Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País

Fim de semana de 'rolezinho' chama atenção da imprensa internacional

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Os rolezinhos são destaque nesta segunda-feira (20/1) na imprensa internacional. O The New York Times (NYT) publicou que a presidente Dilma Rousseff já convocou uma reunião com assessores para estudar propostas de empresários que pretendem, através de liminar, fechar as suas portas e proibir a entrada de suspeitos nos shoppings nos dias programados para acontecer os rolezinhos. A matéria, cujo título é "Últimos protestos no Brasil tem lugar nos centros comerciais com jovens urbanos", destaca que milhares de jovens brasileiros, residentes nas periferias das cidades, estão indo em massa para os shoppings, em uma visita "estridente".

A reportagem classifica os chamados rolezinhos como "pequenos passeios", na gíria das ruas da cidade de São Paulo, aos centros comerciais. Os encontros em massa são turbulentos e esbarram em questões dos direitos públicos.

"Temos o direito de nos divertir, mas a polícia foi longe demais", disse ao NYT um dos participantes de um rolezinho no shopping paulista Metrô Itaquera, Plínio Diniz, 17 anos. O jornal diz que as autoridades brasileiras demonstram preocupação com a propagação dos rolezinhos no país e estudam cuidadosamente as formas de como responder aos encontros, após os protestos que balançaram o país no ano passado. Os dirigentes estão conscientes de que os protestos ganharam intensidade após ações violentas da polícia contra os jovens, em um rolezinho em Brasília. "Eu não acho que a repressão é o melhor caminho a seguir, pois tudo que é feito ao longo dessa linha é como jogar gasolina no fogo", disse o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República do Brasil, Gilberto Carvalho, ao jornal norte-americano.

Segundo a reportagem, há temores de vandalismo e furtos durante os rolezinhos, e a polícia anunciou algumas prisões associadas a estas manifestações. Os administradores de shoppings de maior padrão conseguiram na Justiça autorização para as suas equipes de segurança barrar supostos participantes.

O NYT afirma que os rolezinhos envolvem um grande número de adolescentes negros, por isso está diretamente relacionado com acusações de discriminação racial e, também, com questões de interação social levantadas nestes espaços comerciais de São Paulo e de outras cidades. "As crianças das classes mais baixas foram segregadas dos espaços públicos, e agora elas estão desafiando as regras não escritas", disse Pablo Ortellado, professor de políticas públicas da Universidade de São Paulo, ao NYT.

Ortellado, em sua entrevista, enumerou outros fenômenos sociais brasileiros que demonstram que os padrões de vida da classe baixa está melhorando e revirando as classes mais altas, nas últimas décadas. Os rolezinhos estão no contexto dessas mudanças econômicas. 

Pelas análises do jornal, os rolezinhos podem representar para os jovens de classe pobre uma oportunidade de mostrar as suas roupas de marca. Explica, ainda, que os encontros são organizados pelo Facebook, com quase 20 manifestações planejadas nas cidades brasileiras para as próximas semanas, e muitas vezes envolvem ações como subir e descer escadas rolantes e uma boa dose de gritos, além de paqueras e cantar músicas de funk.

Após entrevistar alguns especialistas, o jornal norte-americano destaca que as opiniões são ainda divergentes em relação ao fenômeno. Alguns afirmam que os rolezinhos, embora não seja algo explicitamente política, no entanto, abre o caminho para novos métodos de protesto em shoppings. A reportagem citou que centenas de pessoas do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto tentou organizar seus próprios rolezinhos na quinta-feira (16), em dois shoppings de São Paulo, mas teve a entrada barrada por seguranças. 

O texto do NYT diz que há perspectiva dos rolezinhos intensificarem nas cidades nacionais, e os encontros estão expondo uma reação em áreas urbanas de elite. Destaca que no Rio de Janeiro, onde um rolezinho foi organizado para este domingo (19), no Shopping no Leblon, localizado num bairro da orla carioca, um juiz tentou impedir o evento, argumentando que os seus participantes podiam causar "desordem pública". O centro comercial de luxo não abriu as suas portas no domingo. Porém, centenas de participantes compareceram na frente do shopping Leblon, como forma de registrar o seu comparecimento no evento. "Enquanto o rolezinho estava envolto numa atmosfera festiva, com alguns dos participantes bebendo cerveja pelas ruas próximas do Shopping Leblon, outros foram recebidos com as portas fechadas e insultos dos transeuntes que estavam com raiva pelo centro comercial não funcionar", destaca o texto.

Outros destaques internacionais

Na sexta-feira passada (17/1), o jornal El País publicou um artigo de Juan Arias sobre o fenômeno do rolezinho no Brasil. Arias faz um estudo etimológico e social da palavra pobre e os seus sentidos controversos na América Latina. Na avaliação do autor, a palavra pobre perdeu sua força e hoje é usada e abusada pelo poder.

"Quem hoje seria realmente pobres?", pergunta Arias. E ele responde: "Para os interessados ??que os pobres continuem felizes com os restos de nossa festa, é o poder que não existiria se não houvesse aqueles que podem ser dominados por eles".

O Jornal La Nacion replicou a matéria do jornal americano The New York Times e acrescentou que, iniciado há algumas semanas como uma brincadeira de criança, o rolezinho tornou-se uma questão política, a ponto da presidente Dilma Rousseff ficar preocupada com a nova onda de protestos populares, como aqueles que surpreenderam o Brasil no ano passado.

Tags: empresários, passeios, propostas, rolezinho, rousseff, shoppings

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