Jornal do Brasil

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

País

Testemunha conta como socorreu militar ferido em atentado no Riocentro

Agência Brasil

O corretor de imóveis Mauro César Pimentel, de 52 anos, depôs hoje (29) na Comissão Nacional da Verdade como testemunha do atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981, e contou que sofreu ameaças depois que revelou sua versão dos fatos. Pimentel, que também foi militar e policial, narra que viu o sargento Guilherme Pereira Rosário e o capitão Wilson Luiz Machado armando a bomba que minutos depois explodiu com eles dentro do carro. Ele afirma que tentou socorrer o capitão, que ficou gravemente ferido. O sargento, que estava com o explosivo no colo, morreu na hora.

"Eu era muito jovem e não tinha a estrutura que tenho hoje para enfrentar isso", explicou ele, contando que servia ao Exército na época, quando tinha 18 anos. Logo depois, ele entrou para a Polícia Militar, onde, inclusive, soube que era procurado: "Eles falavam que tinham que achar o cara que socorreu o capitão, sem saber que eu estava ao lado deles".

No dia do show, Pimentel saiu de Niterói com dois amigos para ir ao Riocentro, na zona oeste do Rio. Ao chegar no complexo de eventos atrasado, ele estranhou o fato de não haver alguém cobrando as entradas. "Depois, vimos a puma (modelo de carro da época, no qua estavam os militares) sair de uma vaga, e paramos nela. A puma ficou parada na traseira do carro do meu amigo".

Quando desembarcou e seguiu para o show, ele conta que olhou para dentro do carro puma e viu dois cilindros no banco de trás e um no colo do carona, que se irritou e o xingou. Como tinha esquecido algo no carro, ele voltou depois e, ao passar novamente pelos militares, foi ainda mais hostilizado: "Sai daqui agora, seu filho da puta!", disse um deles. Ao se afastar, ele ouviu o estrondo da explosão e correu em direção ao carro.

"Se ele [o capitão Wilson] quiser negar isso o resto da vida, que negue. As provas mostram que as mentiras deles vêm à tona. O carro não estava em movimento, estava parado. E não teve granada. Eu socorri ele, e o tirei de dentro do carro, com os olhos esbugalhados, o braço chamuscado e o abdome sangrando muito. Como não consegui falar com ele, botei a mão na carteira dele e vi que era capitão do Exército. Eu era militar e tentei salvar um militar", conta ele, que continua a narração: "Corri até a entrada do Riocentro e não tinha ninguém. Quando voltei, ele não estava mais lá. Aí, deixei a carteira para não me acusarem de furto".

"Eu cheguei a procurar um amigo que era militar e perguntar o que eu deveria fazer. Ele disse: 'Se você quer viver e constituir família, se quer ser alguém na vida, se cale. Se você contar e disser que me contou, eu vou negar". Depois desse conselho, ele e os amigos decidiram esconder a história. Os outros dois permanecem com as identidades preservadas pelo pacto que o trio fez.

A história de Mauro veio à tona quando ele assistiu uma reportagem televisiva em 2011. Acreditando que os crimes já haviam prescrito, ele decidiu contar toda a história ao filho, que estudava jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio e era aluno do jornalista Chico Otávio, do jornal O Globo. Ele aceitou que o filho levasse o caso ao professor, que o entrevistou e trouxe seu depoimento a público. Mauro já foi ouvido pelo Ministério Público Federal (MPF), que processou seis pessoas no início deste ano pelo atentado, entre elas o hoje coronel reformado Wilson Luiz Machado. "Eu não sabia que o crime não havia prescrito. Achei que seria só uma entrevista".

O MPF argumenta que o crime não prescreveu por causa da assinatura de um acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que impede que crimes contra a humanidade prescrevam. Em relação à Lei da Anistia, o argumento é de que o período dos crimes anistiados se encerra em 1979, dois anos antes do atentado.

Depois de revelar a história, ele conta que recebeu ameaças. "Recebi e-mails que diziam: 'se ficou calado por 30 anos, agora vai ficar calado para sempre'. Foram atrás de mim no Orkut e cheguei a trocar de telefone, porque ligavam e ficavam em silêncio". Ao se dirigir à CNV para dar depoimento, ele conta que pegou dois ônibus e metrô, viajando inclusive no sentido contrário, para ter certeza de que não estava sendo seguido: "Marquei que chegaria em uma hora e vim em outra".

A sensação de insegurança aumentou depois da morte do coronel reformado Paulo Malhães, que confessou ter matado e torturado presos políticos em uma audiência pública da CNV. Ainda sem saber que o caseiro havia assumido a culpa pela morte do militar, Pimentel desabafou: "Eu hoje me sinto assustado com a morte desse coronel. Quem mandou matar 27 mil (público do Riocentro no dia do show), manda matar um fácil". Mauro conta que foi chamado por assessor do governo do estado do Rio de Janeiro para um encontro no Palácio Guanabara, na tarde tarde de hoje, para tratar de sua segurança."Não vou pedir nada, mas, se acharem que eu tenho que ter escolta, vou aceitar", concluiu.

Tags: Atentado, bomba, comissão da verdade, ditadura, riocentro

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