Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

País

Novo perfil da classe C contribui para mudanças comportamentais nas periferias

Gravidez na adolescência e aumento dos jovens no mundo do crime são pontos-chave

Jornal do Brasil

A ascensão da classe C tem sido um dos fenômenos mais marcantes no país nos últimos anos. O aumento do número de pessoas pertencentes a esse estrato revela uma redução da desigualdade e melhoria das condições econômicas de parte da população que, antes, vivia na miséria. A entrada no mundo do consumo e a mudança no perfil dessa nova classe média têm sido os principais pontos debatidos. Nas periferias, essa transformação de comportamento pode ser vista no abandono do conservadorismo, que dá lugar a uma maior liberdade sexual e religiosa entre os jovens de baixa renda. O resultado não poderia ser outro: cada vez mais meninas se tornam mães na adolescência. O aumento da entrada dos jovens no mundo do crime também revela uma busca por ascensão social.

Nos estudos sobre a classe C brasileira, o principal ponto destacado é a integração dos filhos dessas famílias de baixa renda no contexto acadêmico. Famílias cujos progenitores têm baixo grau de escolaridade, quase analfabetos, e nível profissional também reduzido. Já os seus filhos hoje estão integrados ao processo de aprendizagem e frequentam escolas e universidades. Apesar disso, algumas pesquisas esquecem que essa realidade não chegou para todos. Alguns membros da classe C ainda enfrentam grandes dificuldades econômicas e sociais e acesso reduzido à educação de qualidade, mesmo que transformações comportamentais sejam observadas entre as gerações.

O fenômeno social é desencadeado quando esses jovens com pouca escolaridade abandonam o tradicionalismo típico de seus pais. No que diz respeito ao sexo, uma maior liberdade sexual e aumento no número de parceiros, uma vez que o conceito tradicional de família não é mais tão cultivado, revela um aumento do número de filhos entre esses jovens, que se tornam pais cada vez mais cedo. Os números são reveladores: dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que entre 2011 e 2012, o total de filhos gerados quando as mães tinham entre 15 e 19 anos quase dobrou – de 4.500 para 8.300.

Ainda de acordo com o IBGE, 18% das mulheres nessa faixa de idade já engravidaram ao menos uma vez. Em 2012, 536 mil jovens foram mães em todo o país. E esses números são especialmente altos nas favelas e comunidades carentes. Em um contexto economicamente problemático, as jovens são levadas a enxergar com naturalidade a chegada da gravidez na adolescência. Dez entre dez especialistas apontam que a resposta para mudar essa dinâmica está na educação.

O chefe do departamento de ciências políticas da Universidade Federal Fluminense (UFF)e doutor em ciência social, Marcus Ianoni, aponta que, mesmo que uma melhoria econômica seja observada no contexto das classes mais baixas, o descuido com métodos sexuais preventivos refletem no aumento dos números de gravidez na adolescência.

“É possível que o aumento da gravidez precoce tenha relação com a melhoria das condições de vida dos estratos sociais desfavorecidos, desde que suponhamos que, com mais recursos monetários, os jovens podem ter mais acesso a eventos sociais como bailes nas comunidades, festas em casa de amigos, casas noturnas de diversão etc. Tendo mais acesso e esses recursos, mas descuidando-se dos mecanismos preventivos da gravidez, ocorre, possivelmente, o aumento da gravidez precoce”, explica o professor.

Por outro lado, existe a cultura de décadas passadas, em que a menina busca a gravidez ainda muito jovem, de maneira consciente. O sociólogo e cientista social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Paulo Baía, explica. "A gravidez é desejada, elas retomam o patamar de décadas de 1930 e 40, quando as mulheres eram mães muito jovens. E as mulheres maduras têm, em média, três filhos, enquanto a classe média alta tem de 1 a 2 filhos. Elas têm informação de como não ter filho, muitas meninas querem ter o filho. Meninas com 14, 15 anos planejado, as meninas terem filhos jovens, com apoio da família, relações sexuais precoces dentro de casa, e tem acesso aos métodos contraceptivas. Elas decidiram engravidar. E quando vem a gravidez indesejada, a maioria não opta pelo aborto e tem o apoio da família".

O analfabetismo funcional, que representa o número de pessoas de 15 anos ou mais de idade com menos de quatro anos de estudo completo em relação ao total da população da mesma faixa etária. Em 2012, ela foi estimada em 18,3%, totalizando 27,8 milhões de pessoas em todo o país. Esse número mostra que uma grande parcela dos jovens ainda têm problemas de acesso à educação de qualidade.

Esse quadro leva a outra transformação, dentro do contexto de violência e crimes. A busca pela tão cobrada ascensão social leva jovens da periferia a entrar no mundo do crime. Com dificuldades de se encaixar no mercado de trabalho formal, a ilegalidade se torna uma opção. E os números comprovam: o tráfico de drogas era responsável por 7,5% dos adolescentes presos em 2002. Em 2011, esse número saltou para 26,6%, de acordo com dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH). O aumento significativo de jovens envolvidos com delito em nove anos revela um quadro crítico.

No contexto das periferias, essa realidade é comum. O sociólogo Paulo Baía, explica que a necessidade de ascensão social, em busca de sanar desejos e afirmar valores de classe alta induzem os jovens a entrarem no mundo do crime, em que o retorno financeiro chega mais rápido.

“Existem dois vetores formais de renda na classe média: aqueles que trabalham mais, a classe média que procura se capacitar, através de cursos no SEBRAE, SENAI, SENAC. Buscam se qualificar, embora tenham escolaridade deficiente. O segundo vetor é o empreendedorismo. Há um terceiro vetor, daqueles que não se adaptam ao mundo de trabalho, que tiveram poucas oportunidades, sobretudo os jovens, que entram para a rede de consumo de drogas e álcool. Esses desejam um consumo hedonista. A grande questão hoje é que essa faixa de criminalidade está ligada ao consumo hedonista e ao prazer. Cresce também a prostituição entre as jovens, com novos desejos que a capacidade de renda delas não permite”, revela.

Marcus Ianoni ainda aponta a desigualdade social como ponto-chave para a entrada no mundo do crime e que ainda há, no Brasil, uma dificuldade de se enfrentar essas discrepâncias sociais e econômicas entre os indivíduos, principalmente por parte das classes mais altas.

"Esse fenômeno tem causas estruturais no Brasil, sobretudo relacionadas à desigualdade social, às dificuldades no acesso à educação de qualidade, condições de vida sociofamiliares inadequadas, dificuldades de integração no mercado de trabalho e ao problema da atração que a cultura da criminalidade exerce sobre alguns estratos sociais jovens mais vulneráveis. Apesar da melhoria em vários indicadores sociais, observada no Brasil desde os governos Lula, a desigualdade pré-existente era tão imensa que os avanços ainda não foram suficientes para mudar esse cenário da criminalidade de um modo mais impactante. O país necessita de um choque de políticas sociais. É desconfortante ver que ainda há resistência na sociedade brasileira, a começar pelas elites econômicas, a um enfrentamento efetivo da desigualdade social", finaliza.

Tags: classe c, classe média, gravidez, país, SAÚDE, violência

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