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Coluna Mídia Comunidade - Elefante branco, não!

Jornal do BrasilDavison Coutinho

A Rocinha, que se destaca por ser a maior favela da América Latina, possui cerca de 200 mil moradores que convivem diariamente com um grave problema, o saneamento. O esgoto invade as casas que são em sua maioria próximas ou sobre valas sem tratamento e canalização. Todo esse esgoto é despejado na praia de São Conrado. Muitas das casas da Rocinha são verdadeiros cubículos, que sequer tem uma janela, o que revela a alta taxa de tuberculose nos moradores, e muitas famílias vivem em situação de extrema miséria.

A nossa grande batalha nos últimos meses é de ser contra a instalação de um Teleférico previsto no PAC2, por nós apelidado como “elefante branco”. A ideia é do governador, que já está mais que comprovado que tem ações catastróficas em relação a transporte, tendo em vista a situação atual do transporte público na cidade. Não é de se surpreender que tamanha ideia venha de alguém percorre a cidade voando pelos altos.

Nossas necessidades mais urgentes são os motivos para sermos contra a construção do teleférico, que é notavelmente de viés turístico. Todo esse investimento de 700 milhões daria para construir o plano inclinado, que estava previsto no plano diretor da Rocinha e para resolver a maior prioridade que é o saneamento básico.

Moradores da Rocinha convivem com a falta de saneamento, entre outros problemas
Moradores da Rocinha convivem com a falta de saneamento, entre outros problemas

Problemas como esse poderiam ter sido evitados se os moradores fossem ouvidos e participassem na elaboração dos projetos. Esse é mais um grave problema do governo que quer chegar nas comunidade com pacotes prontos, achando que nós moradores, devemos aceitar e aplaudir. Eles precisam lembrar que somente nós sabemos o que é melhor para nos atender, pois somos nós que enfrentamos as dificuldades de se viver em um local abandonado pelo poder público.

Buscando um respaldo técnico para validar a opinião dos moradores ao teleférico, o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, realizou através do Fórum de Mobilidade Urbana um debate sobre o teleférico na Rocinha, participaram lideranças comunitárias arquitetos e engenheiros que foram categóricos e afirmaram que essa construção, não é prioridade para Rocinha que nesse momento precisa é de saneamento básico.  

O Grupo Rocinha sem fronteiras, militante na comunidade há muitos anos, aponta 5 motivos para não serem a favor do “telefante”: 1. Não é prioridade para Rocinha, que precisa de saneamento. 2. É invasivo, para sua construção cerca de 4 mil moradores perderão suas casas. 3. Não é útil pois não atende aos deficientes e idosos e não transporta material. 4. É tecnicamente inadequado, planos inclinados são a melhor solução e por fim 5. Tem altos custos de construção e manutenção.?

Concluo que após a avaliação do Clube de Engenharia e opinião de todos nós moradores, já ficou claro, inclusive para o governo, que vai ser lastimável construir esse elefante branco sobre nossas cabeças. Como vimos a Rocinha tem prioridades básicas. Tenho minha sugestão, por que não investir boa parte desse dinheiro na educação e formação dos nossos jovens, oriundos dessa comunidade sem oportunidades que já foi caracterizada pelo governador como verdadeira fábrica de marginais. 

Vale lembrar que muitos desses jovens se desviam para caminhos errados pela falta de oportunidades e não porque querem, mas porque não tem escolha. Posso afirmar que com investimento na educação nossa realidade será totalmente diferente nos próximos anos e será cada vez mais possível notar que a Rocinha é uma fábrica sim, mas é fábrica de guerreiros e trabalhadores que enfrentam as mais diversas dificuldades para conseguir um espaço na sociedade e mesmo com todas essas dificuldades acordam com um sorriso no rosto e a esperança nos olhos de um futuro melhor. 

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* Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando em desenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.

Tags: dificuldades, fábrica, lembrar, moradores, saneamento

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