Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

País

Século 21 em ação: longevidade é desafio para a medicina e a sociedade

Especialistas apontam para a necessidade de pesquisas e mudanças nos conceitos

Jornal do BrasilGabriella Azevedo*

O envelhecimento da população é uma das principais transformações dos últimos anos, em escala global, e fica ainda mais acentuado com o aumento da expectativa de vida, se configurando como uma das principais mudanças desse novo século. Pessoas que ultrapassam os 100 anos de idade já são realidade e se mostram como mais um novo desafio para a medicina e a psicologia. No Brasil, até 2012, já eram quase 30 mil pessoas com mais de um século de vida, segundo o IBGE. Atualmente, o que pode ser visto das perspectivas sociais, culturais e da saúde é uma nova forma de percepção dos idosos. As mudanças de relação com o restante da sociedade e as inovações na medicina voltadas para essa faixa etária são as principais questões debatidas entre especialistas, que apontam para a necessidade de uma reformulação do setor da saúde, ainda muito voltado para o tratamento de crianças e jovens adultos.

Na série de reportagens do JB, damos continuidade à exploração das novas tendências do mundo que se consolidam com o tempo e que comprovam que o "futuro", simbolizado pelo século 21, está cada vez mais presente.

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Religião, tecnologia, ciência, família... mundo passa por momento de profundas transformações
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Hoje, o Brasil comporta 14,9 milhões de pessoas acima de 65 anos, o que representa 7,4% do total. De acordo com pesquisa do IBGE, em 12 anos, o Brasil será o sexto país com maior número de idosos em todo o mundo, e no de 2060 serão 58,4 milhões de idosos, o equivalente a 26,7% de toda a população. Além do aumento da expectativa de vida, que passará dos atuais 75 anos para 81, o contingente populacional atingirá seu ápice em 2042. Tudo isso contribuirá para o aumento do número de pessoas idosas no país.

Sobre os “centenários”, projeções apontam que, em todo o mundo, o número de pessoas com 100 anos de idade ou mais passará de 145 mil em 1999 para 2,2 milhões em 2050, aumentando 15 vezes até 2050. No Brasil, os centenários já são cerca de 30 mil pessoas, ainda de acordo com o IBGE. Para a medicina, esse novo perfil populacional em escala mundial representa novos desafios e, ainda, a necessidade de uma nova abordagem da formação de profissionais da área da saúde.

Para o médico geriatra Salo Buksman, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), as pessoas que já têm genética predisposta a viver décadas a mais que o restante da população foram beneficiadas com o avanço da medicina, que garantiu o tratamento de doenças que, há algumas décadas, eram incuráveis, como cânceres e infecções. Uma maior facilidade de cura dessas doenças permitiu que esses “centenários” pudessem desfrutar da boa genética e viver ainda mais.

“A gente sabe que as doenças que mais matam são as cardiovasculares, cânceres e infecções. O que acontece é que, a cada mil seres humanos, você vai ter alguns poucos com uma constituição genética tão boa que estariam condicionados a viver muito, com sobrevida extraordinária. Há algumas décadas, essas pessoas morriam dessas condições, além das mortes violentas, por conta de guerras e acidentes naturais. Atualmente, existem muitas maneiras de você se prevenir e tratar esses grupos de doenças campeãs em causa de mortalidade. Antes, quem morria de infarto, hoje, não precisa mais morrer disso. Um câncer de intestino, ou de tireoide, hoje em dia são plenamente tratáveis. Essas causas que acarretariam na morte de pessoas com essa genética invejável, atualmente, não matam mais. Elas conseguem sobreviver ao máximo do seu potencial”, explica Buksman.

O médico ainda explica que a melhoria da qualidade de vida também é um dos fatores que contribuem para que a população como um todo viva mais, inclusive aqueles que podem chegar aos 100 anos ou mais. “O desenvolvimento da medicina trouxe soluções para a morte dessas pessoas. Paralelamente, a sobrevida melhorou, à medida que as condições sanitárias melhoram, o acesso saúde básica melhora, a obtenção de medicamentos melhora, a alimentação melhora. Dessa forma, a sobrevida também melhora como um todo”. E acrescenta: “Esses ‘supercentenários’ são pessoas com genética privilegiada, e isso ainda não é realidade para todos os seres humanos, ainda que, teoricamente, vários seres humanos possam conseguir isso. Talvez num futuro não tão longínquo, seja natural essa sobrevida”, aposta Buksman.

Apesar disso, Buksman ainda aponta para alguns problemas na abordagem da medicina em relação aos mais velhos. Segundo ele, os experimentos para descoberta de novos medicamentos e práticas cirúrgicas são realizadas com pessoas jovens, na maioria das vezes, e não leva em consideração o organismo de pessoas mais velhas, ignorando os problemas específicos da idade avançada. Buksman aponta isso como um “furo” na medicina contemporânea.

