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Os números das eleições vão constituir uma parte - mas não apenas eles - para justificar inevitáveis reflexões a serem confiadas ao pensamento político brasileiro nos próximos meses. Para justificá-las, antes de tudo, os desdobramentos que advirão do pronunciamento das urnas, e o que elas deverão ditar para o novo governo. Conhecido o presidente e os governadores dos principais estados, logo se fará sentir enorme expectativa, embora já fossem mais que suficientes para encher o calendário as articulações partidárias na formação dos ministérios e na ocupação de centenas de cargos de confiança. Uma correria infernal, como sempre.
Virão, em seguida, outros temas de substância a merecer avaliação de setores competentes, começando pelos cientistas políticos, que, enfim, terão diante de si a concretude dos fatos; porque, até agora, muitos se revelaram de difícil previsão. Basta considerar o processo eleitoral deste ano. Quem teria competentes bolas de cristal para prever o destino dos dois líderes na corrida presidencial? Um preso, acusado de corrupção, o outro quase morto na ponta de uma faca intolerante. Por outro lado, como teria sido possível imaginar, com alguma antecedência, que, pela primeira vez na história das eleições recentes, correria totalmente inviável a candidatura indicada pelo partido do governo?
São singularidades que haverão de ocupar atenções dos analisas e das lideranças políticas. Espaço também não faltará, quando começar a baixar a poeira da campanha, para um estudo metódico sobre o colégio eleitoral brasileiro, que trouxe, neste 2018, números e situações interessantes. De imediato, vem antecipada uma curiosidade em relação ao desempenho feminino nas urnas; e, afinal, saber se sua representatividade parlamentar, tão reclamada nos discursos, tem algo a ver com o número de eleitoras; vai se testar se pondera o gênero. No dia 7 próximo, elas terão nas mãos 7,4 milhões de títulos a mais que o eleitorado masculino. Poderiam, se quisessem, revolucionar a composição das casas legislativas. Fariam isso? E por que não fariam?
Por oportuno, haja também disposição para debater e estudar o visível arrefecimento dos jovens eleitores da faixa etária de 16 a 17 anos, contemplados com o direito ao voto facultativo. Diz o Tribunal Superior Eleitoral que ocorreu entre eles uma queda de 14,5%, o que deve ser objeto de preocupação, não apenas pelo que isso representa nos dias atuais, mas porque está a refletir o risco de tal desinteresse projetar-se quando eles forem adultos, chamados a definir os rumos do país. É de se pensar na frustração que isso causaria ao velho senador Afonso Arinos, que lutou para levar às urnas o que ele chamou de “a rapaziada que carrega nossas esperanças”. Conseguiu. Antes do Brasil, só Cuba havia feito tal concessão.
Sobre esses jovens, que se revelam desinteressados, um ponto de partida para analisar seu retraimento está na política que a tradição cuidou de colocar diante deles; política mergulhada em vícios e nos defeitos da obsolescência, sem atrativos nem rumos bem definidos. Está visto que, para levá-los de volta às urnas, não basta que tenham direito para tanto. É preciso mostrar razões.
Com a divulgação dos mapas elaborados pelo TSE é possível que as lideranças também tenham como tema de reflexão os ausentes voluntários, que constituem o robusto colégio das abstenções. Semanas passadas, as previsões assustavam; tornaram-se menos sombrias depois, mas ainda têm tudo para serem objeto de preocupação.
A pauta, vê-se, é extensa; dá o que pensar.



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