Jornal do Brasil

Sábado, 27 de Dezembro de 2014

País - Opinião

Quem são os Judas do Brasil

Jornal do Brasil

Neste sábado de Aleluia, véspera da ressurreição de Cristo, acontece a tradicional Malhação de Judas, representando a morte de Judas Iscariotes, o traidor. Na transposição para os dias de hoje, Judas é encarnado pelas mais variadas personalidades. Personalidades que são vistas pelo povo como o inimigo comum - ou o traidor com o mandato que o povo conferiu -, o vilão da sociedade, aquele que não merece voto de confiança, aquele em que o cidadão descarrega toda a sua indignação e sua revolta.

A Bíblia conta como o diabo, corruptor, corrompeu Adão e Eva com a maçã. Desde o início dos tempos, o corruptor sempre foi o diabo.

No mundo político brasileiro, não faltam personagens que se encaixam neste perfil. Ao longo da história, há uma quantidade incontável de exemplos que mancham a trajetória do país e explicam o por quê de tanta revolta nos dias de hoje.

A associação entre dinheiro e poder tem inúmeros maus exemplos aqui. Empresários, empreiteiras, políticos e verba pública se misturam numa relação promíscua e nociva para o país.

Na década de 1940, Walter Moreira Salles financiou a campanha de Getúlio Vargas e, depois, pediu para ser embaixador em Washington. Tinha um pequeno banco em Araxá. Ao voltar, se transformou num grande banqueiro e ganhou o privilégio de explorar o nióbio - um metal raro no mundo, mas abundante no Brasil, considerado fundamental para a indústria de alta tecnologia e até no setor nuclear.

Já nos tempos de Juscelino Kubitschek, o empresário Sebastião Paes de Almeida foi nomeado ministro da Fazenda e viu seu nome envolvido em diversas suspeitas. Conhecido como 'homem de vidro', chegou a ser denunciado, mas as acusações acabaram arquivadas.

Na construção de Brasília, a Novacap, que tinha como presidente Israel Pinheiro - empresa que comandou todo o planejamento e execução da nova capital do país - também se viu envolvida em escândalos que sangraram os cofres públicos. As denúncias daquela época ganharam até ares de ironia, com o compositor Juca Chaves lançando marchinhas nas quais atacava JK:

"Depois desfrutar da maravilha / De ser o presidente do Brasil,  Voar da Velhacap pra Brasília, Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.

Voar, voar, voar, voar, / Voar, voar pra bem distante, a /Té Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas / Dançam como debutante, interessante!

Mandar parente a jato pro dentista, / Almoçar com tenista campeão, / Também poder ser um bom artista exclusivista / Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão."

Em seguida veio Jânio Quadros, que com sua vassoura dizia combater a corrupção. Mas ele também sofreu inúmeros acusações de Carlos Lacerda, que denunciava mais escândalos no país. Acabou renunciando para que João Goulart assumisse a presidência.

Os escândalos continuavam. O jornalista Hélio Fernandes, da Tribuna da Imprensa, fazia ataques diários, denunciando corrupção no país.

Castelo Branco assume, a ditadura se instala, e a corrução continua. Nos anos que se seguiram, vieram a Transamazônica, a Capemi, caso Delfin, escândalos envolvendo empreiteiras, como a Mendes Júnior, de Murilo Mendes, e a Andrade Gutierrez.

Houve ainda o caso Sunamam, no final do governo Figueiredo, quando foram descobertos indícios de irregularidades nos repasses de recursos da antiga Superintendência Nacional da Marinha Mercante para os estaleiros. Na ocasião, ficou célebre a expressão "navios de papel". O caso do Grupo Lume também ficou conhecido na época, envolvendo a exploração de potássio em Sergipe.

Na abertura política, José Sarney toma posse, mas as mudanças no regime não representaram mudanças na ética do Poder Público. Inflação galopante aniquilava o poder aquisitivo dos cidadãos. Planos econômicos se sucediam sem qualquer resultado prático. E os escândalos continuavam. Sarney foi personagem, entre outros, da CPI da Corrupção e do caso da Ferrovia Norte-Sul (que ligaria Maranhão a Brasília) - um jogo de cartas marcadas entre empreiteiras denunciado pelo jornalista Jânio de Freitas.

Houve anda a rumorosa Operação Patrícia, que se tornou uma das maiores manchas na história do Instituto Brasileiro de Café (IBC). O objetivo era tentar forçar a alta da cotação do café no mercado internacional, que, à época, registrava preço inferior ao fixado no mercado interno. O IBC deveria pagar as empresas em 90 dias, mas só quitou 5% da dívida. O caso acabou na Justiça.

