Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País

'Financial Times': livros ajudariam a ver historicamente o futebol brasileiro

Segundo jornal, recentes publicações apontariam reflexos sociais do Brasil no próprio futebol

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O futebol realmente ajudou o Brasil na construção da identidade nacional. É o que concluiu o jornal Financial Times, em matéria publicada no último sábado (10). Segundo o jornal, o futebol funcionaria ainda com uma lente e nos ajudaria a enxergar tanto as belezas quanto as mazelas do país, dando visibilidade para pessoas que normalmente seriam ignoradas – os pobres.

A matéria tenta descobrir o que o futebol revela sobre o Brasil em um contexto mais amplo. A matéria lembra que apesar do Brasil ter atingido a inigualável marca de cinco Copas do Mundo ganhas, muito pouco já havia sido escrito em inglês sobre a questão do futebol. Agora, com o Brasil prestes a sediar a Copa do Mundo, uma enxurrada de livros está aparecendo.

Um ponto que a matéria do Financial Times toca é que o futebol brasileiro refletiria também a violência no país: a matéria diz que torcedores frequentemente são mortos. Além disso, a matéria estabelece uma ponte com a dependência econômica do Brasil em exportações de matérias-primas. Segundo o Financial Times, todos os principais jogadores brasileiros agora jogam no exterior.

O jornal fala também da corrupção do Brasil. O jornal diz que os diretores dos clubes e instituições do futebol brasileiro fazem que os clubes europeus pareçam modelos de boa governança. De acordo com o jornal, uma só família – João Havelange e, posteriormente, Ricardo Teixeira – governaram a CBF, que o jornal chama de associação terrível do futebol brasileiro, entre 1958 e 2012. O jornal diz ainda que Teixeira recentemente se refugiou em Miami após algumas revelações embaraçosas.

Segundo o Financial Times, o mais completo é o livro “¡Golazo!: A History of Latin American Football”, escrito por Andreas Campomar. A matéris diz que o livro de Campomar oferece a história do Brasil como ferramenta útil de contextualização. O jornal diz que, segundo o livro, os britânicos, influentes economicamente na América do Sul do século XIX , foram lentos para difundir o futebol no Brasil. Só começou a acontecer em 1920, e, ainda assim, a elite branca esteve relutante em deixar que as pessoas negras jogar . A seleção, permaneceu em sua maioria composta por brancos, para impressionar os estrangeiros com a pureza racial do Brasil.

O livro de Campomar aborda também a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950, o que, segundo o autor, teria contribuído para reforçar um histórico “complexo de vira-lata”.

Outro livro recente que a matéria do Financial Times aborda é o “Futebol Nation: A Footballing History of Brazil”, escrito por David Goldblatt. Segundo a matéria, nada próximo ao livro já foi escrito, nem mesmo em português. Segundo o jornal, Goldblatt mostra como o futebol ajudou o Brasil a aceitar sua diversidade étnica. O jornal conta que na década de 1930, o cientista social Gilberto Freyre começou a subverter o sentimento de vergonha, fazendo com que a herança brasileira de diferentes povos se torna-se motivo de orgulho.

O livro lembra que Freyre argumenta que a presença dos mulatos no futebol introduziu “danças, truques e arte” na prática brasileira do esporte. Nessa época, de acordo com a matéria, os intelectuais da América Latina estavam tentando enaltecer suas particularidades, em vez de vender seus países como versões menores da Europa.

A matéria diz ainda que, de acordo com o livro de Goldblatt, a presença de personagens como Pelé e Garrincha foram fundamentais para embasar as teorias de Freyre.

De acordo com a matéria, o futebol teria sido a única arena em que a América Latina liderou o mundo, pelo menos até cerca de 1994. O jornal diz ainda que, por conta disso, não seria surpresa o desejo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sediar a Copa do Mundo deste ano. O jornal diz ainda que só o futebol já deu ao Brasil um lugar no cenário global que fosse proporcional com o tamanho do país.

Argumentos sobre o estilo nacional são muito bem contados, segundo o Financial Times, no livro "Shocking Brazil: Six Games that Shook the World Cup", escrito por Fernando Duarte. Segundo a matéria, o livro traz ótimas histórias sobre o futebol brasileiro.

O Financial Times disse ainda que, por enquanto, o panorama do futebol no Brasil permanece refletido em uma parte negativa, mais evidente, e que os livros citados serviriam para ajudar a ver os motivos de o Brasil estar sediando a Copa nesse momento, se libertando de estereótipos.  

Tags: andreas campomar, copa do mundo, david goldblatt, estudos, fernando duarte, futebol, gilberte freyre, literatura

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