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País - Artigo

O museu e as chamas que não se apagam

Jornal do Brasil THELMA LOPES*

Os ventos que sopraram ao fim do último domingo transformaram em cinzas a instituição científica mais antiga do Brasil. O prédio que a abrigava não ruiu por mero capricho da natureza. Seu desvanecimento é fruto do desleixo sistêmico dos governos, e retrato de como cultura, educação, arte e ciência são relegadas em um país, não por acaso, tão desigual. As chamas consumiram legado que jamais será recomposto. Obras artísticas, fósseis modelares, pergaminhos, artefatos ameríndios, coleções arqueológicas e botânicas. Há também o conjunto de significados intangíveis relativos ao acervo como um todo. A edificação, referência arquitetônica e outrora sede da realeza, é mais um patrimônio que se esvaiu. Pouco restou. Alguns, equivocadamente, talvez por serem acostumados ao comportamento de fachada, julgaram que reconstruir o museu se restringiria a restaurar o palácio neoclássico. Entretanto, o que se perdeu vai muito além. É irreparável. Cerca de 20 milhões de itens que contavam séculos de história viraram pó.
As perdas imateriais são imensuráveis. Além das peças, o Museu Nacional possuía capital simbólico ímpar. Situado em um dos maiores parques urbanos do Rio, favorecia a compreensão da ida ao museu como experiência que deve se dar em diálogo com seu entorno. A instituição desempenhava papel essencial na construção da democracia cultural, que, por princípio, visa oferecer opções de lazer e aprendizado de modo equânime. Em uma cidade onde os equipamentos culturais são distribuídos desequilibradamente e se concentram entre o Centro e a Zona Sul, era um dos poucos espaços museais de excelência localizados na Zona Norte. Palco do saber, recebeu ilustres como Marie Curie e Einstein, mas abraçou, com igual hospitalidade, multidões de crianças, estudantes, famílias e populares que adentravam os portões da Quinta da Boa Vista em direção ao prédio majestoso. Por tantos anos...
O incêndio também causou enorme impacto nas ações de educação em diferentes âmbitos. No campo dos estudos de acolhimento ao público e divulgação científica, o MN foi pioneiro. Lá foi implementado o primeiro setor educativo de museu do país. Idealizado por Roquette Pinto, em 1927, foi nomeado “Seção de Assistência ao Ensino”. A principal missão era criar estratégias pedagógicas voltadas para os grupos de visitantes, visando potencializar conexões entre museu, pesquisadores, escola e comunidade. Assim estreitou laços e congregou atores distintos. A tragédia afetou outra área da educação: a pesquisa científica. Estudos acadêmicos em desenvolvimento foram brutalmente interrompidos. Teses e dissertações sobre o rico acervo não mais serão escritas. Atividades de extensão foram caladas, como cursos para estimular a participação feminina na Ciência, ou a abertura da instituição à escola de samba Imperatriz Leopoldinense. No ano do bicentenário, o museu foi tema do samba-enredo da agremiação.
Mas o museu não existe mais. Passará a povoar apenas nossa imaginação. O prédio em chamas é a metáfora do descaso em cadeia, e em múltiplas instâncias. Fios desencapados, teto coberto com material inflamável, infiltrações e preciosidades mal acondicionadas anunciavam o que poderia estar por vir. Providência alguma foi tomada, apesar dos insistentes avisos. E quando o inevitável ocorreu, sequer água havia para debelar o fogo. Não havia água nos hidrantes...
Que país é esse que não se importa em apagar sua história? Onde estão os que abandonaram uma cidade repleta de memórias? E na visão fantasmagórica do palácio incendiado, ao topo da fachada, teimosas estatuetas resistiam em meio à destruição. Seguiam altivas e imponentes. Pétreas em suas certezas. Sábias e íntegras, apesar de chamuscadas. Pairavam sobre as silenciosas ruínas. Do alto da colina, elas parecem dizer aos descendentes de Luzia, mais órfãos e desolados do que nunca: “Apesar de tudo, não desistam. Fiquem firmes. Só o conhecimento pode iluminar tempos tão obscuros, não deixem essa chama se apagar... não deixem...”.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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