Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Infância, esta prisão perpétua

Jornal do BrasilMaria Lúcia Dhal

Ontem, fui com meu companheiro  assistir ao filme O Quarteto, dirigido por Dustin Hoffman .

A pessoa mais moça que entrou na sala, onde esperávamos  sentados para começar o filme, devia ter uns setenta anos. A fita se passa num asilo de idosos e a maior parte dos internos eram cantores de ópera. Uma espécie de Casa dos Artistas, aqui no Rio, só que, de uma riqueza tão exuberante, que fiquei  pensando na diferença de dinheiro dos artistas de lá e de cá.

A Casa dos Artistas é mantida com doações, e os atores vão pra lá  quando não têm mais trabalho nem dinheiro. Isso acontece por que, aqui, artista ganha muito pouco, seja ele, músico, ator, pintor, compositor, etc, além da sua profissão depender da patota à qual ele pertence. Nos Estados Unidos os artistas ficam milionários e podem alugar quartos caríssimos quando aposentados. Usam o dinheiro de sua aposentadoria e o que guardaram, aplicando-o quando eram jovens. Assim, se você é um velho bem sucedido, pode ir pra onde quiser e escapar da solidão, reencontrando os amigos e colegas num lugar majestoso onde continuam sendo super-stars, e se reúnem em grupos para montar uma ópera no asilo, da qual participaram em enormes teatros quando eram jovens. Isso é maravilhoso pra se sentirem fazendo parte da vida, em vez de cada um ficar em casa sozinho, fazendo o seu monólogo, cheio de queixas e desabafos depressivos. 

O filme é interessante, mas tem poucos ganchos, que poderiam ser bastante usados em cada episódio. E, exatamente na hora em que acontece uma cena diferente, quando o ex-marido, cantor, se reencontra com a ex-mulher, também cantora , depois de ter passado uns cinquenta anos sem vê-la , e ainda sofrendo pela separação, quando ela o largou por outro, e ele fica na dúvida se se aproxima e fala com ela, ou não, o celular do meu companheiro toca dentro do cinema e ele já ia desligá-lo, mas ouviu que se tratava de uma coisa séria, pediu desculpas aos vizinhos e me disse:

- A Linda fugiu!

-O quê?” Perguntei, apavorada. A Linda fugiu de casa?

Uma senhora, ao meu lado, vendo a nossa aflição, e achando que se tratava do filme, perguntou:

-O que foi que você disse? A ex-mulher do cantor, apaixonado por ela, fugiu do asilo?

-Não, minha senhora. Respondi. Linda, é a cachorra rotweiller do meu companheiro, que fugiu da casa dele, em Petrópolis.

-Cachorra? Essa mulher não é uma cachorra só por que não quer ficar com o ex-marido. Ela tem o direito.

-Desculpe, minha senhora, mas não se trata do filme, mas da cachorra do meu companheiro que fugiu de Petrópolis.

Meu companheiro desligou o telefone e disse, levantando-se da cadeira:

-Vamos já pra lá.

A senhora do meu lado quando nos viu levantar ainda perguntou

-Não estão gostando do filme?

Levamos mais de duas horas para chegar à Petrópolis, e lá encontramos a Linda, enturmada com alguns cachorros de rua, como se tivesse preferido se mudar pra um asilo de pobres, na rua, mas pertencer a uma turma de amigos e colegas, como os antigos cantores de ópera, até nos ver, de longe e vir correndo, abanando o rabo em nossa direção, como o personagem do filme, de uma idosa, que de vez em quando volta ao passado, se arruma toda e diz que seus pais vieram lhe buscar e estão esperando por ela  no jardim.

Somos todos animais presos à infância, junto com o pai e com a mãe, apesar de todas as óperas às quais já  pertencemos.

Tags: filme, jardim, JB, linda, presos

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