CPI apresentará sugestões de mudanças nas leis de combate ao tráfico de pessoas
O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Pessoas, deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), disse hoje (6) não ter dúvidas de que pessoas ligadas à estrutura do Poder Judiciário na região de Monte Santo (BA) participavam da rede responsável pelo suposto esquema de adoções irregulares de crianças do sertão da Bahia.
“Tenho certeza de que a estrutura do Poder Judiciário na região tem algum envolvimento nisso”, respondeu o deputado, ao ser perguntado sobre as conclusões dos membros da CPI, após retornar de diligência à região de Monte Santo, no nordeste baiano, a cerca de 350 quilômetros de Salvador.
O parlamentar, entretanto, não foi definitivo sobre a responsabilidade do juiz Vitor Xavier Bizerra no caso. Foi o magistrado quem autorizou que cinco crianças fossem tiradas da guarda dos pais e levadas por quatro casais do interior de São Paulo, “a título de guarda provisória”.
“Não posso dizer que tenha havido a participação [indevida] do juiz, que pode ter sido induzido [a autorizar as adoções]. Mas que alguma coisa irregular, ilegal, ocorreu na estrutura do Poder Judiciário; que há participação da estrutura de cartório, da estrutura do fórum, uma certa cumplicidade, disso, nós temos certeza”, garantiu.
Procurado pela Agência Brasil, o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia disse que a corregedoria local continua apurando o caso e que todos os esforços serão feitos para chegar a um resultado, o mais rápido possível, e, se necessário, aplicar as punições cabíveis. "O tribunal, contudo, não comenta os resultados das investigações já feitas, pois o processo corre em segredo de Justiça, por uma questão de segurança para as famílias e para as crianças envolvidas", conforme a assessoria da instituição.
Jordy disse que a CPI aguarda pela conclusão do processo de correição instaurado em novembro de 2012 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para apurar irregularidades nos processos de adoção de crianças do sertão baiano. “O relatório do CNJ vai nos ajudar a saber qual a extensão da participação do Poder Judiciário e, evidentemente, a tomarmos as medidas legais e cabíveis que nos competem”, disse Jordy.
A correição foi feita por juízes auxiliares em Monte Santo, Euclides da Cunha e outros municípios da região, em complemento ao processo administrativo instaurado pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), por determinação da corregedoria do CNJ.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Pessoas, da Câmara dos Deputados, deve apresentar em até 60 dias um relatório parcial com sugestões de mudanças legislativas que contribuam para o combate ao tráfico de pessoas. A informação foi adiantada hoje (6), pelo presidente da comissão, deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA).
O parlamentar e outros integrantes da comissão se reuniram esta manhã com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para quem apresentaram um balanço das atividades feitas pela comissão instalada em abril de 2012. A imprensa não teve acesso à reunião e o ministro também não conversou com os repórteres ao fim do encontro, mas, segundo o deputado, ao menos duas colaborações foram acertadas, como o reforço da presença da Polícia Federal (PF) em algumas localidades, sobretudo nas fronteiras.
“É preciso melhorar o diálogo entre a CPI e a PF. Há coisas que a CPI tem a prerrogativa de fazer e que podem ajudar nas investigações da Polícia Federal. Assim como há investigações que não temos habilidade para fazer e que só mesmo a PF pode executar”, disse Jordy, destacando a importância de ampliar o efetivo policial na área sob influência das obras de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, próximo à cidade de Altamira (PA). No local, há poucas semanas, uma operação conjunta das polícias Militar e Civil libertou 16 mulheres, uma adolescente e uma travesti mantidas em cárcere privado e obrigadas a se prostituir.
“Pedimos ao ministro providências para melhorar o efetivo da Polícia Federal. Nos últimos seis anos diminuiu de 32 para 15 o efetivo da Polícia Federal presente na região, que passou de 100 mil habitantes para 132 mil moradores em apenas sete meses [em função das obras da hidrelétrica]”, disse o parlamentar, afirmando ser quase impossível que os responsáveis locais pelo empreendimento não tivessem conhecimento da existência de prostíbulos no local. Estabelecimentos onde, nas palavras de Jordy, atuava “uma rede de aliciamento de mulheres forçadas a se prostituir”. “Algo inadmissível, já que se trata de um projeto que está recebendo financiamento público, do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]”.
Ainda sobre as contribuições da CPI do Tráfico de Pessoas, o deputado diz que o relatório parcial da comissão será apresentado por um grupo de trabalho encarregado de produzir o documento com as sugestões de mudanças legais que contribuam para o combate ao tráfico de pessoas.
“Nosso Código Civil, o Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como a legislação de imigração e o estatuto do estrangeiro são instrumentos jurídicos que estão absolutamente defasados. Tivemos todo o apoio do ministro, que pediu que agilizássemos esta contribuição para que o Poder Executivo possa se mobilizar pela aprovação de uma [nova] legislação o mais rápido possível”, disse o presidente da comissão.

