Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

País

Frei Davi: governo precisa dar chance aos estudantes do Ciência sem Fronteiras

Estudantes que não conseguiram proficiência em inglês foram reprovados nas universidades

Jornal do BrasilCláudia Freitas

A situação dos bolsistas brasileiros que foram aprovados no programa Ciências sem Fronteiras, do Ministério da Educação (MEC), para estudar em Portugal, no ano de 2012, mas transferidos no ano seguintes para outros países de língua inglesa, ainda é indefinida, uma vez que boa deles não conseguiu aprovação nas universidades por não cumpriram o requisito de proficiência no idioma estrangeiro. Agora em fevereiro, o grupo com nove mil estudantes que teve como destino Portugal, completa seis meses no exterior, tempo máximo de estudo estipulado pelo MEC. Porém, o governo brasileiro pode mantê-los por mais três meses nos países de transferência após a exclusão de Portugal do programa, especialmente os Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Austrália, para que o aprendizado de cerca de seis mil alunos que encontrando dificuldades com o idioma não seja prejudicado.

Na opinião do diretor executivo da ONG Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro), Frei Davi, assim como os estudantes estrangeiros beneficiados pelo governo brasileiro através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), especialmente os africanos de língua inglesa e francesa, têm uma média de 60% de reprovação em língua portuguesa, mas mesmo assim recebem os seus benefícios, agora o governo brasileiro precisa dar a chance dos seus estudantes concluírem o curso que saíram para fazer em outro país. "O ideal é expandir em três meses o período do curso, pois esse período é fundamental para o estudante pegar a proficiência na língua inglesa e completar a grade curricular do seu curso", disse Frei Davi.

Frei Davi acredita que governo federal precisa expandir prazo de permanência dos estudantes no exterior
Frei Davi acredita que governo federal precisa expandir prazo de permanência dos estudantes no exterior

Segundo ele, o governo brasileiro precisa enviar para esses estudantes uma orientação quanto a metodologia de aprendizado. "Ficou comprovado, por exemplo, que os estrangeiros participantes do PEC-G reprovados aqui no Brasil, estavam residindo em comunidades próprias, sem muito contato com os brasileiro. Assim, ficaram mais ditantes da língua portuguesa. A partir desse fato, podemos dizer que o ideal é que esses estudantes brasileiros no exterior sejam alocados em famílias sociais locais, para que eles possam adquirir uma riqueza cultural do país", esclareceu Frei Davi. 

A proposta da Educafro ao governo brasileiro é para o programa ser expandido a um prazo máximo de nove meses de curso no exterior, ou seja, acrescentar mais três meses ao prazo de seis meses estipulado atualmente. "Na primeira etapa, eles vão adquirir fluência da língua inglesa e,  na segunda etapa, cumprir a grade curricular do curso, alcançando um resultado satisfatório", disse ele. 

Frei Davi disse que alguns estudantes estão completando agora seis meses de estudo no exterior e podem voltar a qualquer momento para o Brasil. No entanto, ele ressalta que o aprendizado desse grupo foi totalmente insuficiente, tanto quanto a fluência na língua nativa quanto no aprendizado das matéria técnicas das cadeiras. Os dados do Educafro apontam que dos nove mil estudantes participantes, seis mil tiveram problemas de aprovação nas universidades. "Além disso, a adaptação desses foi extremamente delicada, e ainda há uma tensão nesse momento, por não haver um caminho certo oferecido pelo governo", completou Frei Davi.

Ciência sem Fronteiras é um programa de pesquisa implantado pelo governo federal no ano de 2011, com o intuito de incentivar as bolsas de iniciação científica e projetos no exterior. O programa prevê concessão de 101 mil bolsas para estudantes brasileiros em universidades do exterior até 2015. Em 2012, o então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, expandiu as leis de cotas para o programa, mas as cotas deveriam ser aplicadas quando o bolsista atingisse proficiência em inglês ou em outra língua. "Não adianta dizer que tem uma política de cotas, sem proficiência em inglês. Se não, só posso mandar para Portugal", disse Mercadante. Atualmente, os bolsistas do programa podem passar de quatro a seis meses no país de destino estudando a língua antes de serem aceitos no curso acadêmico. Porém, a maioria dos alunos consideram esse período insuficiente para adquirir proficiência na segunda língua. 

O jornal A Folha de São Paulo, no último domingo (16/2), publicou uma reportagem destacando que o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Paulo Speller, apoiado por um representante da Casa Civil, abordou a questão na 10a. reunião do comitê executivo do programa, no final de janeiro, levantando a possibilidade de trazer esses alunos logo para o Brasil e ainda cogitou financiar seis meses adicionais de estudos do idioma para evitar que eles retornem sem o curso acadêmico. 

A matéria da Folha destaca que no caso dos bolsistas com aceitação acadêmica condicionada à extensão do curso de língua, poderiam ser prejudicado por cursar apenas quatro meses de disciplina técnica no exterior. E aqueles que não foram aprovados nas universidades, podem retornar para o Brasil sem o aproveitamento de créditos e perder o início do semestre letivo. A Folha informa que o custo inicial do programa federal era de R$ 3 bilhões, mas a ata da 10a. reunião, que o veículo teve acesso, enfoca a necessidade de novos investimentos na margem de R$ 863,6 milhões de investimento pelo governo, para os cursos adicionais de idioma, variação cambial, despesas com taxas bancárias e cartão-bolsista e reajustes contratuais.   

Segundo a assessoria de comunicação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que coordena o programa junto com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a última chamada para Portugal aconteceu no final de 2012 e os alunos começaram a ser transferidos para outros países em março de 2013. Portugal foi descredenciado do programa após o MEC registrar uma corrida dos estudantes brasileiros ao país, na tentativa de escapar dos estudos de uma segunda língua estrangeira, o que contraria um das metas do Ciências sem Fronteiras. 

Tags: estudantes, federal, Governo, LÍNGUA, Portugal, Portuguesa, programa

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