Jornal do Brasil

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

País

El País entrevista antropólogo brasileiro sobre cenário no Brasil

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O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta, um dos mais prestigiados profissionais do país, é entrevistado pelo jornal espanhol El Paìs. Ele faz uma análise do atual momento que o país atravessa, às vésperas de uma das mais importantes eleições. O jornal cita obras clássicas escritas por Da Matta, ressaltando que ele descreve um Brasil na encruzilhada econômica, social e política.

El País: passados dez anos da publicação de o 'O que é o Brasil?', as coisas mudaram desde então? você faz alguma correção?

Da Matta: nada que não seja corrigido, porque o meu objetivo neste livro não era "definir" ou "explicar" o Brasil, mas caracterizar ou interpretar. Quem quiser entender o Brasil terá que analisar a partir de uma dicotomia ou oposição entre a casa e a rua, considere trabalhar como uma punição, e não um valor que, no mundo moderno, europeu e americano, e ver o feriado como uma riqueza como positiva, como é o caso com os alimentos.

El País: de fora do Brasil, vê muita simpatia?

Da Matta: Porque é um país que uniu povos diferentes, embora haja lacunas. Um muito desigual, com certeza, mas a segregação não foi feita a partir das instituições. Somos uma nação com base na liberdade de uma economia escravista, mas como a Guerra Civil dos EUA. Reconciliar e construir pontes entre as posições extremas e irreconciliáveis que nos fazem, ao mesmo tempo, os pacientes impacientes. O Brasil também já atuou guerras imperialistas sistemáticas em suas fronteiras e sempre colocou a ênfase no que uniu as classes distintas e estratos sociais: a música, a praia, o corpo, sensualidade, dança, carnaval, e no século XX, o futebol. Eu acho que esses "defeitos" contribuiram, paradoxalmente, para despertar os sentimentos de simpatia mundial. Somos mestres em relações pessoais e professores em desonestidade pública quando estamos no governo.

El Paìs: Brasil está passando por uma crise de meia idade? De fadiga, depois de bem sucedido? Quais seriam as razões para a instabilidade e incerteza que parecem palpável?

Da Matta: Temos uma enorme disfunção entre as instituições que funcionam muito bem (como a banca, comunicações e meios de comunicação) e um estado que não corresponde ou responde de forma eficaz às novas exigências. Mais de uma década que o partido no poder [Partido dos Trabalhadores, PT, centro-esquerda] prometeu um governo honesto, tem feito progressos e faz o oposto.

El País: Parece que os protestos de junho de 2013 mudaram o humor dos brasileiros. Acredita que o espírito vai influenciar as eleições legislativas e presidenciais em outubro, que será composto ou ser consolidada de alguma forma?

Da Matta: Certamente influenciará. Tudo vai depender dos próximos meses e o projeto da oposição.

El País: A dez meses, um presidente será eleito. Quais são os poderes que devem levar a uma grande diversidade ao país?

Da Matta: Eu acho que o ideal é ter um presidente do Brasil (homem ou mulher) capaz de lidar bem com a crise. Coisa que Dilma Rousseff não tem. Além disso, espera-se um presidente no poder de acordo com determinados valores. E a democracia liberal que poucos entendem no mundo ibérico, em geral, não é fácil, porque submete tudo ao mesmo conjunto de regras e uma ofensa formal contra a premissa de o governo aristocrático e hierárquico no Brasil e em toda a América Latina.

El País: Você vê a sociedade civil? Vê ainda como está articulada?

Da Matta: É um dos poucos países no mundo com uma única língua e um único conjunto de valores. E isso é uma herança surpreendente e poderosa.

El País: Um estrangeiro chamou a atenção pela reverência ao poder, público e privado. A que você atribui isso?

Da Matta: Entre outras razões, como eu digo no meu livro, é que o Brasil passou de uma monarquia para uma república sem abandonar a hierarquia e a desigualdade. Hoje, sofremos as dificuldades desse dilema que, por vezes, revela sem máscaras.

El País: Você escreveu que, nas ruas e fora delas, havia uma dicotomia no Brasil entre o público e o espaço privado. Continua com esse pensamento?

Da Matta: Esse é o maior problema do país. No Brasil, é a sociedade que serve o Estado e não o contrário, como seria de esperar em uma república.

El País: Qual seria o pecado original do Brasil?

Da Matta: O dilema de escolher de forma mais clara a igualdade, a descentralização e a educação como valores fundamentais.

El País: Antes da tristeza, o país era festivo. Um país que celebra o sexo, mas é machista e conservador?

Da Matta: É mais festivo e confiante do que triste. Hoje é mais machista sexista. É mais impaciente do que passiva em relação ao governo e seus gestores públicos e política.

El País: Jorge Amado disse que "não era um país racista". Você concorda? O que é isso?

Da Matta: É um país racista sem segregação. Temos muitos preconceitos, mas não legislar sobre e para os preconceitos. Daí a observação de Jorge Amado.

El País: Quase trinta anos após o fim da ditadura. Sobrou algo disso?

Da Matta: Continuar a ser a arrogância daqueles que ocupam cargos no Estado, a certeza de certas elites no poder que são soluções que têm um gosto para fórmulas antigas e desgastadas e imensa ignorância sobre o que uma democracia igualitária.

El País: Você é um grande fã do futebol. O que acontecerá com "Maracanã" neste Mundial?

Da Matta: Eu não acho que vai acontecer.

Tags: análise, atravessa, Eleições, espanhol, país

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