Jornal do Brasil

País

Filme sobre Lula emociona, suscita debate e provoca ira da oposição

Jornal do Brasil

Vasconcelo Quadros, Leandro Mazzini , André Balocco , Jornal do Brasil

BRASÍLIA, RIO - A direção e o elenco juram que é uma obra sobre a trajetória pouco conhecida do retirante miserável que virou presidente da República e um fenômeno de popularidade. Mas o filme Lula, o filho do Brasil estreou na terça-feira à noite na abertura do 42º Festival de Cinema de Brasília provocando uma discussão que promete esquentar até que o longa entre no grande circuito: trata-se de uma obra de arte ou apenas uma das peças destinadas a influenciar a cabeça do eleitor nas eleições do ano que vem? O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo filho de um retirante pernambucano que também migrou, em 1949, num pau-de-arara para São Paulo avaliou os efeitos da produção de forma irônica, mas precisa:

O filme vai deixar a oposição nervosa. Mas ela não deveria ficar nervosa. É só escolher alguém e também fazer um filme. Poderia ser a história dos Maia, do Cesar e do Rodrigo cutucou o ministro, citando o ex-prefeito do Rio Cesar Maia e seu filho, o deputado Rodrigo Maia (DEM). Sugeriu, inclusive, o nome da obra: Os Maia, disse Bernardo, logo depois de assistir ao filme. A cena que mais chamou sua atenção, naturalmente pela familiaridade, foi a da viagem de 13 dias no caminhão pau-de-arara.

Bernardo admite que o filme, que estreia em janeiro em circuito nacional, em cerca de 400 salas, vai causar um impacto positivo na imagem do presidente.

A popularidade deve aumentar uns 10 pontos e a oposição vai propor mais uma CPI prevê o ministro, em mais uma tirada de ironia.

Ele fez questão de ressaltar a ausência total de dinheiro público ou de recursos de estatais no patrocínio de uma produção estimada em cerca de R$ 16 milhões.

Na lista de patrocinadores privados é difícil encontrar quem não tenha alguma relação de negócio com o governo federal: Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Oi, EBX, Volkswagen, Hyundai, Senai, Estre Ambiental, Grupo JBS-Friboi, Grandene, GDF Suez e Ambev.

O Lula pertence ao Brasil, não ao PT. Ninguém vai fazer campanha com o filme jura o deputado Cândido Vaccarezza, líder do partido na Câmara.

Paulo Bernardo acha que, mais que a popularidade de Lula, o que vai pesar mais no desempenho eleitoral da candidata a candidata do PT, ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, serão os programas que vêm sendo desenvolvidos pelo governo.

O filme mostra quem foi Lula até 1979. Não há na obra nada de disputa política e não será explorado na eleição afirmou o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP).

Essa, aliás, é uma grande sacada do diretor Fábio Barreto e de seu pai, Luiz Carlos Barreto, o Barretão. A última de uma série de cenas emocionantes mostra Lula voltando do enterro da mãe, dona Lindu, para a cela, em 1979. A autorização para participar do enterro foi uma concessão do então chefe da polícia política paulista, o hoje senador Romeu Tuma (PTB-SP) (pai do atual secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior), que aparece entre os policiais que à época prenderam Lula. O filme expõe um presidente cuja trajetória, da infância miserável à fundação de um novo sindicalismo, é uma história de superação. Emotivo e batalhador, o Lula retratado pelos Barreto é incompleto, mas real e autêntico.

Ele é um dirigente sindical de esquerda, que queria comida na mesa do trabalhador. O Lula nunca foi comunista resumiu Vaccarezza.

O Lula de hoje, segundo o líder do PT na Câmara, é mais consistente . Ou seja, não é mais o Luiz Inácio de dona Lindu.

Tive receio de aceitar o papel com medo que fosse um filme político. Fui ver a história e achei fantástica disse a atriz Glória Pires, que fez o papel da mãe de Lula.

De fato, O filho do Brasil, de Luiz Inácio a Lula, a biografia autorizada, da jornalista Denise Paraná, não permite dúvidas: Lula é conservador. Só entrou para o sindicalismo e mais tarde no confronto com o regime militar, para ocupar a cabeça , empurrado pelo irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico. E não foi porque teve um despertar de consciência política. Foi porque viu o irmão, este sim, um comunista, todo machucado, jogado numa cela dos porões da ditadura.

Lula não foi à estreia. Sua mulher, Marisa, o representou. Na plateia, entre os 750 lugares reservados ao governo, havia meio ministério e pelo menos um terço da base.

É a história de êxito de um brasileiro. Lula é emotivo, um sobrevivente e reflete o povo ressaltou o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE).

É difícil não se emocionar com as cenas em que a primeira mulher, Lurdes, morre junto com o filho ao dar a luz; ou com o enterro da mãe. Mas o filme não foca no animal político , toca de passagem no sindicalista aguerrido e exagera no Lula emotivo. (V.Q.)

