Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

País

Carandiru: PM entrou como 'bando de índio', diz ex-funcionário

Portal Terra

Moacir dos Santos era diretor de segurança e disciplina da Casa de Detenção de São Paulo. No dia 2 de outubro de 1992, quando 111 presos foram mortos após uma briga, sucedida pela intervenção da Polícia Militar do Estado de São Paulo para controlar a situação, ele já tinha mais de 20 anos à serviço do Estado. Acostumado com situações parecidas, ele disse que os policiais entraram sem que antes se esgotassem as tentativas de um acordo. "Entraram como um bando de índio", disse ele, ao se referir à invasão do Pavilhão 9 do presídio.

Quinze policiais militares acusados de participação na morte de oito detentos - e na tentativa de outros dois homicídios - estão sendo julgados no Fórum Criminal da Barra Funda, depois de mais de 21 anos do ocorrido, em 2 de outubro de 1992.

Santos conta que nos cinco anos que antecederam a rebelião, apenas cinco armas de fogo foram apreendidas em todo o presídio. "Nesse dia, a polícia apresentou 13 armas, informando que eram dos presos. "As armas foram plantadas. Umas estavam danificadas, outras enferrujadas. Colocaram elas no pátio depois de tudo terminado."

Para o funcionário da Detenção, o que houve naquele dia, dentro do presídio, foi um "tiro ao pombo". "Eles já entraram atirando. Logo na entrada foram mortos oito ou nove presos. Quando os funcionários tentaram socorrer os baleados, foram ameaçados com armas", disse.

Segundo ele, esses presos foram socorridos pelos próprios PMs e permaneceram cerca de 50 minutos dentro das viaturas antes de serem encaminhados para os hospitais. "Talvez por isso ninguém tenha chegado vivo."

Na versão do funcionário, após a ação, os policiais estavam mais preocupados em ajustar o cenário dos crimes do que em socorrer as vítimas. "Até as autoridades que estavam presentes ficaram impotentes com a situação que presenciaram", afirmou.

Santos disse também que muitos presos que foram escalados para retirar os corpos dos colegas do prédio acabaram fuzilados. A gente percebeu que de vez em quando estourava uma bomba. Nesse momento, houve disparos contra esses presos. Quando a gente(funcionários) percebeu, passamos a identificar os que subiam para fazer essa tarefa. Foi quando eles (PMs) se tocaram e pararam de fuzilar".

O advogado Celso Machado Vendramini, que defende os policiais militares no julgamento, chegou a ironizar Santos. "Não é a toa que os presos gostavam tanto de você". A resposta foi "graças a Deus". Nesse momento, houve intervenção da promotoria e o juiz Rodrigo Tellini Camargo interrompeu a sessão.

"Não vou admitir que se falte com o respeito aqui", disse ele. O preso Marco Antonio de Moura, que seria a terceira testemunha a prestar depoimento nesta segunda-feira, acabou dispensada. O júri recomeça nesta terça-feira, às 10h30, com as testemunhas convocada pela defesa dos policiais.

Julgamento

A partir desta segunda-feira, mais 15 policiais militares (PMs) acusados de participação na morte de oito detentos - e na tentativa de outros dois homicídios - estão sendo julgados no Fórum Criminal da Barra Funda, depois de mais de 21 anos do ocorrido, em 2 de outubro de 1992. Na ocasião, 111 presos foram mortos após uma briga interna que acabou com a invasão da Tropa de Choque da Polícia Militar paulista, que, na Justiça, responde por 102 dessas mortes. Contra as demais nove vítimas não ficou comprovada a ação dos policiais. Até agora, são 48 policiais condenados por conta da atuação naquela data. Para todos os casos, ainda cabe recurso.

Nas duas primeiras etapas do julgamento, no ano passado, os PMs que atuaram nos dois primeiros andares do prédio foram condenados, respectivamente a 156 e 624 anos de prisão. A Justiça decidiu, em primeira instância, que eles concorreram para a morte de 13 presos no primeiro andar e outros 52 no segundo andar.

Relembre o caso

Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e a morte de 111 detentos. Os policiais são acusados de disparar contra presos que estariam desarmados. A perícia constatou que vários deles receberam tiros pelas costas e na cabeça.

Entre as versões para o início da briga está a disputa por um varal ou pelo controle de drogas no presídio por dois grupos rivais. Ex-funcionários da Casa de Detenção afirmam que a situação ficou incontrolável e por isso a presença da PM se tornou imprescindível.

A defesa afirma que os policiais militares foram hostilizados e que os presos estavam armados. Já os detentos garantem que atiraram todas as armas brancas pela janela das celas assim que perceberam a invasão. Do total de mortos, 102 presos foram baleados e outros nove morreram em decorrência de ferimentos provocados por armas brancas. De acordo com o relatório da Polícia Militar, 22 policiais ficaram feridos.

Tags: julgamento, massacre, negrini, presos, SP

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