Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

País

El País destaca artigo de escritora brasileira sobre Kaique e rolezinhos

Jornal do Brasil

A escritora e documentarista brasileira Eliane Brum fez uma avaliação dos fenômenos sociais que abalaram o Brasil nos últimos meses. O artigo ganhou destaque na edição do jornal espanhol El País, edição desta quarta-feira (22/1). Segundo Brum, a morte do adolescente Kaique Augusto dos Santos, em São Paulo, e os chamados rolezinhos pelos shoppings não são eventos que coincidem apenas no calendário, mas têm em comum a questão da pobreza e envolvem jovens negros. A lógica, para a escritora, que determina a criminalização prévia dos rolezinhos e a não criminalização da morte Kaique, é a mesma, pois caminha para os territórios, revelando leis não escritas.

Brum, primeiramente, detalha as condições e fatos que aconteceram em torno da morte de Kaique, que para a polícia foi suicídio, enquanto a família do rapaz afirma que ele foi vítima de homofobia. A escritora cita que as mortes por homofobia cresceram 11% em 2012, em comparação com o ano anterior. Assim como Kaique, mais de 70% das vítimas são negras. "É razoável esperar, pelas circunstâncias em que foi encontrado o corpo, que a polícia levante a suspeita de assassinato. Mas a polícia de São Paulo informou em seu relatório: 'suicídio'", destaca o artigo.

Para Brum, a questão principal em torno desse caso é: por que o suicídio foi registrado como uma morte que não está clara até hoje, mais de uma semana depois?". Ela citou a manifestação que aconteceu na sexta-feira passada (17/1), em São Paulo, contra a homofobia. Os dizeres das faixas, observados por Brum, remetem ao papel da polícia na ditadura civil-militar e na democracia atual. Eliane Brum acredita que se não fosse a insatisfação da família, a divulgação do caso pela imprensa e, principalmente, a revolta em massa nas redes sociais, a morte de Kaique nunca seria investigada.

A escritora destaca a luta dos ativistas que exigem que o caso de Kaique seja investigado, afirmando que ele foi brutalmente assassinado. Brum analisa que que a questão vai além do fato ter sido homicídio ou suicídio, mas a atitude da polícia em registrar o caso como suicídio, não dando margem para o questionamento das circunstância e evidências de um crime. A escritora acredita que esta postura da polícia pode ser em função da redução da violência nas estatísticas, que representa uma preocupação constante das autoridades, especialmente nos períodos eleitorais. "Mas há uma explicação que pode nos ajudar a refletir sobre esta dinâmica acentuada no Brasil e é marcada pelos rolezinhos, fenômeno mais interessante do momento, pela riqueza (mesmo contraditória) de seus significados", diz a autora no artigo.

Nos rolezinhos, os negros não são considerados vítimas, mas autores de um crime, segundo Brum. Ela destaca, então, a simbologia existente entre os dois casos: Kaique e rolezinhos. No primeiro, quando a polícia encontra o corpo de um jovem negro, homossexual, sem qualquer investigação já possui a convicção de que não foi um crime. Porém, no segundo caso, quando encontra um grupo de jovens da periferia, na maioria negros, nas dependências de shopping, a polícia tem a certeza de que é um crime. 

Brum diz reafirma que os fatos que unem o caso de Kaique e dos rolezinhos significa a naturalização do lugar de cada um em uma sociedade dividida. Ela avalia o destaque surpreendente dado aos rolezinhos, comparando com o tratamento social dispensado à morte de Kaique. A escritora acredita que, pelos comentários homofóbicos postados nas redes sociais sobre o caso do rapaz e o comportamento da polícia, houve discriminação e preconceito. Ele cita que o corpo de Kaique ficou vários dias fora da geladeira do IML e quase foi enterrado como indigente, certamente pela cor da sua pele e acessórios que deixavam evidente que ele era homossexual. Por outro lado, a escritora descreve que: "dentro do shopping, um grupo de jovens e pobres, em sua maioria negros, é deslocado para a mesma polícia e a sociedade evoca a ajuda policial". 

"A nossa polícia está muito doente. Porque a nossa sociedade está muito doente", conclui Brum. Mesmo assim, a autora diz que os brasileiros vivem tempos melhores, porque se Kaique tivesse morrido há anos atrás, sua morte nem seria questionada.

Tags: brasil, fenômenos, homofobia, jovens, kaique, pobres, rolezinhos, sociais

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.