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País - Editorial

Candidatos ignoram o mundo

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Sem constituir novidade, ainda que muitos suspeitem da fonte, circula na internet a informação de que algumas embaixadas, notadamente dos países mais influentes, têm acompanhado debates e entrevistas dos candidatos à Presidência da República, sem que até agora fiquem sabendo muito sobre o que pretendiam saber. Mas estão atentas. Surpreendente seria se ignorassem o que pensam e o que dizem os pretendentes a governar um Estado com o qual mantêm relações e interesses. Querem conhecer com que pessoas e regras terão de conviver proximamente. Nada, portanto, que possa escandalizar, a não ser a ausência de propostas consistentes na área que é de sua preocupação.

Fora de dúvida que as representações estrangeiras consideram instigante o fato de a atual campanha revelar-se pobre em abordagens sobre as relações externas do Brasil, muito menos os rumos e o ritmo que esses pretendentes gostariam de imprimir ao Itamaraty, a casa que rege nossas condutas com o mundo externo. Trata-se de matéria em que as chancelarias jejuam; tanto como os próprios eleitores brasileiros. O que até este momento se poderia considerar inovador, sem o rigor da seriedade, foi a insinuação de um dos candidatos de que o Brasil poderia afastar-se das Nações Unidas, como se debandar do concerto da comunidade internacional, com as graves consequências do isolamento, fosse algo que dependesse do suco biliar de um presidente temperamental.

Longe de limitar suas preocupações com os problemas internos, mesmo que sejam numerosos e prioritários, o novo governo terá de considerar uma realidade, que a cada dia se torna mais presente e influente: ao embalo dos crescentes negócios nas exportações, o Planalto desencantou-se de uma palavra mais expressiva no discurso sobre os problemas internacionais. Quando rompe a quietude e o sossego, é para cuidar da importação de descontentes da Venezuela. Claro, as embaixadas perceberam isso e provavelmente já tenham comunicado aos seus governos que o futuro presidente não parece estar motivado a assumir conduta diferente. A menos que surpreendam os pronunciamentos que ainda vão chegar, no pouco tempo que resta à campanha.

A paz, a convivência amistosa, o intercâmbio cultural e cientifico podem engrandecer o papel do país no mundo, e devem constituir a maior entre as premissas. Mas sem ignorar que a atuação no campo diplomático é também a que estreita oportunidades comercias. Esse parece ser um aspecto de singular importância, que está sendo condenado à placidez na atual campanha eleitoral. Os candidatos não falam, nem têm sido perguntados sobre a premência de o Brasil mostrar-se mais ao mundo; o que espera dele e o que pode fazer para torná-lo melhor. Cabe a eles dizer alguma coisa, desde que empenhados em programar a rota do país no futuro.

Se tal reflexão dependesse de outras razões para estimular o discurso político do momento, seria de todo oportuno considerar o que, de há muito, está acordado entre os vizinhos: o papel brasileiro de natural liderança na América do Sul, pedaço do hemisfério que provavelmente não se expresse melhor na política dos povos por faltar a palavra e o comando do líder. Não bastaria, em contradita, argumentar com o Mercosul, que tem inscrito progressos, mas com limitado poder de se expressar na concorrência com os meios da produção fora do continente.

Em se tratando de subir ao palanque internacional, precisamos ser menos discretos.



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