Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País

Família de vítima da Kiss convive com lembranças de sucessivas perdas

Portal Terra

No Cemitério Municipal de Santa Maria, onde estão enterradas dezenas de vítimas da tragédia na Boate Kiss, Clarice Izabel Simões Côrte Real, 47 anos, acariciava a foto da filha, Carolina, exposta em uma das milhares de lápides espalhadas pelo terreno. A dor da perda da filha, que completa um ano nesta segunda-feira, é o mais recente episódio vivenciado por uma família marcada pela ausência.

A segunda-feira foi de peregrinação entre a boate e os cemitérios da cidade, e de reencontro com as lembranças daquela trágica madrugada de 27 de janeiro de 2013. No olhar vazio de pais, irmãos, tios e avós, o semblante de uma população que vive em luto diário.

Acompanhando a nora, Maria Izolina Côrte Real, 70 anos, avó de Carolina, lembra que os meses de dezembro e janeiro são especialmente difíceis para a família. Antes de visitar o túmulo da neta, Maria Izolina já havia revivido o luto pelas mortes do marido e de seu filho. "Final de ano é sempre terrível, porque meu marido morreu em dezembro. Em janeiro, foi meu filho, e agora minha neta...", diz a idosa, fitando o vazio sob o sol escaldante de Santa Maria.

"Minha filha morreu aos 18 anos, no terceiro semestre da faculdade... ela tinha a vida inteira pela frente", lamenta Clarice, amparada pela sogra e pela cunhada, Sandra Côrte Real, 38 anos. Vestindo uma camiseta com o rosto da sobrinha, Sandra externava uma revolta comum a quase todos que perderam seus entes queridos na tragédia.

"Pouco antes do incêndio, eu presenciei a abordagem da polícia a um vendedor de abacaxis, que foi proibido de trabalhar porque não tinha alvará. Eu juro, um PM deu um coice no carrinho dele, derrubou os abacaxis na rua. Como é que a prefeitura cobra alvará do vendedor de abacaxi e, ao mesmo tempo, deixa uma boate funcionar tanto tempo sem documento?", questiona.

Em uma cidade dividida entre a memória latente da dor e a vontade de superar a tragédia, Sandra se exalta ao falar daqueles que não querem mais conviver com o luto das famílias de vítimas da Boate Kiss. "Essas pessoas que dizem que não querem mais saber disso, que querem que a gente esqueça isso... para mim, não são nem seres humanos. É muita insensibilidade achar que a gente vai conseguir esquecer uma vida que tiraram da gente", protesta.

"Não é fácil. Não tem um dia que passe sem que eu fique pensando na minha neta. Tem vezes que bate um desânimo, mas...", diz dona Maria, os olhos perdidos, sem que a frase fosse completa.

Tags: Casa, mortes, noturna, RS, Tragédia

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