Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País

Ex-morador da Cracolândia defende ação do Denarc em São Paulo

Portal Terra

Morador da Cracolândia por seis anos, e dependente químico por duas décadas, o hoje acadêmico Fabian Penyy Nacer se posicionou a favor da ação dos policiais do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) nesta quinta-feira. Com a visão de quem já morou no local, Nacer avaliou que o trabalho da polícia não é fácil e que os usuários podem sim, ser perigosos.

Ontem à tarde, moradores da rua Barão de Piracicaba relataram uso de balas de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo por policiais do Denarc. A ação gerou críticas da prefeitura, que promove o programa Braços Abertos, que visa à retirada dos dependentes químicos por meios de ações sociais integradas e reinserção à sociedade.

“Ao meu ver, a polícia tem que prender traficante e não ficar perguntado se ele quer comer a comidinha da mamãe. No meio dos 300 zumbis (usuários de crack), existem 15 caras que estão conectados com o Paraguai ou com a Bolívia. O Denarc foi lá e identificou os criminosos. Foram lá para prender os traficantes, mas os outros que estavam ao redor consumindo (crack) apedrejaram a viatura, tentando dizer que ali é o terreno deles”, falou.

Para Nacer - que após deixar a Cracolândia virou um especialista em dependência química, tendo, inclusive, se graduado em estudos sobre álcool e drogas -, a polícia não pode deixar que a Cracolândia vire uma terra sem lei. “Eles apedrejam a viatura e a polícia vai embora sem fazer nada? Com isso, eles vão dominando o terreno cada vez mais, dando o recado de que ali pode tudo. Não pode ser assim”, completou.

“Não acho que mandar balas nos caras vá curar nada, mas não estamos falando em tratamento e sim em repressão. Nessa situação, o policial poderia ser apedrejado. Nesse tipo de ocorrência, o usuário tem que aprender a respeitar a polícia”, completa Fabian, que chegou a morar em um bueiro e passou por diversas abordagens policiais no local.

Segundo a tese do ex-dependente, os usuários andam em grupo por um único motivo, que é defender o fornecimento de crack. “A polícia tem uma baita dificuldade para atuar na Cracolândia, pois os dependentes desenvolveram uma estratégia se aglomerando, porque os traficantes ficam ali no meio. Quando há uma ação, eles correm para todos os lados, pois a única preocupação de um dependente é não perder a pedra. Tomar uma cacetada é o de menos, eles não se importam”, disse.

Outra parte da realidade pouco divulgada da Cracolândia é o submundo do tráfico. Além dos mercado “oficial” de drogas, segundo Fabian, existe um mercado paralelo que envolve praticamente 1/3 dos usuários.  “Dos 300 zumbis que vivem ali, pelo menos 100 são mini-traficantes. Porque o que a gente mais fazia, e eu fiz isso muitas vezes, era pegar R$ 10, comprar uma pedra boa e quebrar em 3 pedacinhos. Assim, a gente vendia um desses pedaços, recuperava o dinheiro e refazia o processo”, contou o especialista, que é contra o programa Braços Abertos da prefeitura.

Segundo Fabian, ao não oferecer um tratamento contra o vício, o poder público não vai tirar os dependentes da Cracolândia. Favorável à internação compulsória, ele relatou que foi internado 25 vezes, dentre as quais 6 compulsoriamente.   Para deixar completamente o vício, foram necessários 2 anos, sem nenhum tipo de contato com a droga, dinheiro ou com o ambiente, o que  não acontece com o novo programa municipal.

Ação do Denarc

O Denarc realizou uma operação de combate ao tráfico de drogas que terminou em violência e com 30 pessoas detidas na tarde desta quinta-feira, na Cracolândia.Em entrevista ao Terra, sob condição de anonimato, usuários disseram que ao menos 10 viaturas da Polícia Civil chegaram ao local por volta das 15h, utilizaram balas de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo durante a abordagem.

De acordo com dois dependentes químicos, os policiais abordaram parte dos frequentadores da Cracolândia exigindo que deitassem ao chão e colocassem as mãos na cabeça.

"Soltaram bombas; teve muito tiro. Deitaram a gente com a mão na cabeça aqui na calçada", disse uma usuária de crack de 40 anos, há seis anos na Cracolândia. "Jogaram spray de pimenta na nossa cara. A bomba comeu solta: parecia o duende verde do Homem Aranha", completou um rapaz de 19 anos, há três meses na Cracolândia.

Outros moradores da região também se disseram amedrontados com a movimentação da polícia durante a tarde. "Policial chega aqui, muitas vezes, escrachando as famílias. Hoje não foi diferente", disse outro morador, sem se identificar.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, ficou surpreso com a operação e deixou às pressas um evento com o pré-candidato do PT à eleição estadual e ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

A assessoria de imprensa do Denarc informou que a ação na Cracolândia ocorreu para a prisão de dois traficantes investigados. A assessoria negou que os policiais tenham usado balas de borracha e gás lacrimogêneo, mas admitiu o uso de spray de pimenta e afirmou que três viaturas foram danificadas e um policial ferido.

Desde a terça-feira, dia 14, as secretarias de Saúde, Trabalho, Assistência Social e Segurança Urbana estão ajudando os usuários a desmontar os barracos construídos nas ruas Helvetia e Dino Bueno e encaminhando as pessoas a hotéis da região. Esses dependentes receberão alimentação, trabalho e R$15,00 por dia. A Polícia Civil informou que de dezembro para cá foram 65 presos na Cracolândia. 

Tags: Centro, dependentes, polícia, químicos, SP

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