Oposição vê campanha. Mas sem base jurídica, só lamenta

Os partidos da oposição veem clara tentativa de o presidente Lula, com o filme de sua biografia, comover o cidadão justamente no ano eleitoral e fazer com que não explicam como, no entanto a candidata à Presidência Dilma Rousseff se beneficiar nas urnas com a história do aliado.

Os líderes do DEM, PPS e PSDB focam os ataques em Lula e nos governistas, mas, embora estranhem que os financiadores do longa sejam grandes empresas que têm contratos com o governo federal, evitam polemizar a questão (essas mesmas empresas são doadoras de campanhas dos partidos da oposição a Lula).

Ainda avaliamos como podemos proceder (na Justiça) disse Sérgio Guerra, presidente do PSDB. Sem a menor dúvida o filme vai ter influência eleitoral. Mas o filme só mostra o lado positivo.

Para o presidente do DEM, Rodrigo Maia, o filme não muda em nada o projeto do partido.

Lula tem o direito de mostrar a sua história, e não sei se isso vai influenciar na campanha avalia Maia. O eleitor vai assistir à trajetória passada de um presidente, mas vai escolher um presidente olhando para o futuro.

Roberto Freire, do PPS, foi o mais duro nas críticas:

O filme pode ajudar, mas pode ter efeito bumerangue, porque o filme é muito bajulatório, e o povo não é bobo. Esconde uma série de coisas. Este governo é completamente destituído de parâmetros éticos. Mas não vamos fazer nada. (L.M.)

Para procurador, filme não tem propaganda eleitoral

Se a oposição acredita que pode realmente ganhar a batalha contra Lula, o filho do Brasil alegando que o filme narrando a vida do presidente é propaganda eleitoral antecipada, melhor mudar de estratégia. Segundo o procurador eleitoral do Ministério Público do Rio de Janeiro Marcos Ramayane, de 48 anos, é muito difícil fazer com que esta tese seja considerada pelo pleno do Tribunal Superior Eleitoral, órgão onde a queixa teria de ser impetrada. Acostumado a representar contra este tipo de problema, Ramayane não vê qualquer irregularidade no filme, que se resume a narrar a trajetória do presidente até o início dos anos 80, ou seja, antes da fundação do Partido dos Trabalhadores, que tem a ministra Dilma Roussef como uma de suas pré-candidatas.

Ela (a película) teria de ter um pedido explícito de votos à sua candidata, pois só assim se caracterizaria a violação do artigo 36 da Lei 9504 de 1997 defende Ramayane, que acumula as funções no MP com as de professor de legislação eleitoral.

Ramayane explica que a propaganda extemporânea, para ser definida juridicamente como tal, tem de começar antes de julho do ano em que o pleito se realizará. Mas, no caso de Lula, o filme não beneficia o presidente, já que ele não é candidato, apesar de provocar polêmica.

Talvez ela esteja acontecendo porque seja uma propaganda subliminar. É muito difícil caracterizar a propaganda extemporânea neste caso.

Para que o eventual pedido da oposição encorpe no plenário do TSE, seria necessária ao menos uma cena em que o presidente aparecesse pedindo votos para a ministra Dilma Roussef ou outro candidato às eleições do ano que vem. Mesmo assim, segundo o procurador, apenas este trecho da fita seria questionado.

Não vi o filme, mas pelo o que sei não há nada parecido com isso nele. O presidente está em seu direito de se manifestar, com liberdade de expressão, como está nos preceitos de nossa Constituição. É como se fosse uma peça de teatro, um livro. Não há crime, ele está dentro do direito da livre manifestação.

Mensagem

Se ao menos servir de consolo à oposição, o procurador reconhece que a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, retratada na telona, emociona e por isso mesmo serve como uma forma de divulgação de sua imagem, podendo beneficiar indiretamente sua candidata.

Mas nem toda divulgação pode ser compreendida neste enquadramento da propaganda antecipada.

O apelo da fita que ainda não viu, mas aguarda com ansiedade, é tanto, que ele próprio aguarda ansioso a estreia do filme, dia primeiro de janeiro, para ir ao cinema.

Vou porque me parece um filme interessante.

Para o senhor, procurador, e para muitos brasileiros. Os produtores de Lula, o flho do Brasil e os políticos que o cercam sabem muito bem disso. (A.B.)

Na pré-estreia sem Lula, vaias e confusão

Daniel Schenker *, especial para o JB

Todos sabiam que seria uma noite concorrida. E até tumultuada. Mas a confusão que tomou conta do Teatro Nacional Claudio Santoro, anteintem à noite, antes da exibição de Lula, o filho do Brasil, novo filme de Fábio Barreto que abriu, numa sessão não competitiva, a 42ª edição do Festival de Cinema de Brasília, surpreendeu. Os problemas começaram no momento em que a plateia de convidados se avolumou na porta de entrada do auditório e precisou esperar alguns minutos até ser liberada para passar por um espaço estreito. Em pouco tempo, o teatro ficou superlotado, com espectadores sentados nas escadas.

