcantes dos próximos meses no Brasil, as eleições de outubro e a Copa do Mundo. Ao menos no terreno futebolístico, o ex-presidente já deixa claro onde estará na hora H: "não vou ao estádio. O melhor lugar para assistir futebol é na frente da televisão".

Terra – Gostaria que o senhor falasse sobre o motivo que o trouxe a Israel. Qual a importância do título que lhe foi entregue pela Universidade de Tel Aviv?

Fernando Henrique Cardoso – A universidade me deu um título de Doutor Honoris Causa. Oito pessoas, dos cinco continentes, receberam esse reconhecimento na cerimônia. São todos notáveis, como cientistas, empreendedores e também uma poeta. Sempre tive muitos amigos aqui, inclusive já tenho um doutorado da Universidade Hebraica. Como, à época, eu era presidente, eles foram ao Brasil para me entregar. Agora eu pude vir, e eles me pediram para expressar os sentimentos de todos os laureados com um discurso. Uma tarefa honrosa e difícil, já que tive de falar em nome de todos. Disse um pouco do que penso sobre o mundo em que vivemos e foi muito agradável, uma honraria.

Terra – Falando de política externa, como o senhor avalia a imagem atual do Brasil? Primeiro, tivemos as denúncias de espionagem por parte do governo americano e a pronta resposta da presidente Dilma Rousseff. Também há um aparente desencanto com o País, explícito em uma recente capa da revista inglesa The Economist, que mostrava o Cristo Redentor voando como um míssil desgovernado. Como está o Brasil fora do Brasil?

FHC – Pelo jeito, a presidente Dilma não tem muito gosto pela política externa. Parece ser uma pessoa concentrada na política local. Já o presidente Lula e eu tínhamos mais interesse no exterior. Embora as visões não sejam as mesmas, nós dois tínhamos a convicção de que o Brasil tinha de ter um certo protagonismo. No meu caso, eu achava que o Brasil deveria defender a democracia e os direitos humanos, exercendo uma influência forte na América do Sul, abrindo as portas para a África e mantendo um contato dinâmico com os países do Oriente, sem esquecer que o Brasil é um país ocidental – temos de manter boas relações, sobretudo comerciais, com os Estados Unidos e a Europa.

Já o presidente Lula foi mais para o lado do Terceiro Mundo, e colocou como objetivo a busca por um lugar no Conselho de Segurança da ONU. Ele abriu embaixadas pelo mundo afora. Eu discordava disso porque acredito que o Conselho de Segurança não iria mudar e não abriria espaço para o Brasil, como não abriu. Ele colheu alguns frutos importantes, sobretudo comerciais, com essa presença mais ativa. Mas a presidente Dilma parece que não tem esse mesmo ímpeto – e ainda sofreu com a crise provocada pela espionagem do governo americano. Todos reagiram, como a (chanceler alemã) Angela Merkel. Mas parece que ela ficou um tanto mais desagradada. 

Talvez Dilma tenha confundido uma reação necessária com uma posição de bloqueio. O Brasil perdeu espaço. Na América Latina, por exemplo, ela não foi muito ativa na defesa da democracia e os países bolivarianos passaram a ter mais força. O Brasil ficou com uma imagem terceiro-mundista. Já os países do Pacífico, como Chile, Peru, Colômbia e México, avançaram. Hoje, o Brasil está em uma posição intermediária. Não somos líderes e não estamos defendendo valores efetivos. 

Veja a postura do Brasil diante do que ocorre na Venezuela. Estamos acanhados, eles estão indo num caminho antidemocrático. Nossa política externa é discutível. Um dos símbolos disso é a imagem do presidente Lula levantando a mão do (presidente iraniano) Mahmoud Ahmadinejad. Ele achava que seria uma grande coisa, mas não passou de uma grande falha diplomática. Mas a imagem do Cristo desgovernado é um  exagero, a situação não é tão dramática.

Terra – Vivemos mais um dia de protestos intensos contra a Copa do Mundo na última quinta-feira. Quais são as suas expectativas em relação ao Mundial?

FHC – Acredito que as manifestações não são contra a Copa, todo mundo no Brasil gosta de futebol. Mas acho que o governo do presidente Lula errou ao propor o evento em 12 cidades – a Fifa já disse que não pediu que fosse assim, foi uma proposta do governo. É muito dispendioso, envolve uma logística muito complicada, o País é muito grande. E também nos atrasamos demais nas obras de infraestrutura. O custo se elevou muito, e as pessoas desconfiam, provavelmente com razão, de que houve sobrefaturamento. 

