Concentração de terras no Brasil é mantida
Agência Brasil
BRASÍLIA - A desigualdade na distribuição de terras no país permaneceu inalterada nos últimos 20 anos. Enquanto as unidades rurais com até 10 hectares ocupam menos de 2,7% da área total dessas unidades, a fatia ocupada pelas propriedades com mais de mil hectares concentram mais de 43% da área total. A constatação é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que divulgou nesta quarta-feira o censo agropecuário de 2006, cujos dados sobre a concentração da propriedade da terra revelam uma realidade rural semelhante aos últimos censos produzidos pelo órgão, em 1996 e 1985.
Outro dado que chama a atenção é que o nível de concentração oscila bastante de acordo com a região do país. O Sul, por exemplo, apresenta a menor desigualdade na distribuição das terras entre os diferentes extratos de área, especialmente nos municípios colonizados por italianos e alemães situados no noroeste do Rio Grande do Sul, na região vinícola da Serra Gaúcha, e aqueles que se localizam na região da agroindústria de aves e suínos, no oeste catarinense e sudoeste paranaense. De acordo com o levantamento, isso se explica pela estrutura fundiária consolidada pela presença da produção colonial do migrante europeu .
Na outra ponta, fica a região Nordeste, com elevados níveis de concentração de terras, principalmente na porção leste do Maranhão e em grande parte do Piauí. O processo de ocupação do território desde o período colonial, marcado pela economia escravista e grandes propriedades pastoris do sertão, ajuda a explicar o panorama, segundo o estudo.
Além do Nordeste, a região Centro-Oeste também apresenta uma desigualdade elevada na distribuição de terras, motivada, de acordo com os técnicos do IBGE, pela expansão da soja, que também ocorre nas regiões de Cerrado do oeste baiano. O cultivo desse produto exige emprego de tecnologia e articulação com o comércio mundial de commodities agrícolas, o que impõe uma escala de grande produção para garantir a inserção no mercado, avaliou o instituto.
Para piorar, embora a desigualdade na distribuição de terras tenha se mantido, a área total das propriedades agropecuárias no país que, em 2006, somou 329,9 milhões de hectares, sofreu, num período de dez anos, uma redução de 6,69%, o que representa aproximadamente 23,6 milhões de hectares a menos. Um dos principais motivos, apontado pelo IBGE, foi a criação novas terras indígenas, que tiveram expansão de 12,8% no mesmo período, e também de novas unidades de conservação.
Outro dado alarmante do censo é a revelação de que, em 2006, havia mais de 1 milhão de crianças com menos de 14 anos trabalhando na agropecuária. Além disso, oito em cada dez produtores rurais são analfabetos ou não concluíram o ensino fundamental, segundo o estudo.
