Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

País

Especialistas vão combater exploração sexual juvenil no entorno do Itaquerão

Agência Brasil

Profissionais que trabalham no sistema de proteção de criança e adolescentes na região de Itaquera, zona leste de São Paulo, vão formar um comitê intersetorial para combater a exploração sexual infantojuvenil na região. Anunciado hoje (8) durante seminário sobre o tema, o comitê será formado por representantes municipais das áreas de saúde, educação e assistência, do Poder Judiciário e de organizações da sociedade civil. O objetivo é planejar ações de combate a violações aos direitos da infância, principalmente no entorno do estádio do Corinthians, o Itaquerão, palco do jogo de abertura da Copa do Mundo.

A exploração sexual de crianças e adolescentes no entorno do Itaquerão é alvo de inquérito do Ministério Público do Trabalho (MPT) desde janeiro. Segundo a procuradora Sandra Lia Simón, as denúncias começaram a ser apuradas após reportagem de um jornal britânico que denunciava casos de exploração de adolescentes. 

“A informação é que são seis meninas, vindas de outros locais, mas elas ainda não foram identificadas”, disse a procuradora. De acordo com Sandra, a identificação e a definição de medidas de proteção estão sendo dificultadas pela ação do tráfico de drogas na região. “A própria comunidade [da Paz] refere-se a elas como meninas invisíveis”.

Sandra disse que, embora a exploração sexual precise ser permanentemente enfrentada pelos órgãos de proteção, a presença de grandes investimentos eleva o número de casos em determinadas áreas. “O problema já tinha sido notado antes na região e foi alvo de ações da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social e da Polícia Militar, mas, quando há uma grande obra, concentra-se mais essa possibilidade. Isso é no Brasil inteiro”.  Segundo Sandra, o foco da prostituição são os trabalhadores desses empreendimentos, sobretudo os que estão deslocados de suas cidades de origem.

A procuradora explicou que o MPT tem-se concentrado em notificações recomendatórias às construtoras para que façam campanhas de conscientização entre os trabalhadores e criem estratégias de prevenção.  A primeira construtora contatada foi a Odebrecht, responsável pelas obra do Itaquerão, que assumiu o compromisso de informar diariamente os funcionários. Sandra destacou que algumas medidas tomadas pela empresa ajudaram a inibir a prática de exploração, como o fato de não haver alojamento na obra, de a maioria dos contratados serem moradores da região e do fornecimento aos operários de transporte do canteiro da obra ao metrô.

Conforme a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, a comunidade mais vulnerável no entorno do Itaquerão é a favela da Paz, que tem 1.048 moradores. Fabiana Pereira, especialista em assistência e desenvolvimento social da secretaria, ressaltou que o aumento do número de casos de exploração já tinha sido constatado na região. Ela atribuiu esse aumento ao uso de drogas. “Vemos adolescentes e jovens indo para a exploração para conseguir dinheiro para comprar [drogas]”, disse Fabiana. Os casos observados nas proximidades do estádio não representam, porém, grande número, acrescentou a especialista, que considera as discussões do seminário uma estratégia fundamental para coibir as violações diversas que ocorrem em relação aos direitos da infância.

Para o juiz da Infância e da Juventude Kalid Hussein Hassan, que atua na comarca de Itaquera, a exploração sexual é um alerta para uma série de outros desrespeitos ao direito de crianças e adolescentes. “Temos que pensar também na violência policial contra os jovens e em uma série de outras questões”, disse Hassan. O juiz aposta na abertura de canais de diálogo e na criação de espaços de convivência com a juventude para entender as demandas dos jovens e trabalhar a partir dessas conclusões. “A nossa resposta [do Estado] é sempre pelo lado da repressão – temos que retomar a capacidade de conversar."

Tags: abusos, Copa, estádios, menores, periferia, SP

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