Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País

Carandiru: advogado declama e chama promotor de 'moleque'

Portal Terra

O advogado de dez policiais militares réus pelo massacre do Carandiru, Celso Machado Vendramini, encerrou nesta quarta-feira a etapa de debates do júri popular a que o grupo é submetido, no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de São Paulo), declamando uma música do cantor Roberto Carlos aos jurados. 

“Toda pedra do caminho / Você deve retirar / Numa flor que tem espinhos / Você pode se arranhar / Se o bem e o mal existem / Você pode escolher: é preciso saber viver”, recitou Vendramini, para enfatizar na sequência, por gestos, que os policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) representam “o bem”, e a acusação do Ministério Público, “o mal”.

Nas duas horas de tréplica, o advogado se dedicou, em boa parte do tempo, a críticas ao trabalho dos promotores Márcio Friggi e Eduardo Canto –o qual, em mais de uma oportunidade, taxou de “moleque” e “chato”. Nos minutos iniciais, ele fez um dos réus se posicionar logo à frente --o coronel da reserva Wanderley Mascarenhas, que comandou a tropa do Gate no Carandiru --, perante os jurados, ao que os promotores se insurgiram.

Apresentado na réplica do MP como “o quinto maior matador na história da Rota (tropa de elite da PM)”, Mascarenhas foi citado aos jurados, pelo advogado, como policial que “prendeu muito estuprador e sequestrador de crianças”. Depois de Canto pedir que o réu voltasse a seu lugar, com os demais, o juiz interveio e acusação e defesa discutiram rispidamente. “Cala a boca, você é um moleque”, disse o advogado ao promotor. Canto pediu que a declaração constasse da ata do julgamento.

Vendramini ainda citou trechos curtos de depoimentos dos réus, de dias depois do massacre, na tentativa de reforçar que eles teriam atuado em outro andar, que não o último, como consta da acusação –tese rebatida, mais cedo, na réplica dos promotores.

“Pensa que é fácil para quem não está acostumado a matar entrar na Casa de Detenção? Houve excesso da PM, sim, mas os policiais já foram condenados”, declarou, referindo-se aos homens da Rota condenados pelas mortes no segundo e terceiro andar em júris realizados ano passado.

O advogado também não poupou entidades de defesa dos direitos humanos, como a Human Rights Watch, nem a ONU (Organização das Nações Unidas), que cobram a responsabilização pelo massacre, pelo que chamou de “direitos humanos de bandidos”. “Eu quero que a ONU vá às favas. Ela dá casa para quem não tem onde morar? Alimenta crianças que passam fome?”, indagou o advogado, para quem os advogados tentaram impregnar “ideologia política” nos jurados.

“Não sou a favor de tortura, de homicídios, mas de a polícia se defender e dar segurança à população”, declarou o advogado, que, ontem, fez questão de se apresentar como ex-policial da Rota. Na ocasião, ele chegou na admitir que matou supostos criminosos, como PM, para se defender.

“Uma condenação desses PMs dá aval ao crime organizado. É como se vocês dissessem ‘Continuem, que estou gostando’. Espero que vocês deem um tapa na cara da ideologia política”, pediu aos jurados, logo após exibir o vídeo de uma reportagem sobre a ação de vândalos na Ceagesp, em São Paulo, semana passada. A Tropa de Choque da PM chegou ao local horas depois das cenas de destruição. “Não é esse país que eu quero”, reclamou Vendramini, que concluiu: “A PM não pode agir”.

Após a tréplica, os jurados se reuniram para analisar os quesitos elaborados a partir da denúncia do MP. Ao todo, serão mais de 500 quesitos para cada jurado.

Tags: carandiru, detentos, massacre, mortos, SP

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