Sem pauta | Diamantes, arte e vida
Um dos mais famosos contos de Maupassant, O colar, narra a tragédia de uma mulher de classe média que, convidada a um baile oficial, pede à amiga um colar de diamantes emprestado, e o perde. Desesperados, ela e o marido, recém-casados, procuram a joia por todo lado em casa e na rua; prometem generosa gratificação a quem o achar — e nada. Dão uma desculpa à amiga, de que o fecho se rompera e que haviam mandado repará-lo. Gastam uma pequena herança do marido e tomam dinheiro emprestado onde o encontram, para comprar outro colar, mais ou menos parecido. Devolvem o estojo da joia emprestada, com a substituta. A amiga nem mesmo o abre e o guarda em uma gaveta.
Também a mulher, jovem e bela, tem que trabalhar duramente. Mudam-se para um cortiço. Viveram na miséria durante dez anos, até que saldaram a última dívida, com todos os juros, mas já estavam acabados pelo sofrimento. Logo depois disso, as duas amigas se encontram por acaso. A dona da joia continuava jovem e bela, e se espanta com a face castigada da outra.
E a pobre mulher conta sua história: a perda do colar, a compra do outro, a vida dura para honrar os empréstimos e, enfim, o orgulho de ter superado toda aquela desgraça. A outra, então, lhe diz, compungida, que o colar que lhe emprestara era falso, e valia, quando muito, 500 francos.
Como todas as situações humanas têm o seu avesso, e, conforme o lugar comum, a vida imita a arte, conheço história terrível que envolve diamantes, amores, perda e sofrimentos. Dois lapidários de Belo Horizonte, amigos e companheiros, resolveram montar pequena lapidação de diamantes. Como não tivessem cofre, um deles guardava os diamantes brutos, embrulhados em pequeno envelope em sua carteira.
Quando, em certa manhã, foram reiniciar a lapidação da primeira pedra, A. não encontrou as gemas em sua carteira. Repetiu-se o mesmo drama dos personagens de Maupassant. Procuraram por toda parte. Destelharam o barracão em que o mais velho vivia, com a mulher e dois filhos e, em cujos fundos funcionava a pequena lapidação. Esgotaram a fossa de que se serviam e peneiraram tudo, chegando a cavar parte das paredes do buraco e de seu fundo, e nada dos diamantes.
O dono das pedras deu queixa à polícia, os dois foram detidos e torturados, e, depois de dias, soltos, arrebentados. Enfim, entraram em acordo com o dono das pedras, tomaram dinheiro emprestado dos familiares e amigos, indenizaram seu cliente — e passaram uns cinco ou seis anos trabalhando dia e noite, como empregados para outros lapidários, porque ninguém mais lhes confiava suas pedras.
Certo domingo, um time de futebol de várzea foi jogar em outro bairro. Como é comum nessas ocasiões, Adão, o dirigente do clube visitado, ofereceu aos visitantes um café em sua casa modesta. Ao saber que um deles era lapidário, disse-lhe que havia achado umas pedras, e queria saber se eram vidro ou se valiam alguma coisa. Foi ao seu quarto e, de dentro de velha mala de papelão, retirou o envelope. Quando o visitante viu as pedras, segurou-as, contou-lhe o drama dos dois lapidários, que eram seus amigos — e cujo problema era conhecido da comunidade profissional. O anfitrião explicou que, empregado de uma farmácia, encontrara o envelope com as pedras, do lado de fora de uma das janelas, quando a abrira pela manhã.
Na mesma tarde de domingo, Adão, ainda empregado na mesma farmácia, acompanhou o lapidário à casa de um deles e lhe devolveu as pedras — que valiam meio milhão, imensa soma para a época, equivalente a cinco anos de meu salário de repórter. O lapidário se lembrou então de que tivera um encontro com namorada de ocasião. Encostados à parede da farmácia, debaixo de uma janela, ele lhe mostrara as pedras, enquanto conversavam.
Só muito depois de ter redigido reportagem sobre o assunto, li o texto de Maupassant. A vida imita a arte, mas nunca com o talento dos grandes escritores.