“O fato é que poucos cuidados específicos podem ser oferecidos para essa população muito idosa, porque as experiências com medicamentos e procedimentos cirúrgicos são feitas com as pessoas mais jovens. As pessoas com mais de 80 anos são excluídas dos estudos, então, você trata pessoas muito idosas sem um respaldo científico. Esse é um furo que ainda não foi resolvido. O que se pode oferecer para pessoas muito idosas é o cuidado gerontológico específico, com uma abordagem holística do paciente, oferecendo suporte psicológico, fisioterapêutico, o convívio familiar, a nutrição adequada, além da prevenção de determinadas doenças, com a vacinação para gripe e pneumonia, e um tratamento rigoroso de diabete e hipertensão”, sugere.

A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Edinilsa Ramos, graduada em psicologia e doutora em saúde pública, concorda com o geriatra e explica que essa nova realidade, que inclui a presença de pessoas extremamente idosas, em um número cada vez maior, pede por uma adaptação dos cursos de medicina e dos serviços de saúde. Para ela, é preciso que as mudanças sejam percebidas e que o sistema se ajuste, integrando, inclusive, a família dos “centenários”.

“Hoje, no Brasil, temos um sistema de saúde que, na própria formação médica, é voltado para os problemas das pessoas mais jovens e, atualmente, a gente tem essa parcela de pessoas mais velhas crescendo. As faculdades de medicina, os serviços de saúde têm que se adaptar a essa nova realidade. Ao invés de focar apenas nas doenças infantis, como as infecciosas, é preciso pensar nas doenças das pessoas mais velhas, que sofrem de problemas crônicos e degenerativos, que ainda são muito mais complexos. E isso tudo requer um aprendizado desde a formação, de toda a área médica, inclusive da família, que é o principal cuidador e não sabe lidar com esses problemas”, aponta Edinilsa.

Já as mudanças de relação entre o idoso e o restante da sociedade já podem ser claramente observadas, tanto da forma como os idosos enxergam a si mesmos, quanto da maneira que a sociedade o encara atualmente, na comparação com algumas décadas atrás, segundo a pesquisadora. “O idoso de hoje não é mais o idoso de 50 anos atrás. A pessoa hoje com 60 anos é considerada pessoa idosa, mas que está em plena atividade, que dá conta da sua vida, que está trabalhando, ajuda a família financeiramente, que garante, muitas vezes, o sustento familiar. É mais ativo, que participa mais da sociedade. Não é mais o vovô que fica na cadeira de balanço ou a vovó que faz tricô e crochê, mas é a vovozinha que vai à academia, que faz exercício na praça, que gosta de teatro, de sair. É um outro idoso e a sociedade está mudando a sua percepção de como ela passa a perceber esse idoso, embora exista ainda muito preconceito”, aponta.

A psicóloga Márcia Rochido, que trabalha com idosos desde 1998, acredita que a mudança está também na forma como o próprio idoso passou a se enxergar e se colocar perante o restante da sociedade. Além de serem mais ativas e reivindicativas, as pessoas de idade mais avançadas não enxergam mais a chegada da velhice como um fator limitante, que precede a morte. Hoje, os idosos ainda acreditam que têm muita vida pela frente e, por isso, buscam novos vínculos sociais, culturais e afetivos, principalmente após a morte de amigos e familiares.

“Quando comecei [a trabalhar com idosos], estava muito claro que o índice de sofrimento era muito grande, com a perda de amigos e familiares, eles ainda tinham aquela ideia de “está chegando a minha hora”. Mas nesse tempo de convivência, a mudança foi muito interessante. Hoje, isso não é uma realidade tão ampla, eles estão mais reivindicativos, buscando novos vínculos sociais, novos relacionamentos. Se, por um lado, eles perdem uma pessoa, por outro, adquirem outros vínculos. Obviamente, aquelas pessoas vão fazer falta, mas quem está ficando e se aproximando tem peso muito positivo na vida desses idosos. A ideia do “agora é minha vez”, de 20 anos atrás, não é mais tão presente, tão forte”, explica Márcia.

A psicóloga aponta ainda que a mudança de postura dessa faixa etária, vinculado a uma nova percepção por parte do restante da sociedade, fez com que o papel do idoso fosse revisto, inclusive pela área trabalhista, dando palestras ou exercendo determinadas funções. Como em uma via de mão dupla, Márcia revela que os idosos ganharam mais coragem para se expor, o que, consequentemente, gerou mais abertura para essa mesma exposição seja cada vez mais possível. Hoje, mesmo após os 60 anos, alguns ainda fazem faculdades, abrem negócios, começam cursos.

Apesar de todas essas mudanças, a pesquisadora Edinilsa Ramos ainda percebe que o papel do idoso não tem a mesma relevância dos jovens adultos, parcela da população inserida no mercado de trabalho. Para a pesquisadora, o “valor” de quem produz e gera recurso na sociedade é superior àqueles que não exercem nenhuma atividade que contribua para o funcionamento do sistema, ainda que já tenham exercido em outro período de sua vida. Isso explica o tratamento diferenciado entre as diferentes faixas etárias. “É uma ‘menos-valia’ desse idoso, que não está no mercado de trabalho, que não tem esse mesmo valor de quem trabalha”, finaliza Edinilsa.

*Do programa de estágio do Jornal do Brasil

Tags: brasil, envelhecimento, idosos, longevidade, Mundo, POPULAÇÃO, SAÚDE

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