Quando os apresentadores deram início à cerimônia de abertura, a primeira saia justa da noite: um pequeno grupo de manifestantes subiu ao palco e estendeu uma faixa com a frase Lula, liberte Cesare! , em referência ao ex-ativista italiano Cesare Battisti, que teve sua extradição liberada quarta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e agora depende apenas da decisão do presidente. Em seguida, Luiz Carlos e Fábio Barreto foram chamados para apresentar o longa, que tem estreia comercial marcada para o dia 1º de janeiro.

Ao pegar o microfone, Luiz Carlos Barreto pediu que os espectadores sentados nas escadas se retirassem.

Quero fazer um aviso. Do jeito que estamos dispostos nessa sala, com pessoas acomodadas nas escadas e nos corredores e sem a presença de bombeiros, qualquer coisa que aconteça representará perigo de vida disse o produtor, vaiado pela maior parte do público.

Na sequência, Fábio causou mais mal estar.

A equipe do filme está sem ter onde sentar porque a organização do festival não guardou lugar. Quero pedir que pelo menos 30 pessoas se levantem sugeriu Fabio, que recebeu mais vaias.

Diante da reação contundente do público, a produtora Paula Barreto procurou acalmar os ânimos gerais e fazer com que a projeção começasse logo.

Na manhã de quarta-feira, durante a coletiva de imprensa, pai e filho voltaram atrás em suas críticas à organização do festival.

Gostei da sessão. Os problemas não foram tão relevantes. A força do filme se impôs destacou Fábio, que na véspera reclamou do fato de sua equipe não ter onde sentar e pedir para que pelo menos 30 pessoas cedessem seus lugares.

Luiz Carlos reiterou a fala do filho.

O que aconteceu foi um acidente de percurso normal. Enfrentamos a mesma situação quando exibimos O quatrilho (1994), em Gramado lembrou, mencionando outro filme de seu filho. Quero agradecer à direção do festival, ponto de resistência do cinema brasileiro.

O presidente e a primeira-dama Marisa Letícia receberam a equipe do filme, logo após a exibição, no Palácio do Planalto. Lula preferiu não comparecer à sessão (assistirá na pré-estreia em São Bernardo do Campo, no próximo dia 28). O filme acompanha a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde a infância paupérrima no sertão pernambucano até o momento em que se torna líder sindical no ABC paulista na passagem da década de 70 para a de 80. Abertamente favorável a Lula, a produção termina fazendo menção ao momento em que tomou posse, em 2003.

Escorado no livro homônimo de Denise Paraná, o diretor mescla a apropriação da trajetória do presidente com registros documentais de marcos da história brasileira, como o golpe de 1964 e a decretação do AI-5. Evoca o clima de euforia mesclado à tortura nos porões da ditadura durante a Copa de 70. E procura reeditar a atmosfera das greves do ABC em 1979/1980, contexto que também influenciou Leon Hirszman na transposição cinematográfica de Eles não usam black-tie (1980), de Gianfrancesco Guarnieri. Com boas interpretações do protagonista Rui Ricardo Diaz e de Glória Pires, o filme evita excessos melodramáticos e golpes de grandiloquência.

Glória Pires volta a trabalhar com Fabio Barreto depois de Índia, a filha do sol (1982) e O quatrilho.

Gostei muito do modo como o público se manifestou. É a primeira vez que venho ao Festival de Brasília e representando dois filmes bastante diferentes ressaltou, referindo-se também a É proibido fumar, de Anna Muylaert.

Rui Ricardo Diaz, por sua vez, acumulou experiência em grupos de teatro de São Paulo, como a Casa Laboratório, filial conduzida por Cacá Carvalho do Centro per la Sperimentazione e la Ricerca Teatrale, dirigido por Roberto Bacci, na cidade italiana de Pontedera.

Foram dois meses de preparação para viver Lula. Fábio me disse que eu deveria encontrar a pegada forte do personagem conta Diaz.

Fábio Barrero também procurou se defender das críticas em relação ao tratamento excessivamente positivo dado ao presonagem principal.

Nós procuramos humanizar Lula. Ele tem forças e fraquezas. Não quis mostrá-lo como alguém infalível ou perfeito. Minha intenção foi a de investir num melodrama e não num filme de cunho político garantiu.

Ao final da coletiva de imprensa, Luiz Carlos Barreto anunciou sua aposentadoria como produtor.

Quero dizer que, depois de 46 anos de trabalho, eu e Lucy seremos consultores da LC Barreto.

Lucy, porém, falou sobre projetos futuros como produtora: Flores raras e banalíssimas, centrado na figura da paisagista Lota de Macedo Soares, também protagonizado por Glória Pires; Madame Lynch, projeto com argumento de Manoel Carlos, e o documentário Entre rios e córregos, que traça um panorama de São Paulo, de sua criação até os dias de hoje.

* Daniel Schenker viajou a convite da organização do festival