Documento desmente fuga de Rubens Paiva, diz comissão
O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Claudio Fonteles, afirmou que o ex-deputado Rubens Paiva foi assassinado nas dependências Doi-Codi, no Rio de Janeiro. Fonteles divulgou um relatório em que analisa documentos pesquisados no Arquivo Nacional.
Segundo o coordenador, esses documentos e os outros arquivos entregues à polícia do Rio Grande do Sul pela família do coronel Júlio Miguel Molinas Dias, assassinado em Porto Alegre, em novembro, desmontam a versão oficial montada pelo Exército de que Paiva foi sequestrado enquanto estava sob custódia dessa força militar.
O texto em que Fonteles analisa os documentos foi divulgado juntamente com outros dois: o capítulo IV da série “O Estado ditatorial militar”, iniciada em 22 de novembro e a análise do caso do desaparecimento de Edmur Péricles de Camargo, o Gauchão, no Brasil, numa operação de cooperação entre as ditaduras brasileira e argentina.
Este é o segundo conjunto de textos divulgados pelo atual coordenador da Comissão Nacional da Verdade, cujo mandato termina no próximo dia 15.
Em 22 de novembro, Fonteles havia divulgado 11 textos, nos quais resumia suas pesquisas quase diárias no Arquivo Nacional.
Os documentos que estavam com Molinas, em Porto Alegre, confirmam que após ser preso por uma equipe do Cisa, da Aeronáutica, em 20 de janeiro de 1971, em sua casa, no Rio de Janeiro, Paiva foi entregue ao Doi-Codi no dia seguinte. Todos os documentos pessoais que estavam com o deputado cassado foram descritos.
No Arquivo Nacional, Fonteles se deparou com o até então inédito Informe SNI 70, de 25 de janeiro de 1971, no qual os agentes da repressão narram como foi a prisão de Paiva e como ela teria se originado.
Segundo o serviço secreto da repressão, o Cisa recebeu ordem de revistar um avião da Varig, vindo do Chile, que pousaria a 0h do dia 20 de janeiro. No avião estavam Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona. Ambas traziam cartas de inúmeros asilados políticos para o ex-deputado. Após a prisão delas, os militares chegaram até Rubens Paiva.
O informe, datado de 25 de janeiro, nada diz sobre a fuga ou sequestro de Paiva, que teria ocorrido em 22 de janeiro, segundo a versão oficial do Exército, divulgada em fevereiro. “Importante (...) registrar que esse Informe (...) nada diz sobre ‘a fuga’ de Rubens Paiva que, na versão oficial dos agentes públicos do Estado Ditatorial militar, teria ocorrido aos 22 de janeiro, para justificar, até hoje, seu estado de foragido. Tivesse acontecido, de verdade, ‘a fuga’ e, por óbvio, esse evento constaria desse pormenorizado registro”, analisa Fonteles.

