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Réquiem para uma nação

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN*, bahadian@jb.com.br

Nesta semana da Independência, o desfile foi de horrores. Nossa cidadania chegou ao hipogeu da desesperança. O Museu Nacional, destruído por incêndio, nos lembrou o parlamento alemão, na véspera da ascensão da Besta ao poder. O povo, desta vez, parece entender a linguagem subliminar dos deuses agourentos do destino. Decifra-me ou devoro-te, propõe a esfinge no meio das cinzas. Caiu a ficha, diz o carioca diante do espelho a mostrar a face distorcida de um Estado em putrefação. “É o choro de viúvas”, arrotou altíssima autoridade do governo, tomando de empréstimo a desafinada lira de Nero. Frase de uma insensibilidade histórica, que desmoraliza a manifestação universal de tristeza e dor diante da morte.

No Tribunal Superior Eleitoral, poucos dias antes, um diálogo, de contida dimensão dramática, coloca dois dos mais nobres juízes de nossa Corte Suprema em campos opostos, em uma decisão sobre a qual parece esfacelar-se a compreensão do Direito das Gentes, pedra de toque de nossa formação territorial na República, salvaguarda de nossa segurança coletiva nas Nações Unidas e orgulho da história diplomática do país. O assunto permanece em aberto, e demos graças que não se feche de forma a se tornar mais um elo na cadeia de funestos eventos que nos aprisionam na rota incontrolável do retrocesso social e político.

Pois, não há dúvida que retrocedemos. Em nome de uma anunciada segurança jurídica, primeiras, segundas e até terceiras instâncias reinventam um direito penal em que o circunstancial se sobrepõe ao fático, a delação à prova. De tal forma se avança nesta senda, que juristas e estadistas internacionais nos sugerem cautela, secundados agora por respeitável órgão das Nações Unidas. E a todas essas ponderações, nosso chanceler, a voz do Estado brasileiro, questiona, com arrogância, a integridade e a honestidade. Tristes tempos em que se confunde arbítrio e soberania.

Em torno dessa missa de sangue e ódio, candidatos presidenciais não se eximem de contribuir ainda mais para semear a discórdia entre o povo que pretendem conduzir, segundo eles próprios, ao tempo da concórdia e da paz. Senhores candidatos, atentem para a semente que semeiam: dela não nascerá o fruto do congraçamento deste povo nobre, talvez ingênuo, mas decididamente nobre, por dar ouvidos a tantas sugestões antinacionais, antipatrióticas, falsamente identificadas com a modernidade democrática, mas tingidas de perversa ideologia da cupidez. A grande maioria dentre os senhores, excelsos candidatos, contratou, por razões que só os senhores sabem, ilustres e conhecidos economistas neoliberais e ainda por cima banqueiros de profissão e de fé. Os planos de governo dos senhores se parecem tanto que poderiam ser intercambiados. Na realidade, todos eles designam o desajuste fiscal como a hidra geradora de nossos males e sugerem reformas que, confessadamente, nos levariam, a pelo menos, mais dois a três anos da mesma penúria e desemprego que grassam nas classes trabalhadora e média.

Não pensem que não valorizo a importância das contas governamentais ajustadas. Não me façam essa torpeza. Apenas discordo que se deva fazer uma reforma trabalhista que promova o desemprego, que se pretenda fazer uma reforma previdenciária que promova a velhice desamparada, uma reforma tributária que fará de tudo, a não ser tornar o imposto de renda menos cavalar para o assalariado e incapaz de reduzir tramoias que fazem o rico contribuir menos que o jardineiro de sua mansão.

Senhores neoliberais, modulem a conversa de que é preciso reduzir o Estado. Vocês querem um Estado associado ao mercado financeiro, onde controles legítimos de entrada e saída de capitais sejam estigmatizados. E as privatizações? Lamento considerá-las, em grande parte, péssimo negócio para o país, mas reconheço que são fonte adicional de lucros para muitos bancos. Falaremos disso no domingo próximo. Finalmente, um lembrete: o povo não morreu no incêndio. Não antecipem o réquiem de uma nação.

* Ex- embaixador do Brasil na Itália 



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