Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País

Obras atrasadas e improvisos em aeroportos: um descaso anunciado

Investimentos implementados agora para a Copa deveriam ter sido feitos nos anos 1990

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

A 138 dias da Copa do Mundo no Brasil, aeroportos como o de Fortaleza improvisam soluções para lidar com o atraso nas obras. Para especialistas na área, a questão principal é que há uma defasagem muito grande, reformas deveriam ter acontecido há muitos anos. Não dá para esperar, então, que as coisas se resolvam até o megaevento, levando em conta toda a estrutura do setor e gargalos desses locais.

Na última sexta-feira (24), a Infraero anunciou a abertura da nova área de embarque do Terminal 2 do Aeroporto Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro. Pelas redes sociais, internautas ajudavam a lembrar problemas que seriam simples de resolver, mas que ainda persistem, como ar-condicionado fora de funcionamento.

O @SOS_Aeroportos, em uma publicação no Twitter, divulgava a abertura da nova área de embarque do Galeão e, na seguinte, alertava: "Só falta o aeroporto do Galeão melhorar o ar-condicionado, os elevadores, as escadas rolantes, a máfia dos taxista (sic), etc, etc...". Outros usuários da rede social também reclamavam da temperatura no local, que vem incomodando há alguns meses, e de outros problemas de estrutura.

Internautas reclamam de aeroportos nas redes sociais
Internautas reclamam de aeroportos nas redes sociais

Em Fortaleza, o aeroporto vai contar com um terminal de lona, devido aos atrasos nas obras. Mário Beni, professor titular aposentado na Universidade de São Paulo (USP), em conversa com o JB por telefone, comentou que gatilhos como o do aeroporto de Fortaleza e os atrasos nas obras não surpreendem. Para ele, mudanças profundas na estrutura aeroportuária brasileira deveriam ter sido implementadas ainda nos anos 1990, para que os aeroportos pudessem hoje oferecer uma situação confortável para os passageiros. A defasagem dos aeroportos brasileiros é grande e, com o aumento do número de passageiros nos últimos anos, ficou maior ainda. A previsão era que, durante a Copa, o movimento de passageiros chegasse a 180 milhões de embarcados e desembarcados. Este número, no entanto, foi atingido ainda em 2011. 

O investimento, sugere Beni, teria que ter sido muito maior do que foi, já que se trata de um problema de pelo menos 20 anos. "Você não consegue resolver um problema deste tamanho de uma hora para outra. Isso é uma coisa que envolve investimento, e a participação privada é vital. É muito recente essas parcerias [público-privadas]. Então, por mais que você acredite que vai dar certo, o cronograma vai atrasar, porque é uma questão de investimento. Acredito que alguns vão cumprir os prazo, outros não. Mas como estamos em uma situação caótica, os aeroportos vão ser um ponto fraco, nós vamos ter um caos".

Beni explica que, aliado aos problemas estruturais, qualquer questão meteorológica pode também afetar seriamente a operação de voos no período do megaevento. Se uma ponta do triângulo Rio, São Paulo, Brasília atrasa, desencadeia um processo no país todo. "Tomara que não aconteça, porque se acontecer vai ser um problema no país todo. De todos os itens da Copa, a questão do deslocamento do transporte vai ser o mais problemático. Não só de um estado para o outro, como o deslocamento no próprio local, principalmente no Rio e em São Paulo. Brasília também já começa a ter problemas de tráfego". 

O ex-ministro da Aeronáutica, Mauro Gandra, por sua vez, acredita que os passageiros podem encontrar grandes problemas nos aeroportos justamente se houver questões meteorológicas. "Se houver neblina, aí nós vamos ter problemas." Ele destaca, lembrando de notícia que leu no dia anterior, que apontava que o movimento de final de ano é muito mais preocupante do que o da Copa. Como rotas já foram pré-estabelecidas, o procedimento nos aeroportos durante o evento deve ser facilitado. Atrasos podem surgir, pondera, mas não serão prejudiciais devido ao número de passageiros. 

"Eu acho até válido que a imprensa e os especialistas alertem para problemas, porque isso faz com que as coisas andem mais rápido. O Galeão deveria estar bem preparado há mais tempo, não só por causa da Copa, mas pelo movimento de passageiros. Em virtude da redução do fluxo aéreo de passageiros, que estava em uma taxa de crescimento anual entre 12% e 15% e caiu para algo em torno de 3%, talvez muitos problemas não acontecerão na Copa."