Junte tudo isso e a população se irrita. Mas não é só isso, a Copa está sendo usada como símbolo, mas a irritação vem de antes. A vida contemporânea no Brasil é muito difícil para o povo. O transporte é ruim, a segurança é pouca, a educação e a saúde são de má qualidade. Aí surge aquele slogan: "Queremos tudo no padrão Fifa". São vários fatores de descontentamento concentrados na Copa. O momento é delicado, e a possibilidade de manifestações existe. Não sei se dentro do campo, mas no entorno. 

Com a internet, as pessoas se mobilizam e reagem. Às vezes, sem comando. Esse é um fenômeno contemporâneo. Agora, se não houver um tratamento adequado, se a reação for exagerada, fica pior. É um teste muito delicado para o governo. Agora, se o Brasil ganhar, tudo fica mais fácil. E eu torço para que o Brasil ganhe, mesmo que politicamente não seja interessante. O "quanto pior, melhor" nunca é interessante. O fato é que teremos semanas delicadas daqui até o final da Copa.

Terra – O senhor vai assistir a algum jogo da Copa no estádio?

FHC – Não, eu nunca vou ao estádio. O melhor lugar para ver futebol é na frente da televisão.

Terra – Qual é a opinião do senhor em relação aos Black Blocs?

FHC – Esse é um fenômeno mundial. Assisti ao começo do movimento em uma reunião com os presidentes das Américas em Québec (Canadá). Eles são muito violentos, como já vimos em várias manifestações durante reuniões do Fundo Monetário Internacional. Trata-se de um movimento contra a ordem dominante, é anarquista e anticapitalista. É mais irracional, baseado apenas no "não quero". No Brasil, eles se misturaram aos protestos populares, causando até uma paralisação nos outros manifestantes, que ficaram com medo. Trata-se de uma questão de segurança, já não é mais política, porque esse pessoal não está propondo mudanças de governo. Eles propõem a desordem – e aí o governo precisa atuar com competência. 

Terra – Há quem diga que as eleições desse ano serão as mais sujas da nova democracia brasileira. Corremos o risco de deixar o debate político de lado e partir para um vale-tudo de dossiês e denúncias rasteiras?

FHC – Há muitos anos o PT faz isso. Eles sempre inventam coisas do tipo, mas isso nunca pegou muito fogo. O momento atual é mais difícil para eles, porque os escândalos que aparecem estão dentro do governo, e não na oposição. Agora, no que depender do PSDB, não vai haver essa guerra. Não acho que isso tenha resultado eleitoral. Já houve tantas tentativas nesse sentido, de desmoralizar o concorrente, que não causa mais efeito.

Sempre há quem ganha dinheiro com esse comportamento chantagístico, mas espero que ele não domine a cena. Acredito que as comissões que investigam essas denúncias vão funcionar. Não falo só das CPIs. Há um fenômeno muito positivo no Estado brasileiro: a Polícia Federal está atuando de forma independente, o Ministério Público também. Se as forças políticas entenderem que não é interessante centrar sua estratégia na exploração de dossiês ou escândalos, é melhor para o Brasil.

Terra – Como o senhor avalia o comportamento atual do mercado? Basta sair uma pesquisa apontando queda nas intenções de voto para a presidente Dilma que o dólar cai e a bolsa sobe.

FHC – A presidente Dilma quebrou a confiança dos agentes econômicos. Eles acham que ela é interferente. Por isso, comemoram quando as manchetes mostram que ela caiu. Mas isso é uma simplificação. Não foi a presidente Dilma que fez tudo isso, essa postura vem desde o presidente Lula. Mas é claro que há certos traços nela que acentuam essa percepção. As pessoas não acreditam mais que ela vá recuperar a confiança do mercado, que está julgando o comportamento político do atual governo. Mas, veja bem, isso não é capaz de influenciar o comportamento político da população. O povo não acompanha a bolsa de valores. Mas o mercado já deu o recado. Para ele, é melhor que mude o governo.

Terra – Gostaria que o senhor fizesse uma breve avaliação dos candidatos do PT e do PSB à presidência da República.

FHC – Eu respeito pessoalmente a presidente Dilma. Não sou daqueles que acham que ela é responsável por todos os nossos problemas. Acredito apenas que ela tem a sua própria visão, com a qual eu não concordo. Mas creio que ela é Íntegra, que não favorece malandragens econômicas e outras coisas do tipo. Acredito que ela se dedica muito ao trabalho, mas não tem capacidade política para manejar o Congresso ou para falar com o País. E passa a sensação de que não tem força dentro do seu próprio partido. Ela herdou um arco de alianças enorme feito pelo presidente Lula – um arco criado nem sei para quê, já que o governo Lula tinha a maioria no Congresso Federal. Ele não precisava ter tamanha hegemonia para mudar as coisas. A meu ver, ela não tem capacidade política para gerir essa hegemonia.

