Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

País

Nélida Piñón publica artigo no La Nación sobre "a ilusão dos brasileiros"

Jornal do Brasil

A escritora Nélida Piñón tem um artigo publicado nesta sexta-feira (24/1) no jornal La Nación, explorando de forma poética a alma do brasileiro, às vésperas dos eventos mundiais que o país vai sediar, que apesar da fama de ser um povo "carnavalesco", está apresentando sintomas de melancolia. A primeira frase do artigo de Nélida já resume o seu conteúdo: "O país nasceu oferecendo uma visão utópica". Assim, a escritora alerta que o Brasil precisa de cuidados. Muitos querem negociar com este país de tamanha magnitude territorial, que apesar da sua extensão não passou por nenhuma turbulência lingüística, na visão de Nélida. Ela define ainda que o seu povo tem o privilégio de ser mestiço no corpo e ter uma memória sincrética. "Uma mistura que vai além dos corpos, que tingiu sua alma e devora as entranhas de sua cultura, que é insidioso e esplêndida, como deveria ser.", define Nélida.

Nélida diz que o Brasil é um amálgama de todos os seres e conhecimento e cita que os grupos étnicos são filhos da "imaginação" do português e do espanhol. No olhar da escritora, o povo possuiu uma vocação individualista e se opõem a projetos coletivos e organizações sociais duradouras. Mas uma exceção foi a rápida construção de Brasília, que Nélida relaciona às pirâmides do Egito. Outro traço do perfil do brasileiro observado pela escritora é um realismo moderado patriótico, que vem acompanhado de muita fantasia e isso passa a ser uma parte da natureza social, como uma forma da pessoa acrescentar valores à sua personalidade e vida social. E essa "dança de aparência", como define Nélida, oferece os elementos que levam à alegria e alma do brasileiro.

Nos parágrafos seguintes, Nélida levanta as possibilidades e momentos históricos e socais que foram cruciais na formação da essência do povo brasileiro, destacando as peculiaridades de cada região do país e suas heranças. Em uma das suas colocações regionais, Nélida diz que independente da procedência, a linguagem de uma região que foi herdada de outra nação, é uma linguagem "do amor e da poesia". No entanto, a escritora ressalta um quadro social atual: "Mas os soldados corruptos, hoje abundam no país, especialmente na capital. Ditadores que foram expulsos após a instauração da democracia em 1988, os vândalos, os mártires do passado e ainda sofrem nas mãos dos poderosos. (...)A linguagem dos vencedores dos pecadores. Daqueles que pedem perdão sabendo que novamente vão cometer a mesma falha", destaca a escritora.

Nélida diz que há muitas formas de ser brasileiro, rindo de situações que outros povos se estressariam, por exemplo. Ela cita várias características do bom humor do brasileiro mediante uma realidade dura e conflitante, através de exemplos do cotidiano das grandes cidades e interior. A memória que é cultivada no Brasil corresponde à matéria que o povo mantém no mundo. "Consequentemente, ser brasileiro é sermos gregos, romanos, árabes, judeus, africanos. Nós somos uma parte essencial das civilizações que desembarcaram na terra em que a abundância de alegria, traição, ingenuidade, o triunfo do bem e do mal, a ilusão, a melancolia. Características nutridas no feijão preto, arroz branco bem solto, bolo de milho, bife com cebola e gema de ovo.", diz o texto. 

A escritora ressalta que a história do país também colecionou atos de malfeitores e sofreu embates com algumas novas leis, mas sempre tenta manter o seu humor habitual, apesar de apresentar traços de um melancolismo. Mas destacou também a grandeza do povo e os potenciais do país. E finaliza - "Amigos, bem-vindo todos para esta terra amada".

Tags: brasil, melancolia, perfil, piñón, povo, sintomas

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