Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

País

SP: cercada de mistério, morte de adolescente gay gera revolta

Jovem foi encontrado morto com o rosto desfigurado e sinais de tortura por todo o corpo

Portal Terra

A morte de um adolescente gay de 17 anos no último sábado, na região central de São Paulo, mobilizou centenas de pessoas por meio das redes sociais nesta semana em um protesto contra a homofobia. Kaique Augusto dos Santos foi encontrado morto, com o rosto desfigurado, no último sábado na avenida Nove de Julho, uma das mais movimentadas da capital paulista. Mas esse foi apenas um dos capítulos dessa história cheia de mistério, como relatou a irmã da vítima, Tayna Chidiebere, 19 anos.

Segundo Tayna, Kaique foi para uma balada na noite de sexta-feira com alguns amigos, na região da República, onde desapareceu após algumas horas. Segundo relato dos colegas do jovem, ele foi visto pela última vez em frente ao palco da casa noturna PZÁ. Depois, ele teria saído do estabelecimento sozinho ou com outra pessoa que não fazia parte do grupo.

O adolescente estava morando provisoriamente na casa de um amigo, em Santana, na zona norte, e a primeira pessoa que notou o desaparecimento do jovem foi sua chefe, que ligou imediatamente para a mãe do amigo que o acolheu. “O meu irmão era muito responsável com o trabalho e a escola. Era para ele ir trabalhar no sábado, mas acabou faltando no serviço. A patroa dele, então, ligou para a Aline que era a responsável por ele, em Santana. O amigo dela, filho da Aline, me mandou uma mensagem pelo Facebook, na segunda, dizendo que precisava falar com ele urgente", relatou a irmã.

Colegas de Kaique imaginaram que ele poderia estar na casa de algum colega, mas, com o passar do tempo, a preocupação acabou tomando conta de toda a família. Na segunda-feira, Tayna ligou para a mãe perguntando pelo irmão, mas ela disse que não via o jovem desde o feriado de final de ano.

No mesmo dia, familiares iniciaram a busca, que durou quase 24 horas. A mãe de Kaique foi até o Hospital das Clínicas e Instituto Médico Legal (IML), onde não encontrou nenhum registro de vítimas com as características do adolescente. Após a busca inicial, mãe e filha foram para o 4º DP, na Consolação. “Chegando lá, um policial disse que ele deveria estar na casa de algum amigo, já que ele era homossexual. Eles me mandaram para o DHPP (Departamento de Homicídio e de Proteção à Pessoa), para registrar o desaparecimento. Lá (DHPP), me disseram que era para acompanhar o andamento da investigação por uma semana, mas que ele poderia estar na casa de algum conhecido”, disse Tayna.

Incansável, a mãe de Kaique foi até a balada, onde não conseguiu informações. Depois, ela partiu para o Largo do Arouche, onde o filho costumava ficar com os amigos. “Minha mãe chegou até a verificar se o Kaique não era nenhum dos moradores de rua que estavam ali, no desespero de encontrar o meu irmão”, disse.

Segunda visita ao IML

No anoitecer da segunda-feira, o irmão da jovem foi até o IML mais uma vez, onde recebeu a informação de que novos corpos haviam chegado. “Haviam novos corpos, mas disseram que não podiam mostrar, já que o legista não estava lá e não existiam nem fotos dos cadáveres”.

Na noite de segunda, a mãe de Kaique retornou à boate onde ele foi visto e “interrogou” os seguranças. Segundo os funcionários, no dia do sumiço houve sim uma briga no local. Os seguranças, porém, não souberam dizer se Kaique estava entre os envolvidos.

Recebendo a notícia

Na manhã de terça-feira, Tayna combinou um encontro com os amigos de Kaique, que o acompanhavam no dia da festa, mas, segundo ela, nenhum compareceu. Após o ‘furo’ dos colegas, a jovem retornou ao DHPP para relatar o comportamento dos adolescentes,  que ela considerou “estranho”.

“O policial que me atendeu disse que os jovens não devem ter culpa de nada, mas eu falei que era preciso investigar. Não dá para saber, né?”, questionou.

Ao sair do prédio da polícia, Tayna recebeu uma ligação do irmão mais velho, que fazia a terceira visita ao IML. Em choque, ela recebeu a notícia de que o corpo de Kaique havia, finalmente, sido encontrado.

Segundo ela, o corpo estava no IML como indigente desde sábado. O adolescente foi encontrado com sinais de espancamento, com o rosto desfigurado e sem os dentes, “Ele estava cheio de hematomas e fraturas. Atravessaram sua perna com uma barra de ferro, o que fez o legista acreditar que ele tenha sido muito torturado antes de morrer”, falou.?

Tags: boate, homofobia, jovem, morte, protestos

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