A chegada de Fernando Collor só aumentou a rede de escândalos e corrupção. A mais contundente delas feita pelo motorista Eriberto França, que confirmou aos parlamentares que a empresa Brasil-Jet, do tesoureiro PC Farias, pagava as contas da Casa da Dinda, residência do presidente.

O caçador de marajás sofreu impeachment após uma série de denúncias envolvendo também seu tesoureiro, PC Farias, que teria comemorado o primeiro bilhão de dólares arrecadado pelo esquema numa grande festa num sofisticado hotel em Nova York. Diga-se de passagem, o ex-ministro do governo de Collor, Pedro Paulo Leoni Ramos, está hoje envolvido no caso da Operação Lava Jato: documentos apreendidos pela Polícia Federal mostram que a Investminas, empresa controlada por Leoni, fez um pagamento de R$ 4,3 milhões para a consultoria MO, que seria uma espécie de central de distribuição de valores para políticos ligada ao doleiro Alberto Youssef.

Aliás, no emaranhado envolvendo corrupção e poder público, é comum vermos nomes se repetindo, tanto de políticos quanto de empresas. Nos anos 1990, novos escândalos envolvendo a Andrade Gutierrez vieram à tona, desta vez na construção da nova sede da Eletropaulo, no governo de Luiz Antonio Fleury Filho, sucessor de Orestes Quércia. Isso porque não estamos abordando a série de privilégios que o Ministério da Fazenda dava à empreiteira.

Chega o governo Fernando Henrique Cardoso, e mais casos abalam as estruturas do poder. As privatizações foram a tônica do governo, em negociações nebulosas alvo de denúncias e especulações. 

A Companhia Vale do Rio Doce - vendida por R$ 9 bilhões e que, hoje, vale US$ 100 bilhões -, a Telebrás - monopólio estatal de telecomunicações - e a Eletropaulo foram gigantes que passaram para o setor privado.

No Estado do Rio de Janeiro, as duas maiores distribuidoras de energia foram privatizadas em 1996. A primeira foi a Light, arrematada sem ágio por US$ 2,26 bilhões por um consórcio formado por Cemig, Andrade Gutierrez, Pactual e posteriormente pela EDF, Houston Industries Energy, AES e CSN. A ação da Light, na ocasião, valia R$ 9, e hoje, vale R$ 20. Já a Cerj, que atende à população do interior do estado, foi vendida por R$ 605 milhões, com um ágio de 30,3% pago pelo consórcio chileno Chilectra.

E como não lembrar dos escândalos envolvendo bancos. Um dos mais notórios foi o do Banco Econômico, de Ângelo Calmon de Sá, e os famosos cheques sem fundo. E ainda do Banco Marka que, endividado, acabou favorecido pelo Banco Central. Aliás, vem daí também o polêmico Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional), de FHC, que promovia socorro aos bancos com dinheiro público. Bancos... sempre os bancos.

Em 2000, a Petrobras tentou mudar seu nome comercial para PetroBrax. Segundo o então presidente da companhia, Henri Philippe Reichstul, o objetivo seria unificar a marca e facilitar o seu processo de internacionalização - quem sabe abrir o caminho para mais uma privatização. A mudança teve péssima repercussão e foi descartada após forte pressão. 

Ainda no governo FHC, o escândalo do grampo do BNDES sacudiu os alicerces do país. Aconteceu justamente no período anterior à privatização do Sistema Telebrás, na fase de habilitação dos consórcios participantes para o leilão. A denúncia resultou nas quedas do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, do presidente do BNDES, André Lara Resende, e parte da cúpula do Banco do Brasil e da Previ (Fundo de Previdência dos Funcionário do Banco do Brasil).

Como se não bastasse, ainda houve o caso dos anões do orçamento, no qual um grupo de congressistas fraudou recursos do Orçamento da União até serem descobertos e investigados, em 1993. Estimativas dão conta de que os envolvidos roubaram mais de R$ 100 milhões dos cofres públicos.

Em 2009, uma operação da PF, batizada de Castelo de Areia, trouxe à tona novamente caso envolvendo políticos e empreiteiras. Deste vez era a Camargo Correia e mais de 200 políticos dos mais variados partidos relacionados com supostos crimes financeiros, lavagem de dinheiro, superfaturamento de contratos, fraudes em concorrências e pagamento de propinas.

Governos mudam, décadas se passam, mas muitos personagens continuam os mesmos e, principalmente, muitas práticas se repetem, em jogos de interesses, favores e favorecimentos, negociatas e parcerias, onde empreiteiras, empresários e políticos seguem mantendo seus feudos e se agarrando ao poder, tudo financiado pelos cofres públicos.

Muitos corruptos já foram presos. E os corruptores, quando vão ser? O Brasil não será um país do futuro... da dignidade, enquanto os corruptores estiverem atuando como empresários... ou como Judas do Brasil.

Tags: brasil, história, judas, política, sábado

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