Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País

Rubens Paiva e Amarildo: a violência sob repressão

Wadih Damous faz um paralelo entre os dois casos

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O presidente da Comissão da Verdade do Rio, Wadih Damous, traça um paralelo entre as mortes do deputado Rubens Paiva, assassinado em janeiro de 1971, e o pedreiro Amarildo, desaparecido, e supostamente também assassinado, em 2013. As duas mortes têm em comum a violência sob a repressão de órgãos públicos, segundo Damous. Para ele, a violência infelizmente têm raízes em nossa própria sociedade.  

A violência na sociedade brasileira, de acordo com Wadih Damous, não foi inventada ou surgiu na ditadura. “Os maus tratos, tortura, etc, não foi obra da ditadura, mas a ditadura sofisticou esses métodos e estabeleceu uma cultura, em torno da segurança pública. Estabeleceu a forma sobre como tratar os que são chamados de “inimigos da sociedade”, sejam eles bandidos comuns, ativistas ou comunistas, como eram taxados de uma forma geral no passado”, disse ele. 

Os artifícios usados pelas forças repressivas, segundo o presidente da Comissão da Verdade, tanto na ditadura quanto na democracia, têm uma linha de continuidade. Na ditadura, afirma ele, se cunhou o termo “morte por confronto”, que era usado para justificar um assassinato, quando o preso já tinha sido morto sob tortura. “Com a imprensa amordaçada, a ditadura usava esse termo. Hoje temos os “autos de resistência”, que também é usado para atribuir aos executados sumariamente e que serve para justificar uma atitude de resistência às incursões da polícia nos morros e bairros pobres”, disse Damous.

A prática de desaparecer com as pessoas, segundo Damous, é uma herança da ditadura e que de certa forma continua sob a democracia, com uma diferença, ressalta ele, que agora não se restringe apenas aos perseguidos políticos. “Hoje, na democracia, essa prática se tornou comum, e tem sua permanência e sua cotidianidade em relação aos pequenos delinqüentes ou até com pessoas que não tem nada a ver com práticas ilícitas e se decide desaparecer com elas”, afirma ele.

Wadih Damous afirma que é possível, sim, fazer a analogia entre a morte do pedreiro Amarildo e do deputado Rubens Paiva. Ele ressalta, no entanto, que esse paralelo não pode ser visto do ponto de vista da coincidência, mas da linha de continuidade das práticas repressivas, tanto na ditadura quanto hoje na democracia. “Existe um autoritarismo que ainda permanece e que resulta nessas arbitrariedades, nessas mortes”, diz ele.  

Uma parcela da sociedade, de acordo com Damous,  chancela esse tipo de conduta violenta, de cultura violenta que surgiu na ditadura. Frases do tipo “bandido bom é bandido morto” ou “terrorista tem que ser torturado e morto”, segundo Damous, refletem essa aprovação. “Essa violência não vem apenas dos órgãos públicos, como PM ou os militares. Eles não fazem nada sozinhos. Isso vem dessa parcela da sociedade que alimenta e respalda essa violência”, diz ele.

O golpe de 64, completa Damous, não foi uma quartelada de generais e coronéis que resolveram derrubar o regime e o presidente João Goulart. Damou afirma que havia um movimento social que impulsionou essa decisão. “Hoje estamos vendo os justiceiros, jovens de classe média, de academias, que estão fazendo justiça com as próprias mãos”, afirma Wadih Damous. “Apesar de tudo, mantenho a esperança de que o ser humano possa evoluir e superar tudo isso”, finalizou ele.

Tags: conduta, cultura violenta, de, na ditadura, que surgiu, violenta

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