Apesar disso, o ex-ministro acredita que durante a Copa muitas obras estarão prontas ou, pelo menos, equacionadas, para receber os passageiros. "Fortaleza vai ter a cobertura de lona. Mas isso não vai trazer problemas propriamente para a movimentação. Até porque eu acho que vai ter queda na movimentação de aeroportos. Há muito tempo que eu ouço a Infraero dizer que a Copa não seria problema. O problema grave era o aumento do fluxo de passageiros, durante todo o ano. Com a quebra do aumento da economia, isso diminuiu".

A Infraero e a administração dos aeroportos

Nos aeroportos concedidos à iniciativa privada, os funcionários da Infraero já começam "um pouco a cruzar os braços", comenta o ex-ministro. A Infraero continua a administrar os aeroportos leiloados nos primeiros 120 dias, acompanhada pela concessionária vencedora. Após o período, a operadora privada administrará o aeroporto em conjunto com a Infraero por mais três meses, prorrogáveis por mais três meses. Nos que não foram concedidos, "também há um pouquinho de braços cruzados, para ver o que vai acontecer nos aeroportos".

Beni explica que a Infraero é a ponta final encarregada  de diversas funções. O problema, aponta, é que o desenho institucional da aviação civil no Brasil é uma piada, com diversas instâncias de governança, que formam uma rede complexa. Chamar a responsabilidade dos problemas dos aeroportos brasileiros só para a Infraero, defende, é complicado. "A transversalidade de ações não existe, é um problema seríssimo, não há uma linha lógica de integração de comando, de ação. Você fica sem saber quem manda."  

Aeroportos estão com obras em dia, dia Infraero

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro entregou nova área de embarque do Terminal de Passageiros 2
Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro entregou nova área de embarque do Terminal de Passageiros 2

A Infraero informou por e-mail, pela assessoria, o estágio atual das obras dos aeroportos. Em Confins, a etapa da obra de reforma e ampliação do terminal de passageiros prometida para a Copa deve ficar pronta em abril deste ano. Isso deve ampliar sua capacidade em 1,5 milhão/ano. Com a conclusão da construção do terminal 3 (prevista para março de 2014), Confins aumentará sua capacidade em 5,3 milhões de passageiros/ano, totalizando 17,1 milhões de passageiros/ano. Depois da Copa, ser ficar pronta a reforma e modernização das áreas dos restaurantes, prédio comercial e galerias técnicas, entre outras melhorias. Até dezembro de 2013, 41,03% haviam sido executados.

O aeroporto de Cuiabá passa por reforma e ampliação do terminal de passageiros, adequação do sistema viário e construção do estacionamento desde abril de 2012; e deve ficar pronto em abril deste ano. Até dezembro, 44,48% haviam sido executados. 

A obra de reforma e ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Curitiba será entregue em duas etapas. Uma delas voltada à Copa, deve ser entregue até maio de 2014 e inclui ampliação do conector com três novas pontes de embarque, reforma e modernização do terminal existente. O terminal ampliará sua capacidade para 8,5 milhões de passageiros/ano. Até dezembro, no entanto, apenas 13,39% haviam sido executados. 

As obras do aeroporto do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Fortaleza, relacionada à Copa, seria entregue já em março, mas, até dezembro de 2013, 25,95% haviam sido executados. No Galeão, no mesmo período, 45,07% da reforma do tribunal de passageiros 1 estava pronta e, no terminal 2, 65,85% haviam sido executados. Em Manaus, 70% dos serviços forem entregues neste mês de janeiro, 

Tags: aeroporto, brasil, Copa, obra, problemas

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Comentários

1 comentário
  • cesar coelho cunha

    Nos anos 90 o perfil de consumo do brasileiro era outro. Aeroporto não era local a ser frequentado pela classe trabalhadora brasileira que hoje os frequenta. Lembro-me de um jargão de certos profissionais:"O Galeão é a melhor saída.". Sair do Brasil era a melhor solução naquela época. Hoje o brasileiro se faz presente para fazer turismo e a trabalho. Com a demanda atual,com a legislação existente e com o que há disponível,não há como acompanhá-la.

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