MG: atingidos por chuva tentam recuperar bens
Portal Terra
BELO HORIZONTE - Os moradores dos bairros Vila São Paulo, em Contagem, e os de Barreiro, Betânia e Salgado Filho, na região oeste de Belo Horizonte, todos ao longo da avenida Tereza Cristina, aproveitaram a manhã de sexta-feira para limpar as casas e verificar o que foi perdido na enchente do rio Arrudas, na noite de quarta-feira.
Na quinta os desabrigados começaram o trabalho, que teve de ser interrompido no final da tarde porque começou a chover novamente na região. Em toda a extensão da avenida, o cenário é de guerra. Placas inteiras de asfalto foram arrancadas pela força da água. Postes e árvores foram derrubados.
Para facilitar o trabalho de limpeza, os moradores retiram todos os móveis e roupas de casa e colocam nas ruas para secar ao sol, que voltou a aparecer depois de 20 dias seguidos de chuva em Belo Horizonte. O que não pode ser recuperado está sendo queimado em grandes fogueiras no meio da avenida.
O prefeito Márcio Lacerda (PSB) visitou a área logo depois de tomar posse ontem à tarde. Ele prometeu obras de alargamento da calha do Arrudas e socorro imediato às vítimas. Pelo menos 50 famílias ficaram desabrigadas ou desalojadas.
Temporal no Réveillon
O temporal que caiu poucas horas antes do Réveillon veio acompanhado de ventos fortes, e durou pouco mais de 30 minutos. A quantidade e a força da água fizeram com que o rio transbordasse e subisse pelo menos 8 m acima do nível normal, 2 m somente acima do nível do asfalto. Segundo o Instituto de Meteorologia MG Tempo, o volume de água que caiu chegou a 100 mm entre 18h e 23h de quarta-feira.
Segundo o Corpo de Bombeiros, pelo menos 50 carros foram arrastados. Cinco pessoas foram levadas pela enxurrada. Três corpos foram encontrados e duas pessoas ainda estão desaparecidas. A cabeleireira Rosilene da Silva conta que o salão estava cheio na hora da enchente, e que os clientes precisaram sair correndo para não serem levados pela água.
- Perdi tudo, meu salão está todo acabado, não tenho mais nada. Só de mercadorias o prejuízo deve chegar a R$ 8 mil. Na hora o salão estava cheio de gente, ai começou a chover e de repente quando abri a porta de vidro, já veio a água - recorda.
Nesta manhã a casa e o salão de Rosilene estão vazios. Nas paredes, a marca da água, que atingiu quase 2 m de altura dentro do quarto dos filhos.
- Perdi tudo, televisão, som, geladeira, tudo, tudo, tudo. Nunca vi enchente igual esta. Já houve outras, mas nunca que veio aqui, veio até a avenida, mas aqui mesmo, do jeito que veio, nunca - disse Cristiane de Souza, cunhada de Rosilene, no sofá secando no meio da rua. Ela afirma que não sabe como a família vai recuperar o que foi perdido.
- Na hora só deu para salvar as crianças. Deve-se fazer alguma coisa para ajudar este pessoal. Na hora foi muito rápido, veio água de cima, água de baixo e na hora que o pessoal viu já deu o redemoinho dentro de casa, a água foi subindo, só deu para tirar as crianças e mais nada - conta ela.
Poucos metros acima, um trator da Prefeitura de Belo Horizonte arrastava toneladas de lama, lixo e entulhos que foram trazidos pela enchente. No meio, os móveis da dona de casa Diva Figoreti Braga.
- Foi uma coisa muito feia, a prefeitura tem que tomar alguma providência com este rio aqui, olha a situação da casa da minha filha, perdeu tudo. Só quero, gente, pelo amor de Deus, que vocês ajudem, este rio aqui já fez uma tragédia, não adiantou canalizar o rio, não tem condições, a gente vê os outros descendo na enchente gritando socorro e a gente não poder fazer nada - explica.
Chorando muito, ela ainda mostra, dentro de casa, os estragos. Para salvar os netos, a dona de casa e a sua filha, Daniela Figoreti Braga, quebraram os vidros da porta e da janela do quarto para conseguir tirar as crianças.
- Para entrar na casa tive que quebrar o vidro da porta, porque o sofá prendeu na porta. Começar de novo aqui não dá, porque começar para dar outra enchente e levar de novo, não dá, mas tirar os móveis, ver o que vai salvar, se vai salvar alguma coisa, começar de novo e trabalhar - disse Daniela.
A dona de casa Marilene Luiza Santana Rodrigues também perdeu tudo que conseguiu juntar na vida.
- Perdi tudo, mas o importante foi que eu não perdi nenhum dos meus filhos, estão todos com vida, mas os outros objetos perdi tudo; não deu tempo de colher nada, a água comecou a subir de repente, invadiu a casa para dentro - conta.
