Estou numa fase de não parar um segundo: é a obra do vizinho que afeta a minha casa e o quarteirão, o barulho insuportável do edifício de treze andares sendo construído, as conversas com a advogada por telefone e e-mail, as concessões que preciso da Prefeitura. Vou a Santa Teresa, Centro, Laranjeiras, Copacabana, meu gato que resolveu ter um troço agora, de velhice, o telefone fixo que pifou e tive de trocá-lo, também no Centro, é a empregada que sumiu, meus netos que ficam às vezes comigo, o dinheiro que atrasa. Enfim, eu deixo pra descansar na acupuntura, que faço aqui perto, em Botafogo, num lugar calmo, onde fico deitada de bruços recebendo agulhadas do bem nos lugares machucados da minha coluna. Um refresco que eu me dou antes de ir ao supermercado, ou antes de buscar os meninos no colégio.
Então estava eu, lá, posta em sossego, de bruços, sem tomar conhecimento do que se passava ao redor, quando o celular toca. Faço uma acrobacia para pegá-lo na mesinha aos meus pés, com medo de deslocar as agulhas das minhas costas, até que consigo pegá-lo de jeito, graças a Deus. Era uma notícia muito agradável do Joaquim Ferreira dos Santos querendo fazer uma entrevista comigo sobre o Rubem Braga antes de eu falar sobre ele na Casa da Gávea, no fim do mês
Ouvindo-me murmurar "ais" e "uis", por causa das posições que tentava descobrir pra não me machucar, perguntou se eu estava ocupada e se podia ligar depois. Respondi que não, que aquela era a única hora livre que eu tinha e não contei nada sobre as agulhas, se não ele desligaria e nunca mais ia poder falar comigo.
"Ai!" Começava sempre a resposta com um grito meio abafado até me ajeitar melhor numa possível posição. "Ai!" Continuava eu. “Ele dava muita força pra mim! Dizia que eu era o Rubem Braga de saia. Ai! Ui!”
Não sei o que terá pensado o Joaquim, talvez que eu estivesse sendo torturada. E de uma certa forma estava.
- Nunca te paquerou?, perguntou o entrevistador.
-Ai...! Nunca! Era só amizade que começou através das minhas crônicas.
Encontrava com ele, por acaso, no Antonio's Restaurante, no Country Club, talvez uma única vez, e mesmo na casa dele, levada por outras pessoas amigas, no meio de um jardim incrível e uma horta cheia de frutas, alám de ficar na mesa com o dono da casa, o Vinícius de Moraes e o Fernando Sabino. Um papo inacreditável e maravilhoso que se tinha de vez em quando.
Todos esses "ais" e e "uis" eu dizia tapando a boca de vergonha, escondendo a dor pra não envergonhar meu amigo entrevistador.
Então, numa das vezes que o Rubem me ligou pra falar sobre a última crônica e dizer que eu era o Rubem Braga de saia, meu namorado, ciumento, me respondeu:
- Não sei por que. Nunca te vi de saia, só de jeans...
Que saudade tenho das crônicas do Rubem, dos nossos encontros ocasionais. Tínhamos um humor parecido e adorei falar sobre ele, não fosse os "ais" e "uis" que não combinavam com a gente. Desculpe, Joaquim!