Jornal do Brasil

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

País

"Onde estavam no carnaval os que gostam de quebrar os símbolos do capitalismo?"

El País publica artigo sobre carnaval e manifestações no Brasil

Jornal do Brasil

O correspondente no Brasil do jornal espanhol El País, Juan Arias, publica um artigo relacionando a grande festa popular brasileira, o Carnaval, com o atual contexto político e social do país, questionando ainda o futuro depois da folia. "O que pode acontecer agora, as luzes apagadas dos carnavais mais famosos do mundo e sensual? Onde estavam nesses carnavais os black-blocs que impertinentemente desfrutaram quebrando os símbolos do capitalismo? Onde estavam os bandidos que transformaram em regra a violência e intimidaram o país? Onde estava a polícia odiada? E os políticos? Onde foi um milhão de cidadãos que protestaram exigindo um país melhor? Provavelmente, desfrutando de toda o grande bacanal, por alguns dias anulados das suas personalidades para se fundirem numa alegria coletiva", diz o texto de Arias.

O escritor relembra que o sociólogo e político brasileiro Guereiro Alberto Ramos, descreve que o seu povo "faz revolução", mas também não aceita o "autoritarismo implícito". Porém, no que diz respeito às peculiaridades com o poder e à procura de um substituto, trata da forma "como não posso enfrentá-lo, eu prefiro a sabotagem". Arias diz que o sociólogo chama esse processo de "revolução silenciosa".

E as duas instituições populares que delineiam as melhores idiossincrasias brasileiras, de acordo com o pensamento de Arias, são a malandragem e o jeitinho, ainda trançando um paralelo com a tática black bloc. O grupo tenta, "por estradas cruzadas", receber o que não pode ser alcançado com o confronto direto. E avalia que a razão dessa sensação brasileira, se traduz neles se sentirem mais confortáveis no carnaval do que nos protestos de rua. "Talvez seja por isso que a grande maioria dos cidadãos rejeitaram a ação rebelde de black-blocs e o Congresso quer aplicar, com exagero óbvio, as leis severas contra o terrorismo", conclui ele. Para o escritor, o fato da malandragem e do jeitinho ainda sobreviverem na cultura popular tornar a luta contra a corrupção não aparecer na lista de prioridades dos cidadãos. "Todo mundo se sente, de alguma forma, vítimas e protagonistas de pequenos e grandes corrupção", explica.

Arias cita também a obra do antropólogo Roberto da Matta, quando ele descreve o brasileiro levando os seus sonhos sem o uso de violência: "A mulher pobre e anônima da favela se veste de rainha por um dia, o homem está disfarçado de mulher, os jovens de polícia, enquanto a polícia se perde na multidão disfarçada de pessoa normal. Todo mundo está olhando para o seu sonho e exerce a sua liberdade sem ser punido". O artigo diz que em um país com "leis" que agora ultrapassam quatro milhões, com uma Constituição que tem mais itens do que qualquer outro no mundo, em um país que sempre reinou o autoritarismo e a burocracia, os especialistas brasileiros tentam contornar a lei, a fim de sobreviver. "E eles fazem isso por uma passagem subterrânea, sem enfrentar a legislatura ou a mudança de poder. Eles dão o jeito deles mesmo que beirando a ilegalidade", descreve Arias.

E é dessa forma, segundo o artigo do El País, que paradoxalmente torna os brasileiros mais pragmáticos do que pode aparentar. E Arias aproveita o trabalho de José Roberto de Toledo para dizer que na próxima eleição o povo deve adotar uma postura mais pragmática do que político. "Eleitor brasileiro pensa, colocar o seu voto na urna, ao invés de ideologia, como se pode 'ganhar ou perder pessoalmente', votando ou sendo candidato", descreve o escritor. E finaliza dizendo que os candidatos, às vezes, insistem mais sobre o que as pessoas vão "perder" se não votarem neles do que vão "ganhar" se eles forem eleitos. 

E quanto os protestos, Arias diz que tem a impressão "de que os black-blocs involuntariamente estão paralisados. Quero dizer pacíficos". E depois questiona: "E se modernizar o Brasil? E se amanhã fosse para chegar às ruas exigindo que as leis sejam aplicadas sem a necessidade de contorná-las? Ah, então o Brasil seria outro, mas hoje é o que é, como ele ou não", destaca o texto. 

Tags: Artigo, black blocs, brasil, Carnaval, espanhol, Jornal, modernizar, polícia

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