Sabedoria da idade
Mas que sabedoria é essa? Hoje em dia, com a tecnologia avançada, ficamos muito menos sábios que nossos netos, por exemplo. O meu, de oito anos, fica estressado de tanto que eu o chamo para ver o computador que não me obedece e só faz o que quer, na hora que bem entende. A TV às vezes empaca numa foto escrita: “menu”, como se eu fosse encomendar uma pizza, por exemplo , e não sai dali nem que eu clique todos os canais possíveis e também impossíveis que a Net manda sem eu ter conhecimento. Engraçado essa coisa de sabedoria da idade...Antigamente era absurdo não se saber bater à máquina, por exemplo, e lá fui eu pro curso Ted em Copacabana, quando resolvi escrever profissionalmente.
Hoje em dia, o que a criançada ri de eu clicar o computador com todos os dedos! Gastei um dinheirão de Ted à toa. Isso, hoje em dia, é sinal de velhice, não de sabedoria.
Pra mim, a coisa que mais pega na minha idade é me esquecer de tudo. Só que sempre foi assim. Talvez tenha piorado um pouquinho, mas a memória, realmente, tá pedindo arrego. Por isso escrevo tudo o que devo lembrar numa agenda que anda agarrada comigo, tipo namorada. Pois não é que a perdi? Todo mundo diz: “ só pode estar dentro da sua casa!” Tudo bem, mas aonde? Na caixa d`água? Dentro do forno ? Por que em lugares possíveis, até hoje não a encontrei. Pode ser que venha a achar quando já tiverem passado todos os meus compromissos assinalados nela. Ainda bem que foi a de compromissos, o que já é um terror, mas se fosse a de endereços e telefones eu já tinha morrido...
Então tenho que lidar com o esquecimento. Ok. Isso eu já sei e vou comprar outra agenda, rapidinho, antes que esqueça.
Outra coisa que foi piorando na minha vida, mas que sempre esteve no inconsciente, foi a confiança que deposito em todo mundo, tendo sido roubada uma centena de vezes.
Antes tinha um faz-tudo que eu amava, que era o Bahiano. Gostava dele como amigo. Ele morava no morro e tocava violão como ninguém. Adorava música e nós dois ficávamos tirando-as do baú, num violão que eu tinha e que nós tocávamos. Levei o Bahiano até pra ver a peça do Sergio Cabral pai, encenada pelo Duseck. Ele até chorou de felicidade e gritava, em pé, no teatro: ”Obrigado!Obrigado!”
Mas o Bahiano estava essa maravilha por que tinha parado de beber e estava se tratando no AA. Mas um dia encontrei-o no botequim tocando violão e tomando cerveja. Desde aí passou a não aparecer mais na minha casa e a largar o trabalho. Substituí-o por um outro faz-tudo, tão maravilhoso quanto ele, e que também tocava violão pra mim, fazendo-me lembrar do meu professor Patricio Teixeira que me dava aula quando eu era criança. Então, um dia ele me pediu o violão emprestado pra tocar na Igreja Evangélica. No dia seguinte, encontro-o no jornaleiro que nos apresentou, caindo de bêbado e dizendo que “os caras” do bar tinham quebrado o meu instrumento. Caras do bar? Mas ele não era evangélico?
E por falar em violão, tive também um amigo, que tocava o mesmo instrumento na peça que fazíamos do Vianinha. Roberto era um super profissional e amigo. Um dia foi lá em casa e se apaixonou pelo violão do papai, que era um Di Giorgio caro. Pediu-me pra usá-lo na peça, o que não achei nada demais, pois estaria trabalhando junto com ele. Só que, três dias depois, cheguei no teatro, perguntei pelo Roberto e o porteiro me disse que ele tinha ido pro México.
- Pro México? E o meu violão? Perguntei.
- Ué. Era seu? Foi com ele também.
Dessa vez resolvi não deixar passar impune. Telefonei pra um amigo, cujo pai era embaixador no México, contei a história pra ele, e três dias depois meu violão chegava na porta da minha casa, mandado pela Embaixada.
Depois de tudo isso, já não era pra não confiar cegamente nas pessoas, principalmente os que tocam violão? Cadê a sabedoria da idade, meu Deus? Vai chegar algum dia pra eu escolher uma tumba legal sem problemas, como tenho tido com os pedreiros, sem nenhum coveiro que toque violão?
