Haddad minimiza críticas à gestão passada: 'quero virar essa página'
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), disse nesta quinta-feira - durante entrevista ao Terra concedida em seu gabinete, no centro da capital paulista - que espera "virar a página" em relação às críticas à gestão anterior e minimizou os eventuais atritos com o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD). Ele disse, no entanto, que atravessa um processo de intensa "imersão" à situação da cidade e afirmou se sentir obrigado de expor à população os problemas que herdou e que encontrou ao assumir o cargo, no dia 1º de janeiro.
"Quando você fala: 'nós temos um problema e vamos ter de resolver porque é um problema estrutural', a impressão que dá é a de que você está falando do seu antecessor imediato. Mas na verdade, você está falando de um problema da cidade. Eu não fico olhando pra trás, mas eu tenho que prestar conta de como a situação é, e dos investimentos que vão ser necessários", afirmou. "Nós acabamos de passar por uma eleição. Ele (Kassab) apoiou o Serra (José Serra, candidato do PSDB), e eu concorri com o Serra. Se nós não tivéssemos divergências, não estaríamos de lados diferentes. Mas ele se mostrou uma pessoa madura durante a transição. E tenho contato com a base do PSD (partido de Kassab) com a Câmara, que até agora tem se mostrado bem disposta a nos ajudar. Então eu gostaria de virar essa página em relação a essa questão. (...) Tem um pouco de intriga aí na maneira como, às vezes, é retratada uma frase minha", completou.

Durante 40 minutos, o prefeito respondeu às perguntas da jornalista Maria Lins e de internautas sobre diversos temas, entre eles: as enchentes recorrentes; os problemas de mobilidade urbana e os investimentos em transporte público; a situação do cofre municipal; a previsão de extinção da taxa de inspeção veicular; a situação das calçadas; e as relações com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - seu mentor político.
Durante a entrevista, Haddad explicou ainda por que tem priorizado as reuniões de trabalho às agendas públicas, e disse ter se dedicado a encontrar uma estratégia para que a cidade "volte a investir nela mesma". "Queremos recuperar a nossa capacidade de investimento. (...) Porque tudo exige obra e obra exige recursos livres para investimento, e nós não temos isso. (...) Nós temos que voltar a pensar São Paulo como uma cidade capaz de promover bem estar por meio de sua ordenação territorial. O nosso território está muito desordenado", explicou, lembrando que tem até o dia 30 de março para apresentar à sociedade um plano de governo para os próximos quatro anos.
"Em 90 dias, nós temos que ter o plano para os quatro anos de governo, por isso essa imersão tão grande do secretariado e de toda a equipe do governo. (...) Porque uma coisa é você dizer: 'vou fazer 150 quilômetros de corredores de ônibus'. A outra coisa é explicar onde, com que recurso, com quais parcerias", disse.
Segundo ele, a renegociação da dívida pública do município com a União resolverá "um terço" dos problemas da prefeitura - e a previsão é que isso aconteça ainda neste ano. Desde que assumiu, Haddad tem se queixado de falta de verba para investir e determinou que seu secretariado cortasse gastos.
"Um terço do nosso problema será resolvido com a aprovação dessa lei (que envolve ainda as responsabilidades de investimento das prefeituras e Estados). E aí, o um terço do problema vai ser resolvido com a vinda pra São Paulo dos programas federais, e o outro terço vai ser resolvido na prefeitura, com a economia de recursos, com cortes de despesas e com operações urbanas", disse.
Semáforos velhos e mobilidade urbana
O prefeito também foi questionado pelos internautas do Terra sobre por que boa parte dos semáforos para de funcionar quando chove - o que prejudica ainda mais o trânsito. Segundo ele, o "apagão" da rede não se dá por queda de energia, mas sim porque a rede é antiga e precisa ser trocada. De acordo com Haddad, uma licitação deve ser aberta para dar início ao serviço ainda em 2013.
"Não dá mais para remendar. Nós estamos há 20 anos remendando a rede semafórica de São Paulo. A fiação já não tem mais recuperação. A caixa de passagem não tem mais recuperação. Então, ou se faz uma reforma estrutural da rede semafórica, ou esses problemas recorrentes (vão continuar acontecendo). Inclusive falta de peça de reposição, por causa da idade dos equipamentos. (...) Então, vamos ter de fazer uma reforma, e também deve sair até o meio do ano um edital de licitação da reforma estrutural da rede semafórica. Aí, nós vamos ter verões melhores a partir do ano que vem", afirmou.
Haddad também afirmou que acabará neste ano com a taxa da inspeção veicular, e se comprometeu a implantar até novembro o Bilhete Único Mensal - duas de suas maiores promessas de campanha. Em relação ao fim da taxa, ele explicou que aguarda para este ano a aprovação do projeto de lei que envio à Câmara, mas voltou a reclamar da empresa Controlar (responsável pelo serviço) e disse que espera "reformular" completamente o modelo do programa.
"Estou tendo problemas com a Controlar, como era de se prever. É uma empresa que está demonstrando não ter nenhum interesse público com a cidade, só tem interesse com o próprio contrato e com a rentabilidade, que é elevadíssima. Mas nós vamos enfrentar esse debate com a Controlar, abrimos três processos administrativos, estamos aplicando as multas cabíveis à empresa, que não cumpre o próprio contrato", afirmou.
Já em relação ao Bilhete Único Mensal, ele esclareceu que a prefeitura precisa desenvolver a tecnologia para recarga do sistema. A tarifa será estabelecida somente após o reajuste da passagem de ônibus, previsto para o meio do ano. "Se ele fosse implantado em janeiro de 2013, custaria cerca de R$ 140" - valor calculado com base na passagem de R$ 3,00, preço atual, vigente até o primeiro semestre de 2013. "O nosso compromisso é não aumentar a tarifa acima da inflação acumulada desde o último reajuste. (...) E tenho duas etapas para cumprir: uma jurídica, que é a licitação da concessão, (...) e a outra é de caráter tecnológico, porque a atual rede de bilhete único não se atende ao bilhete mensal", justificou.
Segurança e comunicação
Embora segurança pública seja responsabilidade do governo do Estado, o prefeito foi questionado por internautas sobre a má iluminação em alguns pontos da capital paulista. Segundo ele, a troca de lâmpadas queimadas ganhou mais agilidade desde que assumiu o comando da prefeitura, graças à cobrança das empresas responsáveis para que efetuassem o serviço dentro do prazo estipulado.
Haddad explicou, no entanto, que a queda de energia elétrica durante a chuva é de responsabilidade da Eletropaulo, que também responde ao governo, mas disse ter pedido à Polícia Militar que melhore a fiscalização das áreas escuras quando houver interrupção da energia elétrica. "Nós combinamos que, quando houver uma queda de energia, nós vamos acionar a Polícia Militar. (...) Então, quando cair a energia, vamos reforçar a segurança nos pontos escuros", disse.
Por fim, o prefeito foi questionado sobre sua relação com a internet, já que praticamente abandonou as redes sociais após assumir a função. Ele admitiu que utilizou a ferramenta durante a eleição, mas adiantou que pretende lançar em breve uma página no Twitter voltada para a prestação de serviços aos moradores de São Paulo, que deve se chamar Notícias SP (@sp_agora). "Nós queremos usar essa ferramenta para nos comunicar melhor com o cidadão", disse Haddad.

