Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

País

'Clarín': ensaio fala sobre a fantasia de viver no Brasil, país do "tudo bem"

Jornal do Brasil

Soledad Domínguez*

Minha decisão de morar no Rio de Janeiro nasceu com música. Quando tinha entre sete e dez anos escutava canções de Chico Buarque, Elis Regina, Vinícius de Moraes e outros grandes. Suas vozes me acompanhavam nas viagens de carro que fazia com meus pais e minha irmã para Florianópolis.

Talvez também tenha influído o mar do Brasil, não tão frio quanto o de Villa Gesell, as curvas constantes do caminho, os morros verdes e as chuvas abundantes que Elis Regina e Tom Jobim cantavam em Águas de Março: É a chuva chovendo/ É um pingo pingando/ É uma prata brilhando/ É a luz da manhã/ Fechando o verão. Eu logo perceberia que o assunto ia além da música e da geografia.

Eu percebia no Brasil uma forma de ser espontânea que se conectava melhor com o meu interior. As vezes sentia que esse modo diferente de estar no mundo caracterizava também o idioma. Ainda me lembro da primeira vez que escutei alguém falando em português.

Eu estava meio dormindo quando meus pais perguntaram em uma pousada, em forçado portunhol, se havia lugar para nos hospedarmos. Quando o dono respondeu me pareceu reconhecer uma sonoridade que, não sei por que, associei ao francês que tinha estudado no colégio. E neste caso com cadências rítmicas que despertaram em mim um amor à primeira vista.

Mais tarde, em outras viagens, minha outra grande surpresa foi em relação às praias. Observei que lá as brasileiras podiam ser gordas, voluptuosas, com ou sem celulite, e que os brasileiros podiam ser barrigudos, carecas ou seja o que for, mas que nenhuma dessas condições físicas incomodava ninguém.

Em todos os casos homens e mulheres se exibiam tranquilos tanto com biquínis mínimos ou com as clássicas sungas masculinas.

Não tinham vergonha de mostrar seus corpos.

De volta a Buenos Aires fui incorporando esse estilo descontraído ao meu cotidiano. A primeira coisa que eu pensei foi em fazer uma experiência com a dança e me matriculei em um curso de ritmos afro-brasileiros. A cada compasso de percussão eu sentia que conectava a música com o meu corpo. Olodum tá hippie, olodum tá pop/ olodum tá reggae/ olodum tá rock/ o  olodum pirou de vez. Depois comecei a ampliar meus conhecimentos sobre o país vizinho.

Um dos livros que me marcou especialmente na época foi Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, que me aproximou a uma compreensão dos processos de formação social. E foi a partir de outras leituras que conheci melhor uma cultura que já estava me tomando completamente.

Depois de anos de falar o idioma e acumular dados e vivências tomei uma decisão: fiz a inscrição para uma bolsa de pós-graduação para uma especialização em Humanidades na América do Sul. Escolhi como opção de lugar a cidade do Rio de Janeiro, ganhei a bolsa e me armei de coragem para dar esse passo.

Desembarquei no Rio em 2005, começando assim o que eu chamo de a etapa carioca da minha vida adulta.

Aos poucos fui descobrindo semelhanças e diferenças entre a realidade e a fantasia que eu tinha construído ao longo dos anos. Não cheguei ao Brasil com expectativas claras. Mas sim com a convicção de que nada podia dar errado no país do tudo bem.

Durante os primeiros meses mudei de casa cinco vezes numa cidade superpovoada onde os exigentes requisitos para o aluguel de moradia não são fáceis. Isso não era tudo. Também passava o tempo todo fazendo filas para o visto de estudante junto com chineses, americanos e colombianos. Assim fiquei sabendo até que ponto eu era estrangeira no meu Brasil querido.

Existe um lugar onde eu me reencontro com os meus ideais de um Brasil aberto e tropical. Refiro-me às praias cariocas, principalmente Ipanema.

É lá, debaixo de um guarda-sol vermelho e bebendo caipirinha de fruta preparada na hora, que eu dissolvo tensões. Desde que moro no Rio consegui entender melhor a naturalidade brasileira que meus pais comentavam tanto.

Até o meu corpo se expressa de uma forma mais desinibida. E isso, como eu falei, não tem nada a ver com biquínis pequenos e exuberância de contornos.

É algo mais ligado a uma atitude de conforto e soltura no caminhar, que eu também adotei. Que fique claro que isso, por exemplo, na mulher, não significa mostrar tudo nem ser um alvo fácil, uma imagem estereotipada das brasileiras no exterior que me incomoda bastante. Noto um culto ao corpo e ao cuidado dele. Mas sempre se mantém uma atitude razoavelmente pudorosa.

Topless

Por mencionar um exemplo, eu nunca tinha visto fazerem topless no país da suposta desinibição. Algum tempo atrás, um grupo de mulheres realizou em Ipanema o que se chamou de toplessazo, uma ação favorável a essa prática nas praias.

Participei da convocatória, mas não me senti confortável. Apesar de não ter tirado a parte de cima do biquíni, me senti de alguma forma manuseada por um exército de olhos curiosos, fotógrafos e cinegrafistas que registravam alguns poucos seios descobertos como se fossem raridades secretas e justificadamente proibidas.

Além de alguns comentários agressivos que fizeram com que eu entendesse que o topless não é tão natural no Brasil como sem dúvida é na Europa. A sensualidade corporal é só uma parte do carnaval do Rio. Nem tudo passa pelo sambódromo. De fato a grande festa acontece nas ruas dos bairros onde as pessoas cantam e dançam fantasiados: antenas de neon, perucas cacheadas, tutu de bailarina e faixas coloridas na cabeça.

Essa alegria, é preciso lembrar, ajuda a amortecer o efeito inegável da sujeira e do cheiro das ruas depois da quarta-feira de cinzas. No Rio de cartão postal também não se veem as sombras da pobreza. Mas a desigualdade social é evidente. Lembro que um dia estava andando pela rua Barão da Torre, em Ipanema, e vi uma entrada lateral para a favela do morro do Cantagalo. Vi como, por uma trilha de barro, as pessoas subiam e desciam em meio a uma aglomeração de casas precárias. Pobreza e opulência na mesma quadra. E quase ninguém parecia achar estranho.

Durante todo este tempo fui e voltei muitas vezes entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Por enquanto, sou carioca.

Há quatro anos fiz a experiência de morar em Porto Alegre, um ponto intermediário. Lá os invernos são duros e os gaúchos são mais parecidos com os argentinos. Percebi que eu sou pouco tolerante nos dias nublados e que o frio é uma sensação térmica que eu já perdi. E tem mais.

Descobri que eu me identifico mais com o barulho do Rio. É uma espécie de música que me faz sentir acompanhada mesmo estando em casa.

Eu sempre levo comigo a informalidade de “aquele abraço” apertado de Gilberto Gil O Rio de Janeiro continua lindo/ o Rio de Janeiro continua sendo em cada viagem a Buenos Aires, onde eu sempre fico esperando o segundo beijo na outra bochecha.

Tags: Argentina, brasileira, conectado, cultura, música, política, resgate

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