Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

País - Opinião

Volatilidade Cambial - por Carlos Thadeu de Freitas Gomes

Jornal do BrasilCarlos Thadeu de Freitas Gomes*

Saída de dólares, fuga de capitais e volatilidade cambial são temas que tem sido vistos com alguma frequência na mídia. No entanto, o tema ainda é pouco explorado em trabalhos nacionais. A importância dessas discussões se tornou mais evidente devido às turbulências vividas no ano de 2013, em que o banco central americano teve uma condução de política monetária bastante indefinida ao longo do ano. O assunto foi também reforçado devido à situação de piora pronunciada no déficit em transações correntes, o mais elevado registrado nos últimos dez anos.

Esse cenário trouxe de volta uma preocupação antiga no debate macroeconômico brasileiro, a vulnerabilidade externa. Essa questão não é particularmente nacional, é pertinente a qualquer país que não seja emissor de moeda conversível internacionalmente. Esses países constantemente necessitam de uma moeda que tenha essa propriedade para realizar transações internacionais e estão mais sujeitos às variações dos preços dessas moedas, principalmente do dólar.

Há sinais de que o país esteja no fim de um período que ajudou a sustentar o crescimento da atividade por quase uma década. Após a crise de 1998-199, o país acumulou saldos positivos em conta corrente devido ao favorável desempenho comercial.  Houve também aumento do fluxo de capitais estrangeiros e ao final de 2007 as reservas internacionais chegavam a aproximadamente 12% do PIB. A partir daí, o saldo começou a apresentar déficit. Nesse período, a crise financeira de 2008 estava em seu auge e por isso a interpretação direta foi de que essa piora era relacionada com essa conjuntura mais desfavorável. Além disso, os fluxos de capitais para o país continuaram elevados e no final de 2012 as reservas internacionais já chegavam a 16% do PIB. No início de 2013, houve uma queda nas expectativas devido ao saldo desfavorável da balança comercial, afetado principalmente pelo problema na conta de petróleo e derivados. A situação tornou-se mais complicada quando o Federal Reserve divulgou em maio de 2013 que iniciaria os estímulos ainda naquele ano. A resultante foi um ajuste no fluxo de capitais, provocando desvalorização nas moedas emergentes.

A melhoria mais rápida nos dados da economia americana traz maior fragilidade para os emergentes, já que fortalecem as perspectivas de deslocamento dos capitais estrangeiros. Caso a redução do programa de estimulo monetário do Fed ocorra em ritmo mais rápido do que o esperado configurará mais um fator negativo para esses países.

No ano passado, a fim de contornar a percepção de incerteza associada aos efeitos da possível mudança na política monetária americana, o Banco Central do Brasil colocou em prática um programa de oferta de proteção cambial, ou seja, disponibilizou hedges para eventual proteção contra oscilações monetárias. Manter o câmbio “sob controle” é custoso para o governo. Apesar de não ter impacto direto sobre os gastos públicos e preservar temporariamente as reservas cambiais, a emissão de swaps aumenta a parcela da dívida interna indexada à moeda estrangeira, influenciando o endividamento público. Em fevereiro corrente, a participação do dólar na dívida pública interna registrou o maior percentual desde janeiro de 2005 (10,47%).

Na última semana de janeiro, o BCB divulgou os dados do setor externo do ano passado. O déficit em transações correntes atingiu 3,66% do PIB. A projeção do BC para esse ano do déficit em transações correntes é de US$78bi e espera-se que com a piora não esperada na balança comercial (déficit $ 6 bilhões em janeiro e fevereiro) ultrapasse os US$81bi do ano passado. Em todo caso, o Brasil tem uma situação diferenciada em relação às reservas em moeda estrangeira, enquanto o Brasil possui 18 meses de solvência, a Argentina tem apenas quatro meses.

A partir dessas considerações, é possível concluir que tendência do preço do dólar no Brasil é de apreciação moderada, alavancada pelos elementos internos e pelas altas taxas de juros nos Estados Unidos.

*Carlos Thadeu de Freitas Gomes é economista chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central.

Tags: apreciação, dívida, impacto, MOEDA, Reservas

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