As vítimas do incêndio na Boate Kiss que estão internadas em hospitais de Porto Alegre ainda devem passar por cirurgias plásticas antes de voltar para casa. Quatro pacientes que estão nos hospitais de Clínicas e Mãe de Deus, na capital gaúcha, seguem o tratamento, que lida, ao mesmo tempo, com queimaduras e lesões nas vias respiratórias causadas pela inalação da fumaça. Todos eles, que estiveram em estado grave, já estão fora da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e respiram sem a ajuda de aparelhos. As três vítimas internadas no Hospital de Clínicas reagem bem ao tratamento e veem mais perto o dia em que receberão alta.
No último domingo, depois de ficar 112 dias internada no Clínicas, morreu a estudante Mariane Wallau Vielmo, 25 anos. Ela foi a 242ª vítima do incêndio. Durante sua internação, a jovem chegou a deixar a UTI do hospital, anunciando sua melhora pelo Facebook. No dia 2 de abril, ela mesma postou: "Primeiro dia que consigo escrever aqui, estou me recuperando bem."
"Eles estão na condição que chamamos de estável, os curativos já diminuíram e há a previsão de operá-los novamente", diz o cirurgião plástico Ciro Portinho, que faz parte da equipe que acompanha os pacientes do Clínicas. "Eles estão fora da UTI há bastante tempo. Podemos pensar em planejar a alta e o acompanhamento posterior." As vítimas internadas no hospital recebem o acompanhamento das equipes de pneumologia, enfermagem de curativos e cirurgia plástica. "Eles passam por curativos, fisioterapia, acompanhamento clínico e psicológico", diz o médico.
No Hospital de Clínicas, estão internados Marcos Belinazzo Tomazetti, Renata Pase Ravanello e Cristina Peiter. Tomazetti chegou a ganhar alta no início de abril, mas voltou a ser internado depois de ir ao hospital para fazer exames no dia 2 de maio. A quarta ferida ainda hospitalizada é Ritchieli Pedroso Lucas - irmã de Driele Pedroso Lucas, que morreu durante a internação. Ela está no Hospital Mãe de Deus.
"A grande parte dos pacientes chegou num estado bem grave no sentido respiratório, tanto que todos ficaram em UTIs, inicialmente. Depois do tratamento respiratório, alguns tiveram alta mais cedo. Muitos não precisaram de cirurgia plástica, mas quase metade deles acabou passando pelo procedimento", explica Portinho. "Vários pacientes estavam bastante graves, na questão da pele e da parte respiratória; outros ainda tinham problema de traumas associados. Precisamos tratar a parte inicial, a que chamamos de fase aguda, e alguns já estão com tratamentos para sequelas, a chamada fase crônica, que trata os problemas de cicatrizes, por exemplo. O acompanhamento deve seguir por muitos anos, para ver se a cicatriz não vai atrapalhar movimentos - e também a questão de dermatologia, mais na parte estética, relacionada a manchas e à coloração da pele."
No Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, referência no atendimento a queimados, todas as vítimas da Kiss já receberam alta. Das dezenas de pacientes que ficaram internados na UTI, a maioria segue com o acompanhamento de médicos. "Todos eles têm uma continuidade de tratamento no nosso ambulatório de queimados. Às vezes, o tratamento pode durar uma vida inteira", diz a cirurgiã plástica Maria da Graça Figueira Costa, supervisora técnica da unidade de queimados do hospital.
"Eles recebem as malhas – um expediente que a gente usa para não deixar com que as cicatrizes das queimaduras fiquem hipertróficas -, eles consultam, a gente vê como está a pele, eles passam por fisioterapia. É uma reabilitação", diz a médica, que explica que os pacientes não fazem mais enxertos de pele. "Talvez possam precisar de cirurgia. Estamos esperando um 'amadurecimento' dessas cicatrizes para ver", diz.
Amputações
Algumas vítimas de queimaduras também podem correr o risco de ter membros removidos em função da trombose. Segundo Portinho, alguns pacientes da tragédia internados no Clínicas sofreram amputações. "Houve amputações porque esses pacientes tiveram ou traumatismos de membros - braços e pernas -, ou problemas de má circulação, trombose. Isso pode acontecer tanto pela queimadura tanto como pela questão de alguns pacientes terem sido pisoteados na correria, com perfurações por saltos de sapato, por exemplo. Não foi o caso de nenhum paciente no Clínicas, mas esse seria também um trauma associado", explica o médico.
"Isso nos traz uma preocupação psicológica também, porque são pacientes jovens. Amputar um membro, para o jovem, é certamente mais traumatizante", diz Portinho.
242º vítima
A estudante Mariane Wallau Vielmo se tornou a 242ª vítima da tragédia às 5h15 de domingo. Ela teve grande parte do corpo queimado. Há aproximadamente duas semanas, voltou para a UTI do hospital, em decorrência de infecções e pneumonia. A causa do óbito da jovem foi falência de múltiplos órgãos.
A família, no entanto, não autorizou a divulgação de detalhes sobre a morte de Mariane. "Por respeito aos familiares, não divulgamos o diagnóstico. O que acontece, de forma geral, é que alguns pacientes têm mais resposta. Alguns acabam reagindo e tendo menos complicações. A gente sabe que alguns vão evoluir pior. Embora com um investimento grande de tratamento, alguns reagem de forma diferente", explica Ciro Portinho. "Vários que chegaram aqui mais graves responderam bem. Há uma variação individual grande", diz o médico.
Um fator que também pode ter contribuído para o agravamento do estado de Mariane é o tempo de internação, que costuma ser pior para grandes queimados. "O paciente já está com o sistema imunológico baixo, debilitado. O risco de desenvolver infecções é muito maior nos queimados. Por isso, é uma unidade isolada, tem limitação de visitas, várias restrições, pois eles estão com a imunidade comprometida", diz a médica do Cristo Redentor.
"O grande queimado já tem danos na mucosa respiratória e na pele. Uma infecção agrava muito o estado dele", explica Maria da Graça. O médico Ciro Portinho concorda: "A queimadura é um trauma muito grande, ela baixa as defesas do corpo, então o paciente fica mais imunodeprimido. E essa questão, associada à queimadura de pele, provoca perda de uma barreira natural, e isso aumenta a chance de infecção. Além disso, ele tem um enfraquecimento geral. Esse enfraquecimento facilita que o paciente tenha infecções em vias respiratórias, de sangue, urinária, intestinal, e isso pode generalizar. Outro problema é que, depois de muito tempo no hospital, há o risco da infecção hospitalar, que são comuns aos demais pacientes", diz.