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No vácuo da crise brasileira, chineses e americanos se movimentam

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

Se uma coisa eu aprendi sobre os chineses quando morei por lá, na primeira década do novo milênio, é seu pragmático senso de oportunidade. De lá para cá, morando em Pequim, na China, e em Washington, nos EUA, pude acompanhar como o tabuleiro de interesses internacionais a respeito do Brasil foi mudando com as circunstâncias e os chineses, sempre atentos, crescendo a olhos vistos não apenas no Brasil como na América Latina. Quem acha que a China avançou sobre a região por conta da ascensão de governos de esquerda não está de todo errado, mas enxerga apenas uma ponta do fenômeno, porque a derrocada dos mesmos governos de esquerda na região não significa que a China vá recuar de seu planejado projeto de poder.
Eu não me esqueço que, lá pelos idos de 2010, quando o sonho do trem-bala ligando Rio a São Paulo ainda era um debate fértil, Chang Yunbo, então vice-gerente-geral do poderoso mamute estatal China Communications Construction Company (conhecida como CCCC) desdenhou escancaradamente do projeto, não sem antes afirmar: “Não acredito que uma corporação chinesa vá investir em infraestrutura no Brasil, porque não terá lucro. Pedir que uma empresa chinesa assuma um risco tipicamente governamental é uma grande piada”.
Pois bem. Em março passado, adivinhem quem estava no Brasil para lançar a pedra fundamental do Porto de São Luís, no Maranhão, um investimento de R$ 1,7 bilhão? O próprio Chang Yunbo, agora alçado ao cargo de presidente da CCCC para a América do Sul. Lá, ele anunciou que o porto – que será capaz de movimentar 15 milhões de toneladas, a metade em grãos, em quatro anos – é apenas um dos interesses da estatal, que está de olho também nos editais de privatização de dois trechos de ferrovias ligando o cinturão agrícola do Centro-Oeste a portos no Norte e no Sudeste. “Temos um porto no Norte, agora estamos vendo um no Sul. Uma vez que haja conexão por ferrovia, é uma logística estratégica”, disse ele.
Investir em infraestrutura no Brasil sempre esteve no radar da China, que quer acelerar o transporte da soja brasileira para alimentar sua população ou lucrar com a tecnologia obtida na exploração de petróleo e energia elétrica. O que teria feito Chang mudar de ideia em menos de dez anos? Afinal, a CCCC entrou no Brasil em 2016, ao comprar 80% da construtora Concremat, por R$ 350 milhões, e de lá para cá não parou de crescer. Com certeza o vácuo aberto com a derrocada das construtoras nacionais e com a crise que ceifou os investimentos públicos em infraestrutura. O desprezo do executivo sobre o Brasil não era bem sobre o país, mas sobre o projeto do trem-bala, que não conseguiu seduzir nem as construtoras nacionais, na época nadando em prosperidade, ainda não tocadas pela Lava-Jato.
A crise que transformou o Brasil num local de oportunidades baratas acendeu o alerta chinês, que não é de recusar um bom negócio na bacia das almas. De 2015 a 2017, levantamento das consultorias AT Kearney e Dealogic mostrou que a China comprou 21 empresas brasileiras, gastando um total de US$ 21 bilhões. O país negocia com as Forças Armadas o fornecimento de insumos militares. Em outros países da região, como na Argentina, Venezuela e Chile, a presença da China também cresce.
Na visita do secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, à região no mês passado, houve quem enxergasse esta movimentação chinesa como um bastidor. É possível. Mas o fato é que estado de eterna emergência/decadência latina já não preocupa Washington há muitos anos. O presidente Donald Trump sabe que seu “quintal” é um terreno baldio incapaz de andar com as próprias pernas com economias especializadas em voos de galinha. Trump é apenas o mais recente de uma longa lista de presidentes americanos que pouco se interessam pela região (ou melhor, Trump agora vê tanta ameaça na imigração que pretende construir um muro separando o país do México).
Não se encontram empresas americanas entusiasmadas em comprar ferrovias brasileiras. Quando o investimento americano acontece, ele é privado, cirúrgico e estratégico, como a joint-venture entre a Embraer e a Boeing que resultará numa terceira empresa controlada pela Boeing, obviamente. Ou a expansão de Facebook, Google ou Amazon na região. Tudo é investimento de base tecnológica. Outro nível.



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