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Segunda-feira, 23 de Abril de 2018 Fundado em 1891
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As obras e promessas que ficaram no papel

Jornal do Brasil Davison Coutinho*

A promessa era deslumbrante, um investimento milionário para ser investido em obras em toda a Rocinha: abertura e revitalização de ruas, construção de uma creche modelo, plano inclinado para atender aos moradores das partes altas, urbanização do maior valão da Rocinha, construção de mais unidades habitacionais no local e instalação de um mercado popular. Além de um grande sonho dos moradores: a construção de um hospital para atender a comunidade.

Davison Coutinho

Os recursos foram liberados pelo governo federal, mas a execução das obras a cargo do governo estadual ficaram no meio do caminho. Como acreditar no PAC 2, se o PAC 1 ficou incompleto? Essa é a grande preocupação dos moradores da Rocinha, que recebem o projeto do PAC 2 enquanto o PAC 1 ainda não foi concluído.

Muitas dessas propostas ficaram apenas nas lindas plantas e maquetes que encantaram os moradores que confiaram, uma vez mais, nas bonitas e ensaiadas palavras do governo do estado. No entanto boa parte da obras, previstas para o Programa de Aceleração do Desenvolvimento (PAC1), não foram finalizadas e outras nem ao menos foram iniciadas. O cenário é de obras inacabadas e muitas desculpas sobre orçamento por parte do governo do estado.

Desde 2010 a comunidade ficou com construções abandonadas e outros projetos nem foram iniciados: a creche modelo foi abandonada se tornando estacionamento ilegal e moradia; do plano inclinado restou o esqueleto que serve para acúmulo de lixo; no largo do boiadeiro, local tradicional da Rocinha, não foi gasto nem um prego; já o hospital prometido, se tornou uma Unidade de Pronto Atendimento, construída com ferros e apelidada pelos moradores como “lata velha”.

Passaram-se os anos e nada mais foi resolvido, reclamações e denúncias ao Ministério Público foram feitas, de nada adiantaram. Até que em julho de 2013, vale ressaltar que se trata de ano que antecede as eleições, e vamos ouvir mais uma vez a mesma ladainha, apresentando um novo vídeo, deslumbrante, que mostrava uma Rocinha transformada. Entretanto, os moradores já não são facilmente enganados com uma apresentação, já sabemos que metade do que é dito não sai do papel, e por isso não ficamos satisfeitos, já conhecemos o histórico de nosso governo.

O que nos revolta é saber que em pleno século XXI a Rocinha e várias outras comunidades ainda não tem o direito básico: saneamento básico, por isso a favela desceu para reivindicar seus direitos. Mostramos que a comunidade tem educação, realizamos todo o percurso sem quebrar nem uma lixeira, e sem deixar nem um lixo no chão, o que surpreendeu a população dos bairros nobres ao nosso redor que temiam a manifestação. Nas faixas as reivindicações eram as mesmas de muitos anos atrás: exigir saneamento básico, saúde, educação de qualidade, transporte, conclusão das obras do PAC 1 e não ao teleférico.

A atenção foi tomada, após a manifestação, o governador recebeu um grupo de moradores representando a Rocinha, acordos foram feitos e prazos foram dados, a creche modelo que ficou prevista para final de novembro do ano em curso ainda está longe de ficar pronta, a revitalização do boiadeiro ainda não foi iniciada, já pode se perceber que não estará pronta no prazo previsto de março de 2014, a rede de esgotos do valão, prevista para 2014 também ainda não foi iniciada.

Será que poderemos confiar em mais um PAC, será que novamente seremos abandonados com obras inacabadas? Precisamos ser ouvidos! Precisamos informar e exigir as nossas prioridades. Afinal fica a dúvida, para que uma passarela assinada por Niemeyer, em uma comunidade onde pessoas convivem em meio ao lixo e ratos?

*Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando em desenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio. 



Tags: Governador, Obras, conclusão, manifestação, moradores, promessas

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