Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

País

Proposta de Alckmin pode prejudicar o abastecimento no Rio

A longo prazo, São Paulo também pode sofrer as consequências do uso indevido dos recursos hídricos

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

A proposta do governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), de dividir com o Rio de Janeiro a captação da água do Rio Paraíba do Sul, a longo prazo, pode trazer problemas para os dois estados. Buscar o equilíbrio na distribuição da água para os dois maiores consumidores do país, sem quebrar a vazão mínima permitida, pode ser ainda mais difícil por se tratar de uma medida emergencial. Conhecendo os riscos, a presidente Dilma Rousseff solicitou estudos da Agência Nacional de Águas (ANA) para ver a possibilidade da liberação.

Segundo o professor do Instituto de Geologia e Geofísica da UFF Jefferson Silveira, 50% do abastecimento do Rio de Janeiro vêm do Paraíba do Sul. Com isso, além da capital, municípios vizinhos também são beneficiados, alcançado cerca de 85% da população. Jefferson acredita que a decisão pode beneficiar os paulistas como medida emergencial, mas atenta para a necessidade de estudos aprofundados dos impactos. “Esse compartilhamento pode ser viável, mas é preciso uma gestão séria da bacia hidrográfica. Será preciso um reservatório, um túnel e outras medidas capazes de gerir conscientemente os recursos hídricos”, observa o professor.

Governador de São Paulo quer dividir com o Rio de Janeiro a captação da água do Rio Paraíba do Sul
Governador de São Paulo quer dividir com o Rio de Janeiro a captação da água do Rio Paraíba do Sul

Jefferson também alertou para que as mudanças não sejam feitas baseadas em estudos não aprofundados. “Mesmo se tratando de uma medida emergencial, não pode ser feito da noite para o dia. Precisamos ter respeito pela água. O uso indevido dela pode trazer problemas muito maiores do que escassez no abastecimento”, disse o professor.

Em 1952, um protocolo foi assinado a fim de criar uma oferta hídrica relevante na Bacia receptora do rio Guandu, que se tornou o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e de várias indústrias e termelétricas. Segundo o professor, se a medida por Alckmin for aprovada, será necessário anular o protocolo que gere a utilização dos recursos há 61 anos.

A estiagem prolongada vem causando problemas no abastecimento da capital paulista desde o início do ano. Um relatório do Comitê Anticrise aponta que a quantidade de água no sistema está abaixo do registrado em 1953, considerado o ano da pior seca da história. Apesar do volume útil do Sistema Cantareira estar sendo controlado, o índice baixou para 14,7%. No mesmo período do ano passado, o sistema operava com 59,8%.

Interligação de reservatórios

Alckimin anunciou um novo projeto, ainda em fase de aprovação, para evitar que o problema de redução da capacidade do Sistema Cantareira se repita. A princípio, a proposta prevê a interligação dos reservatórios do Jaguaí e de Atibinha. A estimativa é que a obra fique pronta em dois anos e custe R$ 500 milhões.

O governador afirmou que não utilizará o “volume morto” do Cantareira em sua totalidade. A reserva é de 400 milhões de metros cúbicos. Ainda segundo o governador, a Sabesp está gerindo o volume para que, no inverno, sejam retirados 196 milhões de metros cúbicos, o que a ainda deixaria a reserva de 204 milhões. 

*Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: chuva, estiagem, Geraldo Alckmin, paraíba do sul, Rio de Janeiro, são paulo, seca

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