Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País

Kiss: um ano depois, famílias se revoltam com 'jogo de empurra' de políticos 

Portal Terra

Um ano após o incêndio na Boate Kiss, a dor das famílias que perderam seus filhos, irmãos, primos e sobrinhos na tragédia, aos poucos, dá lugar à revolta. Membros da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) se dizem desamparados pelas instituições públicas, não poupando críticas ao prefeito de Santa Maria (RS), Cezar Schirmer (PMDB), aos vereadores e nem mesmo ao Ministério Público.

"Nós, cidadãos, que pagamos por toda essa estrutura de governo para proteger a gente, somos tão carentes disso. Chega no final, é como se você tivesse aquele pai para te proteger e ele não te protege. Então eu, como cidadão, e várias famílias que sofreram isso, nós sentimos a incompetência dos governos: munícipio, Estado e governo federal. É um sentimento de abandono, como se fosse aquele filho abandonado, você não tem para quem gritar, para quem reclamar", queixa-se Sérgio da Silva, integrante do conselho diretor da AVTSM e pai do jovem Augusto Sérgio, que morreu no incêndio, aos 20 anos.

Militar da reserva, Sérgio se mudou na década de 80 do Rio de Janeiro para Santa Maria, onde se casou e teve dois filhos. Oriundo de uma família pobre, de sete irmãos, diz ter aprendido com o pai a sentir orgulho da pátria, característica que reforçou quando entrou para o Exército. A morte do filho primogênito no ano passado, porém, acabou por abalar essa confiança depositada nas instituições do País. "Quando eu passei para a área militar, fortaleceu mais aquele amor à pátria, de valorizar as entidades, aquela coisa toda. Só que é uma utopia. Chega no final, você vê que parece que nada funciona. Neste momento, o meu sentimento é esse", diz, desolado. "Nós estamos sofrendo um momento no País de uma descrença total nas autoridades. O cidadão de bem está sendo destruído, ninguém está tomando uma posição."

A principal queixa de Sérgio é referente ao "jogo de empurra" entre as diferentes esferas do poder, que se eximem de responsabilidade pela tragédia. Segundo o militar, os empresários Mauro Hoffman e Kiko Spohr, proprietários da Boate Kiss, "têm a maior parcela de culpa", mas não podem responder sozinhos pela morte dos 242 jovens. "Pensa bem: você é empresário, a sua função é ganhar dinheiro. Agora, o cidadão paga quem para se proteger? Paga o município, paga o Estado, paga o governo federal. Por que existe o município para fiscalizar? Não precisava ter ele lá, se fosse só depender do empresário. Nós mesmos íamos lá resolver as coisas. A gente tem essas entidades para isso. Aí de repente essas entidades (falam) 'eu não vi, ninguém sabe', um joga para o outro. (...) Eu espero que eles (empresários) sejam condenados mesmo. E que essas outras entidades tomem vergonha na cara e assumam a posição delas", critica o militar.

A posição do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) de não responsabilizar o prefeito na denúncia encaminhada à Justiça provocou indignação entre os familiares das vítimas. "Eu não estou dizendo que o prefeito é o culpado. Não estou falando da figura dele, estou falando da entidade prefeitura. O promotor, ao invés de pegar, ver o que aconteceu e passar para frente, chamar o advogado dele para se defender, o promotor (...) está fazendo papel de juiz. Ele não é juiz nem é defensor público, ele é promotor. E a função dele é acusar, não é defender. Então, é difícil você estar ali como pai, querendo o apoio dele, e ele começar a defender o réu", lamenta Sérgio.

"O Ministério Público não faz o que tem que ser feito. Eles tinham que erguer a cabeça e achar brechas para defender os pais, para defender nós, essa sociedade que está sofrendo com essa administração", acusa Marília Torres, 28 anos, que perdeu a prima Flávia na tragédia.

Segundo Marília, reina em Santa Maria um sentimento de impunidade, em que a sociedade estaria "de olhos vendados" para a realidade. "Vendem uma imagem que não existe, que não é a que a gente está vivendo. Ninguém supera uma tragédia que mata 242 jovens. Uma cidade que mata os seus jovens e simplesmente se cala durante um ano, isso para mim é um absurdo, é revoltante... eu perco o sono com isso. E não sei como podem as pessoas aceitar isso de uma forma passiva", dispara.

Tags: Casa, mortes, noturna, RS, Tragédia

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