Quanto ao Eduardo Campos, ele foi um bom governador, tem experiência, e é neto do Miguel Arraes (ex-governador de Pernambuco, morto em 2005). Mas ele sofre por ter sido parte e aliado do governo atual por muito tempo. Como ele pode ter legitimidade para criticar a presidente Dilma? Mas é um homem experimentado e fez um bom governo em Pernambuco. Por outro lado, essa localização geográfica também faz com que ele tenha menos condições de somar votos. O Nordeste, como fato eleitoral, só existe no Sul. Lá, cada Estado é um Estado. O que quero dizer é que não acredito que ele terá uma votação enorme no Nordeste. Isso vai acontecer, com certeza, apenas em Pernambuco.

Eduardo tem como vantagem o apoio da Marina Silva (vice na chapa de Campos e ex-candidata à Presidência pelo PV em 2010), que atrai uma parte interessante do eleitorado mais jovem. A questão é saber até que ponto esses votos vão se transferir para o Eduardo.

Terra – E como o senhor avalia o candidato do PSDB, Aécio Neves?

FHC – O Aécio tem algumas características semelhantes às do Eduardo. Ele também foi um governador muito bem avaliado em Minas Gerais, principalmente em temas sensíveis, como segurança, educação e saúde. Também é muito experiente, foi presidente da Câmara e senador, além de contar com uma estrutura partidária maior e com o apoio de Minas Gerais. Claro que eu puxo a sardinha para o meu lado, mas, em tese, os três possuem boas condições para ser presidente. Todos dependerão muito do desempenho na campanha. 

Em uma disputa eleitoral com 140 milhões de votos, não adianta ter apenas estrutura partidária. É preciso saber o que dizer e como dizer. Você tem de tocar o eleitorado não só com a razão, mas também com a emoção. Tudo depende de como essas pessoas vão se apresentar ao País. E é isso que está começando a acontecer. Na verdade, creio que a maior virtude dessas eleições é que nenhum dos candidatos vai quebrar as instituições nacionais. Não corremos o risco de ter um aventureiro no poder.

Terra – Se coubesse ao senhor a escolha do candidato a vice na chapa do PSDB, quem ele seria?

FHC – Muito dificilmente um vice rende votos, mas ele pode afastar parte do eleitorado. E tem de ser alguém que, eventualmente, possa ser presidente. Nossa história mostra isso. Não conversei com o Aécio sobre isso recentemente, mas é preciso muita reflexão. Primeiro: vale a pena reforçar o eleitorado paulista? Se a resposta for sim, isso favorece José Serra, Mara Gabrilli (deputada federal pelo PSDB-SP) e Aloysio Nunes Ferreira (senador pelo PSDB-SP). Outro ponto importante para reflexão: há chances de ampliar o leque de alianças ao escolher um candidato como Ana Amélia Lemos (senadora pelo PP-RS)? Ou vamos pegar alguém do Nordeste? A questão ainda não está muito clara. 

O Aécio mandou fazer algumas pesquisas, é preciso examinar esse ponto com muito cuidado. No caso do Serra, nem sei se ele quer participar da chapa. Já a Mara Gabrilli é uma pessoa fantástica. Ainda não a conheço suficientemente para julgar se ela pode ser presidente em alguma eventualidade. Enfim, é uma "escolha de Sofia". Não sei dizer a você qual será essa decisão,  nem terei papel ativo nela.

Terra – Qual será a sua participação durante a campanha eleitoral?

FHC – Sempre fiz tudo que o partido me pediu. Houve uma época em que os candidatos achavam melhor não me botar na campanha porque eu poderia atrapalhar. Mas cada um tem a sua visão. Só sei que não vou dar cotovelada para aparecer, prefiro ficar na minha. O Aécio me pede mais coisas do que os outros pediram, nós conversamos bastante. Não estou dizendo que o Serra não era próximo a mim. Mas o Serra não pede conselhos, ele tem opinião. Tenho uma relação muito fluida com o Aécio, ele me ouve. Mas lá no fundo, eu acho que o candidato se faz sozinho. Para ganhar votos, um candidato não precisa de outra coisa senão dele próprio.

Tags: Aécio, cardoso, fernando, henrique, sucessão

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