Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País

Pesos e medidas das manifestações

Jornal do BrasilRenan Almeida*

As dezenas de manifestações pedindo a renúncia do pastor Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal são, de certa forma, surpreendentes. Não que sejam injustificadas – a CDH deve zelar pelas minorias e algumas das quais já foram publicamente reprimidas por Feliciano - porém, curiosamente, não se vê tamanha reação da sociedade contra a falta de ética, a corrupção e os abusos de  parlamentares. 

"Por que nossa sociedade não quer se meter nisso? Porque é estruturalmente corrupta. Ela pactua com a pequena corrupção - o jeitinho brasileiro -, e ao fazer isso  a indignação fica restrita aos pequenos grupos", sustenta o sociólogo e cientista político da Uerj, Paulo Baía.   

Baía considera que as pessoas só se manifestam quando se sentem diretamente afetadas. "Só quando acontece com uma pessoa: ela". E cita a pequena repercussão a respeito das denúncias contra o presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, o deputado federal João Magalhães (PMDB-MG), que já é réu pelo crime de corrupção passiva em ação no STF e na semana passada foi denunciado pela Procuradoria Geral da República sob acusação de fraude em licitações e corrupção passiva. 

“Curiosamente, não se fala sobre a Comissão de Finanças. E não é por desconhecimento, os deputados sabem, é público. As pessoas acham que isso não mexe com suas vidas, então está tudo bem”, aponta.

O motivo, sugere o sociólogo, é que apesar de eleger os governantes, a população não se considera responsável pelo governo. "Há uma permissividade e um descomprometimento com as instituições do estado e do governo. A sociedade não se considera responsável por elas", explica.  

Já o coordenador do Laboratório de Análise de Violência da Uerj e cientista social, Ignácio Cano, não compartilha a opinião. Para ele, a tolerância em relação aos desvios de conduta está diminuindo. 

"A indignação contra a corrupção está aumentando. Houve a Lei da Transparência, diversas condenações. A tendência é uma menor tolerância com os desvios", analisa.

Para Ignácio, a mobilização contra Feliciano é mais energética do que em relação ao presidente da Comissão de Finanças, porque contra João Magalhães há somente acusações. Já contra o pastor, réu por estelionato e homofobia, pesam ainda as polêmicas declarações públicas e filmagens - como a que mostra ele pedindo a senha do cartão de um fiel, condicionando a recompensa divina à doação de dinheiro.

>> Marco Feliciano diz que termo "satanás" se refere a "adversário"

Feliciano, por sua vez, durante um culto na última sexta-feira(29) deu a seguinte e surpreendente explicação para os protestos: "Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na história desse Brasil, um pastor cheio de espírito santo conquistou o espaço que até ontem era dominado por Satanás".

 

 

 

Tags: cdh, Corrupção, corrupção falta de ética, feliciano, manifestações, país, passividade

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