Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

País - Opinião

Os jogos de poder e de negócios na ditadura do Brasil

Jornal do Brasil

O jornal Folha de S. Paulo publica, na coluna de Ricardo Melo, um documento histórico. Um telegrama de 14 de agosto de 1965 enviado pelo então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, para o Departamento de Estado, relatando uma conversa com o dono das Organizações Globo, Roberto Marinho.

"Para: Departamento de Estado 14 de agosto de 1965

Confidencial.

Este é um relato de um encontro extremamente confidencial com Roberto Marinho, publisher do ‘Globo’, sobre os problemas da sucessão presidencial. A proteção da fonte é essencial.

Marinho estava convencido de que a manutenção de Castello Branco como presidente é indispensável para a continuidade das políticas governamentais presentes e para evitar uma crise política desastrosa. Ele tem trabalhado silenciosamente com um grupo incluindo o general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, general Golbery, chefe do Serviço de Informações, Luiz Vianna, chefe da Casa Civil, Paulo Sarazate, uns dos amigos mais íntimos do presidente.

No início de julho, Marinho teve um almoço privado com o presidente. Marinho achou Castello bastante resistente a qualquer forma de continuidade de mandato ou sua reeleição. Marinho também pediu a volta do embaixador Juracy Magalhães para ser o ministro da Justiça. Objetivo: ter Juracy como um possível candidato a sucessor de Castello e melhorar o funcionamento daquele ministério, cujo ocupante, Milton Campos, é extremamente respeitável, mas dócil demais.

No dia 31 de julho, Marinho teve um segundo almoço reservado com o presidente no qual ele insistiu que eleições presidenciais diretas em 1966 sem ter Castello como candidato poderia trazer sérios riscos de retrocessos. Tudo bem pensar em Juracy Magalhães ou Bilac Pinto como sucessores, mas a eleição deles não estava garantida. E a indicação, pelo PTB, do marechal Lott com uma plataforma abertamente antirrevolucionária e com o apoio dos comunistas ilustrava os perigos.

Marinho falou ao presidente que entendia o desejo de Castello de manter a promessa de deixar o poder no começo de 1967, mas se isso fosse feito ao custo de uma volta do Brasil ao passado, Castello estaria violando a confiança que a nação tinha depositado nele. Para Marinho, Castello deveria pesar as alternativas e riscos cuidadosamente. Embora Castello não tivesse indicado explicitamente, Marinho saiu satisfeito no final da conversa. Achou que o presidente não se oporia e mesmo daria sua colaboração a medidas que permitissem sua reeleição, provavelmente na forma de eleição indireta.

Nestas bases, o grupo planejou uma estratégia para transformar a eleição presidencial de 1966 em eleição indireta e viabilizar a candidatura de Castello Branco. Os próximos passos eram ganhar alguns membros chaves do Congresso tais como Pedro Aleixo, Bilac Pinto, Filinto Muller e líderes do PSD. Marinho enfatizou que muitos obstáculos inesperados poderiam surgir nesta estratégia, que com certeza terá a oposição de Lacerda por um lado e de forças antirrevolucionárias por outro lado.

Comentário. As colunas de fofoca política estão cheias de especulações sobre mudanças no regime. Eu considero as informações de Marinho muito mais confiáveis.

Lincoln Gordon.”

Juntamente com este relato, cabe uma observação:

O presidente Castelo Branco, chefe do Golpe de Estado de 1964, tinha um forte laço familiar com Walter Moreira Salles. Sua mulher era tia-avó da mulher de Moreira Salles. A verdadeira razão talvez da truculento Golpe de Estado não tenha nada a ver com o comunismo. Tem sim razões fundamentalmente econômicas, como sempre.

A exportação de café no Brasil representava 60% da balança comercial. Naquele momento, o Instituto Brasileiro de Café (IBC) era dirigido por um grupo nacionalista. O Brasil enfrentava a industrialização do café subsidiando a indústria do café solúvel.

Paralelamente, havia supostas mortes e sequestros de jovens que seriam ligados a movimentos estudantis no campo, ligados às Ligas Camponesas.

O nomeado presidente do IBC não era outro senão o sócio do grupo de Walter Moreira Salles, sr. Julio Avelar.

Pressionado pelos militares nacionalistas, Castelo Branco pediu a Roberto Campos que substituísse Julio Avelar. Roberto Campos e o grupo dos interesses econômicos nomearam outro, supostamente independente. Era do Paraná, o que justificada seu conhecimento no setor do café.

Era funcionário da Caterpillar, empresa de Walter Moreira Salles.

No Ato Institucional nº 5, esses mesmos coronéis exigiam a cassação de Moreira Salles por sua ligação extensa com Juscelino Kubitschek e por ter sido grande financiador da campanha de Getulio Vargas, o que lhe rendeu ser embaixador em Washington e o único no mundo a ter concessão de mina de nióbio - um metal raro no mundo, mas abundante no Brasil, considerado fundamental para a indústria de alta tecnologia e até no setor nuclear.

Referente a esta carta que circula hoje na imprensa, a sociedade civil brasileira defendia Juracy Magalhães para presidente. Ele foi esmagado na convenção para disputar o apoio da UDN, num movimento comandado por Carlos Lacerda em apoio a Jânio Quadros.

Juracy ficou conhecido pela célebre frase: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil."

O fato de Carlos Lacerda ter desapropriado o Parque Lage, na Zona Sul do Rio, serviu também para aumentar a ira dos militares. Daí começou uma campanha violenta levando-o a ser cassado supostamente por pertencer à Frente Ampla, com João Goulart e Juscelino Kubitschek.

Tags: ditadura, golpe, jardim botanico, regime, Rio

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