Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

País

Empreiteiras: o alvo de uma população cansada do descaso e do lucro para poucos

Ocupação da sede das empresas mostra que a paciência com desmandos chegou ao limite

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque*

O protesto da última quinta-feira, em São Paulo, no qual grupos sociais invadiram sedes das construtoras OAS, Odebrecht e Andrade Gutierrez, foi muito mais do que apenas mais uma forma de manifestação contra a desigualdade e a cobrança de melhorias sociais. Ao eleger como alvo as principais empreiteiras do país, a população mandou um recado claro para as autoridades: acabou a paciência com os escândalos, as denúncias e as constantes suspeitas nas relações entre o poder público e a iniciativa privada.

O sociólogo Michel Nicolau, da Unicamp, esclarece que as empreiteiras são um símbolo do lucro das entidades privadas com a Copa do Mundo, em detrimento das camadas mais baixas da população. "As empreiteiras são o símbolo do grupo que lucra mais com as perdas das pessoas que estão sendo desalojadas com os megaeventos. Essas empresas lucram tanto do ponto de vista da construção civil, quando se apropriam do lugar que as pessoas moravam e fazem um estádio, quanto do ponto de vista da especulação imobiliária, já que iniciam empreendimentos na área em volta dessas construções e colocam o valor que desejam. São agentes deste processo, assim como o Estado", explica.

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Nicolau destaca os impactos que a Copa vem causando na vida dos cidadãos menos privilegiados. "A Copa é um momento de visibilidade e pressão e oferece um impacto direto para alguns grupos, pensando tanto no dinheiro que não foi direcionado para demandas sociais, quanto na piora na vida dessas pessoas, como é o caso dos sem-teto. É um movimento cada vez mais necessário e relevante por termos passado por um período de privatização do espaço público e por termos um setor imobiliário totalmente desregulado, sem controle dos valores dos aluguéis", aponta. Ele critica também os desalojamentos resultantes das obras para o evento.  "A Copa tem o impacto de desalojar várias pessoas, e esse processo se dá muitas vezes sem garantia de moradia para os desalojados, ou quando oferecem um local para morar é muitas vezes longe do trabalho. Por conta da Copa exigir uma série de urgências e abdicar de uma série de discussões democráticas, os grupos são despejados de forma violenta e rápida", denuncia.

O sociólogo chamou atenção, ainda, para a especulação imobiliária crescente no país e como as empreiteiras lucram com este processo. "Além disso, a Copa causa, já que não há um controle do valor urbano, uma especulação imobiliária tremenda. Com o Itaquera, de acordo com pesquisas, teve um aumento de 200% nos terrenos próximos. Além do desalojamento para alguns, as pessoas que não foram desalojadas não tem mais condição de pagar o aluguel, de morar naquele espaço, e as mercadorias passam a ser mais caras também. Isso em contraposição a um grupo que lucra extremamente com este tipo de situação, as empreiteiras", discorre.

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Para ele, ocorre no Brasil um processo de gentrificação, situação pela qual pessoas de maior poder aquisitivo se mudam para um bairro ou região que sofre especulação imobiliária, obrigando que os moradores originais, de renda mais baixa, se retirem, por não conseguirem mais pagar o preço do aluguel, por exemplo. "Essa questão da especulação imobiliária vai além da Copa, inclusive. Se você constrói uma linha de metrô que chegue até um bairro mais pobre, os valores dos imóveis automaticamente vão aumentar, e as pessoas que moravam ali não conseguirão pagar o aluguel. É um processo de gentrificação", defende. "A Copa, por sua vez, é uma arena de disputa simbólica, dá visibilidade para incômodos nunca articulados. Enquanto isso, o governo tenta passar a imagem do Brasil moderno, a oposição tenta passar a imagem de que o governo é incompetente e os patrocinadores tentam passar a imagem de um país alegre", continua.

Segundo Nicolau, o principal alvo dos protestos desta quinta-feira foi o capital privado. "O ato desta quinta-feira não foi político, foi um ato contra um ente privado, contra a resistência das empreiteiras, que querem construir prédios de escritório, porque elas são as que mais lucram com essa privatização do espaço público", assegura. O sociólogo afirma, ainda, que as manifestações contra a Copa não devem alterar o resultado das eleições. "Acredito que os protestos contra a Copa não tenham impacto em termos de eleição presidencial porque não tem como colocar a culpa em um ou outro. A Copa, por mais que seja obrigação do Governo Federal, teve como signatários todos os estados. Em Minas era o Aécio, que não tem como escapar que estava envolvido, em Pernambuco era o Campos, no Governo Federal era o Lula... Todos os candidatos aceitaram o evento. Vai ter uma disputa de discursos, um tentando buscar o argumento de que as coisas boas foram eles que fizeram e que as coisas ruins foram os outros", conclui.

Roseli Martins Coelho, cientista política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), concorda que as empreiteiras representam a especulação imobiliária. "As empreiteiras são claramente o símbolo da especulação imobiliária. Elas fazem parte do grupo de instituições que o brasileiro considera pernicioso. Tentar ocupar as sedes foi uma iniciativa impactante, porque ninguém tinha feito isso antes. Esses movimentos foram para lá porque são altamente politizados, bem informados e os dirigentes sabem que as empreiteiras foram responsáveis pelas obras dos estádios", declara a doutora.

A cientista política acredita que em 2013 os protestos foram um fenômeno da classe média e que, em 2014, estão sendo realizados por movimentos sociais que têm "causas e ligações com uma parte mais de baixo da estratificação social, que são pessoas mais vulneráveis". Ela afirma que as manifestações podem provocar uma movimentação, mas que provavelmente não impedirão os jogos da Copa.

Coelho, assim como Nicolau, defende que os protestos não afetarão o resultado das eleições presidenciais. "Caso aconteça uma grande tragédia na Copa, algo muito violento, isto pode ser explorado pela oposição contra o governo. A candidatura da Dilma, por sua vez, deve explorar o que acontecer de positivo. Se a Copa modificar muito o cotidiano das pessoas, em termos de transporte, por exemplo, pode causar uma queda maior na popularidade da Dilma, mas acredito que não o suficiente para mudar o resultado esperado da reeleição", expõe.

Eduardo Rodrigues Gomes, cientista político da UFF, sugere que seja criado pelo poder público um espaço de discussão. "A responsabilidade do poder público é criar um fórum de negociação, em que os movimentos, as empreiteiras e a Prefeitura estejam representados. Um fórum de discussão poderia buscar uma solução e uma resposta para todos", indica.

Natália Szermeta, da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), já afirmou que a ação de quinta-feira foi somente a primeira da jornada "Copa sem povo, tô na rua de novo", que busca reivindicar que "os bilhões que estão sendo distribuídos para a construção do megaevento sejam utilizados para os trabalhadores".

*Programa de Estágio Jornal do Brasil

Tags: Copa, empreiteiras, especialistas, especulação, imóveis, manifestações, movimentos, Obras, protestos

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