Jornal do Brasil

Quarta-feira, 18 de Julho de 2018 Fundado em 1891
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Mídia Comunidade - O PAC nosso de cada dia

Nova coluna do 'JB' mostra a reza comum dos moradores da Rocinha nas mãos do governo do Rio

Jornal do Brasil Davison Coutinho *

É cada vez mais notável que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vem fazendo um trabalho inverso e sem a participação dos moradores na definição de prioridades que estes querem para suas comunidades.

No caso da Rocinha, o PAC 1, cuja execução está a cargo do governo do estado, era um projeto desejado por todas as famílias de moradores, que pretendiam ver uma comunidade melhor, com moradias dignas, hospital de qualidade, educação com comprometimento, saneamento, revitalização entre outras.

Para os moradores que precisavam ser realocados de suas casas, a promessa era maravilhosa, morar longe de esgoto, ratos, em um lugar seguro. Os beneficiários receberam um apartamento, lindo, colorido e com a promessa de um final feliz. Mas o conto de fadas tem virado um pesadelo, com apenas três anos da construção, é percebível o descaso das autoridades do estado, responsáveis pelas obras, com o local que foi entregue aos moradores sem nenhuma gestão posterior ou acompanhamento da construtora, que deveria cuidar dos imóveis em um período de 5 anos.

Acontece que há quase dois meses, os esgotos estão todos transbordando, colocando no chão a promessa de não se viver mais com esgoto a céu aberto. A pracinha, que gerou tanta felicidade no rostinho das crianças, já não causa mais tanta alegria, pois hoje se transformou em um espaço nojento, sujo, com restos de brinquedos de péssima escolha e qualidade para local público, que já estão todos quebrados, restando apenas alguns pneus no chão, que não conheço outra finalidade, se não de propagar a dengue. Além de um gramado sintético instalado “para inglês ver”, que acumula lixo e bactérias. Bastava qualquer leigo de engenharia para saber que o gramado e os brinquedos iriam estragar rapidamente.

A atual situação do complexo habitacional é de extrema decadência, por falta de manutenção e preservação da construtora, de maior emergência é a situação do esgoto que está entupido e invadindo os apartamentos do térreo, onde residem as pessoas com deficiências e necessidades especiais, que já não podem mais usar seus banheiros. A outra grande emergência é a falta de água, a CEDAE cortou a liberação do recurso para os apartamentos devido a uma conta com valor absurdo que está sendo cobrada de cerca de 60 mil reais em nome de “obra do PAC”, que seria impossível ser rateada pelos moradores, tendo em vista as dificuldades financeiras de cada um. As contas de luz dos moradores já não vêm mais sendo pagas devido a um aumento absurdo que eram entre 40 e 50 reais e passaram a cerca de 250,00 sem nenhuma explicação e sem valer o direito da tarifa social.

Sem falar no lixo que é espalhado por todo espaço, que é apenas limpo pelos moradores, já que a Comlurb não faz a limpeza do espaço, que é público.

Procurada pelos moradores a coordenadora do PAC, da empresa de obras públicas EMOP esteve no local, já chegando com a seguinte resposta para os problemas de mais de 144 famílias que aguardavam uma solução, “só tenho 10 minutos para vocês, pois tenho outra reunião, por favor, sejam breves” e com a mesma rapidez que entrou, saiu, deixando todos indignados e cientes que nada seria feito. A mesma atribuiu à responsabilidade a prefeitura que por sua vez empurrou o problema para o governo.

Enquanto isso, os moradores convivem com esgoto a céu aberto, sem poder usar os banheiros, falta de água, vazamento de gás, lixo, entre outros diversos problemas que poderiam ser resolvidos facilmente, mas infelizmente falta interesse das autoridades de nossa “cidade maravilhosa”.

Os problemas da Rocinha e de quase todas as comunidades são de necessidades básicas, as reinvindicações são mínimas, os moradores não estão reivindicando nada mirabolante como um panorâmico teleférico que só atende os interesses dos turistas. A luta é por melhorias no saneamento, lixo, melhoria na educação, qualidade no transporte.

É triste andar pelas vielas da Rocinha e outras comunidades, locais onde o PAC sequer deu uma mão de tinta e ver moradias que são verdadeiros barracos, com 1,5 metro de altura, sem ventilação, onde as crianças estão sujeitas a diversas doenças, e onde hoje é o foco da tuberculose.

Esses e vários outros problemas seriam facilmente resolvidos, por exemplo, com os cerca de 18 bilhões de reais sonegados pelo banco Itaú, essa grana toda seria mais que suficiente para melhorar a vida dos cerca de 200.000 moradores da Rocinha, e de muitas outras comunidades, tendo em vista que o orçamento para do PAC 2 para a Rocinha é de 1,6 bilhões de reais.

>> Coluna “Mídia Comunidade” começa neste domingo

* Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando em desenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.



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