RS: após alta, pai diz que acorda para ver se filho está dormindo
O eletricista de automóveis Luiz Carlos Speranzoni não dormiu bem na última noite. Levantou várias vezes para ver se o filho, que tem o mesmo nome, estava bem. Luiz Carlos Speranzoni Júnior, 20 anos, foi um dos jovens que receberam alta depois do incêndio da Boate Kiss, que matou, até agora, 236 pessoas em Santa Maria (RS).
"De noite, a gente levantava para ver se ele estava dormindo mesmo", disse Speranzoni na oficina instalada em sua casa, localizada em uma localidade humilde da cidade gaúcha. O eletricista chora ao lembrar que quase perdeu o filho único, salvo com a ajuda de um primo, que é soldado da Base Aérea.
"Ele estava quase lá no fundo, quando o primo dele disse 'olha a fumaça'. Mas foi questão de segundos. Ele caiu e esse primo dele que puxou ele para fora. Ele desmaiou e, quando acordou, disse que não viu o primo, e ele estava ajudando a tirar as pessoas, com uma blusa protegendo o nariz", contou. "Agradecemos a Deus e ao meu sobrinho, que estava lá nessa hora para dar essa força", disse Speranzoni.
Fruto de uma gestação complicada, o jovem falou nos pais quando pensou no risco que corria na boate tomada pela fumaça. "Na hora que ele caiu, ele disse assim: 'não deixa eu morrer, o que vai ser do meu pai e da minha mãe'", afirmou o pai.
Nesta manhã, Luiz Carlos Júnior voltou ao Hospital Universitário de Santa Maria para passar por exames. Ele estuda administração na Unifra, faculdade paga com a ajuda do pai. "Quase que a gente perde o sonho de ver o filho formado. Eu, como eletricista, estou sempre sujo, lidando na graxa. A gente não quer que o filho siga aquilo ali, né? Quer que seja alguém na vida", disse.
O jovem também trabalha em um estacionamento para se sustentar. "O sonho dele era comprar uma moto, e foi lá e financiou uma moto. Recém pagou as duas prestações", afirmou o pai.
Mesmo sabendo desde o início da manhã de domingo que seu filho havia escapado da boate, Speranzoni tenta explicar a contradição de sorrir em um momento em que várias famílias sofrem pela perda de seus filhos. "É um sorriso, mas parece que não é um sorriso. Quando o patrão da minha mulher disse que morreram 90, eu disse: 'mas eu recém falei com ele por telefone'. Até aquela hora, a gente não tinha noção do tamanho da tragédia", afirmou.
Incêndio na Boate Kiss
Um incêndio de grandes proporções deixou mais de 230 mortos na madrugada do dia 27 de janeiro, em Santa Maria (RS). O incidente, que começou por volta das 2h30, ocorreu na Boate Kiss, na rua dos Andradas, no centro da cidade. O Corpo de Bombeiros acredita que o fogo tenha iniciado com um artefato pirotécnico lançado por um integrante da banda que fazia show na festa universitária.
Segundo um segurança que trabalhava no local, muitas pessoas foram pisoteadas. "Na hora que o fogo começou, foi um desespero para tentar sair pela única porta de entrada e saída da boate, e muita gente foi pisoteada. Todos quiseram sair ao mesmo tempo e muita gente morreu tentando sair", contou. O local foi interditado e os corpos foram levados ao Centro Desportivo Municipal, onde centenas de pessoas se reuniam em busca de informações.
A prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias e anunciou a contratação imediata de psicólogos e psiquiatras para acompanhar as famílias das vítimas. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde se reuniu com o governador Tarso Genro e parentes dos mortos. A tragédia gerou uma onda de solidariedade tanto no Brasil quanto no exterior.
Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.
Na segunda-feira, quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Sphor, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffman, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investigava documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergiam sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.
A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

